Jeso Carneiro

Um golpe na alma da festa: o silêncio imposto ao Largo da Matriz em Monte Alegre. Por Rizonilson Barros

Um golpe na alma da festa: o silêncio imposto ao Largo da Matriz em Monte Alegre. Por Rizonilson Barros

O que inicialmente se apresentou como uma série de erros de gestão na organização da Festa de São Francisco de Assis, em Monte Alegre (PA), agora revela contornos de um plano deliberado, uma crônica de traição à fé e à cultura de um povo.

A percepção de que a conduta do prefeito Junior Hage foi premeditada, envolvendo o uso sorrateiro de instituições como o Corpo de Bombeiros e, mais gravemente, a suposta instrumentalização da figura do pároco Frei Gregório, transforma o ato em um abuso de poder calculado, cuja resposta veio na forma de repúdio e mágoa por parte dos devotos de São Francisco de Assis.

A arquitetura da manipulação: do planejamento à execução

A narrativa de “falta de planejamento” desmorona diante da suspeita de premeditação. A sequência dos fatos sugere um roteiro meticulosamente seguido:

Contratação estratégica: Contrata-se uma atração de porte incompatível com a estrutura que se pretendia sabotar.

Instrumentalização da fé: A figura do pároco, líder espiritual da comunidade, teria sido usada para legitimar ou acalmar os ânimos diante de uma decisão impopular, criando uma falsa aparência de consenso.

O pretexto técnico: O Corpo de Bombeiros é acionado no último momento, não como parte de um planejamento sério, mas para gerar o pretexto “irrefutável” da segurança, transferindo a responsabilidade e justificando a medida drástica.

Essa conduta, se comprovada, caracteriza dolo e má-fé administrativa. O ato não padece apenas de vício de motivação; ele é fundamentado em uma motivação fraudulenta, cujo objetivo real nunca foi o de realizar a festa tradicional, mas sim o de criar um fato consumado para justificar seu desmembramento.

A violação da moralidade e da lealdade administrativa

O princípio da moralidade administrativa exige do gestor uma atuação pautada pela honestidade, ética e lealdade. Usar a boa-fé de um líder religioso e a credibilidade de uma instituição militar para executar um plano pessoal é o ápice da imoralidade na gestão pública.

É um ato de deslealdade não apenas para com a lei, mas para com a própria comunidade que o elegeu.

A reação dos devotos, que “não perdoaram a conduta do prefeito”, é a prova social de que a confiança, pilar fundamental da relação entre governantes e governados, foi irremediavelmente quebrada.

O golpe na tradição, na fé e na economia local

O resultado deste plano foi um golpe multifacetado:

Na fé: Ao esvaziar o Largo da Matriz, profanou-se o espaço simbólico onde a devoção e a celebração popular se encontram, impondo uma derrota à comunidade católica.

Na cultura: Desfigurou-se a mais importante festa do município, rompendo com uma tradição histórica em nome de um projeto personalista.

Na economia: Sacrificou-se o sustento dos barraqueiros tradicionais, que são a base econômica e social do arraial, tratando-os como um dano colateral de um projeto de poder.

A desfiguração da Festa de São Francisco de Assis de 2025 não será lembrada como um erro, mas como uma traição planejada. Foi um ato que revelou um profundo desprezo pela inteligência, pela fé e pela história do povo de Monte Alegre.

A conduta do prefeito, ao manipular instituições e lideranças, ultrapassou os limites da ilegalidade administrativa e adentrou o campo da imoralidade e da má-fé.

A indignação dos devotos é a voz da própria história, que clama por respeito e justiça. Cabe agora aos órgãos de controle e à sociedade civil organizada investigar a fundo os fatos e garantir que tal abuso de poder não se repita, protegendo o patrimônio sagrado de Monte Alegre contra futuros atos de arbítrio.


Rizonilson Freitas de Barros é advogado.

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