Jeso Carneiro

Uma luta pela história

ICBS (Santarém - PA)
Sede do ICBS, na travessa 15 de Novembro

por Sidney Canto (*)

Desde criança, frequento o Instituto Cultural Boanerges Sena. Foi lá que pela primeira vez eu li as páginas do “Tupaiulândia”, do Paulo Rodrigues dos Santos, além de me inspirar em sua coleção de jornais “O Mariano”, para continuar a publicação de alguns números do mesmo.

Hoje em dia, continuo sempre a me empolgar com as conversas que mantenho com o Cristovam Sena sobre cada nova descoberta sua, cada aquisição (que geralmente ele encontra em lojas de livros usados) que advém de suas viagens pelas capitais do Brasil, ampliando o seu acervo, quase que exclusivamente devotado à Amazônia e a Santarém.

Não seria absurdo afirmar que sua biblioteca possui o melhor acervo local para pesquisa sobre a história da nossa região. São livros, jornais, vídeos, fotografias, mapas e diversos outros documentos. Eu sempre o consulto com frequência, principalmente os jornais. Por conta disso, tenho consciência da importância que tem o trabalho do ICBS (leia-se Cristovam e Ana Rute, sua esposa) para a memória da história de Santarém e da região.

A luta pela preservação da nossa história é feita por pessoas que muitas vezes não dispõem de muitos recursos, mas de uma imensa boa vontade. Isso o Cristovam apresenta de sobra, além do carinho e da persistência de quem transformou o que faz em um hobby edificante. Contudo, não basta apenas adquirir um bom acervo (coisa que o Cristovam faz com louvável estima), mas também preservá-lo.

Fato preocupante já é a condição de alguns jornais de sua hemeroteca. O manuseio que os mesmos tem tido a vários anos, aliado às condições de umidade e armazenamento desse acervo, tem levado à deterioração de parte deste dele – ão importante para a nossa história.

Infelizmente, o poder público (não somente a prefeitura, os vereadores, mas até mesmo o governo estadual, a Assembleia Legislativa e o Ministério Público) não tem aplicado nenhum esforço na preservação deste acervo, que apesar de ser privado de uma instituição como o ICBS, que faz parte da memória e da cultura de nosso povo.

Afinal de contas, o patrimônio público, artístico, cultural e histórico deveria, mesmo que em posse de algum particular, ser mantido e preservado por toda a coletividade. Um acervo como o do ICBS não pode ser perdido, em época em que tudo pode ser digitalizado e colocado à disposição do publico interessado e dos pesquisadores.

Sei que o Cristovam faz o possível, mas lhe falta mais apoio para que seu trabalho continue. Digitalizar o acervo, cuidar para que ele não se perca, ajudá-lo com a manutenção seria o mínimo que o poder público poderia fazer. Oxalá este apoio apareça, antes que mais uma vez fiquemos nas lamentações de que Santarém é uma “cidade do já teve”…

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

* É presbítero da Diocese de Santarém, membro da Academia de Letras e Artes de Santarém – ALAS e presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós – IHGTap.

Sair da versão mobile