Os impactos da pandemia na vida das mulheres. Por Karol Cavalcante

Ao longo da história, as relações sociais foram construídas culturalmente dentro das relações desiguais de gênero, ocorrendo uma desvalorização da mulher e da sua feminilidade.

As sociedades escravocratas e feudais mantinham um sistema de exploração, no qual, os escravos, principalmente as mulheres, não eram consideradas pessoas.

Karol Cavalcante *

Foi somente a partir de 1930 que as mulheres conquistaram o direito ao voto, e com ele advieram outras conquistas, como a possibilidade de serem eleitas a cargos públicos e de estarem à frente da administração pública em vários níveis e esferas administrativas.

Há exatamente um ano, a rotina de milhares de mulheres foi alterada com a pandemia da Covid-19. Pesquisa realizada pela ONG “Gênero e Número”, em parceria com a Sempre Viva Organização Feminista, entrevistou 2.641 mulheres em todo o Brasil com o objetivo de conhecer as dimensões do trabalho e da vida das mulheres durante a pandemia.

Os resultados apontam o quanto a pandemia sobrecarregou as mulheres e evidenciou desigualdades históricas de gênero nas relações de trabalho e no âmbito privado.

As atividades desenvolvidas pelas mulheres no início do sistema capitalista referiam-se a lidar com as máquinas de tear e outras tarefas consideradas pertinentes ao sexo feminino. Nesse sistema a mulher passou a ser a trabalhadora assalariada, acumulando dupla jornada de trabalho, sendo explorada não só pelo companheiro, no aspecto familiar, como pelo próprio sistema, através do pagamento de baixos salários e condições inferiores de trabalho.

 

Os achados da pesquisa alertam justamente para essa realidade que se aprofundou na pandemia com o cumprimento de uma carga horária de trabalho exaustiva e muitas vezes sendo, as mulheres, as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico, 41% das entrevistadas afirmaram que passaram a trabalhar mais no período da pandemia.

Para além do trabalho remoto, as que puderam exercer essa condição, 50% das entrevistadas declararam que passaram a cuidar de alguém durante a pandemia.

Ou seja, para além do trabalho remoto e do trabalho doméstico, as mulheres também passaram a exercer o cuidado com idosos que precisam ficar isolados, além da responsabilidade do acompanhamento escolar do filhos com o fechamento presencial de escolas e creches. Os resultados apontam que para 65,4% a responsabilidade com o trabalho doméstico e de cuidado dificulta a realização do trabalho remunerado.

Afora o universo do trabalho, a pandemia jogou luz sobre um drama que atinge milhares de mulheres em todo país há anos: o da violência doméstica.

Embora tenhamos avançado bastante no que concerne a legislação para combater e punir os casos de violência cometidos contra as mulheres, o Brasil ainda é um dos países campeões em número de feminicídios no mundo. O isolamento social revelou que o ambiente doméstico não é um ambiente seguro para as mulheres. 


— * Karol Cavalcante, paraense, é doutoranda em Ciência Política (Unicamp). karol.cavalcante@hotmail.com

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