Foto – Ascom/Ufopa

Brenda Rodrigues, na noite escura da floresta manteve a calma
Depoimento à jornalista Márcia Reis
Há quatros anos cursando Engenharia Florestal na Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), Brenda Letícia Rodrigues, 21, ao perceber que estava perdida na floresta, no cair da noite, agiu rápido: procurou um abrigo para passar a madrugada até que dia clareasse.
Ela estava na Floresta Nacional do Tapajós, participando de aula prática do curso.
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Mesmo depois do acontecido, a universitária garante que não tem medo de voltar à floresta – e narra como tudo aconteceu.
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“Antes de qualquer coisa, quero agradecer a todas as pessoas que pensaram em mim naquele momento, que torceram por mim. Teve gente que nem me conhece e orou por mim. Queria agradecer muito, porque quando cheguei na base me senti muito aliviada de saber o empenho das pessoas em me procurar.
Como monitora, fui delegada pra monitorar dois grupos. A distância entre um e outro era de 50 metros. Eu me desloquei de um grupo para o outro, e nisso fui me guiando pela trilha que já estava aberta pela marcação das parcelas. Como a professora explicou que eles marcam com piquetes e TNT, achei muito estranho, pois não encontrei o grupo. Mas eu ainda continuava na trilha.
Aí resolvi voltar porque eu já estava muita à frente da linha. Nisso que resolvi voltar, cheguei até o ponto de 250 metros em relação à trilha principal. Não sei de verdade explicar como eu me perdi daquele ponto ali. Não sei explicar como que eu não consegui ver as outras marcações, as outras fitas. Simplesmente me perdi ali.
Sapopema com raiz grande
Naquele momento, tentei achar as árvores inventariadas, porque com as árvores elas eu ia conseguir me localizar no ambiente e saber onde estava a linha e achar a trilha principal. Mas naquele momento eu só andava em circulo e sempre parava no mesmo lugar.
Incrível como, não importava pra onde eu ia, eu sempre parava no mesmo lugar. Conforme foi passando o tempo, começou a ficar mais escuro. Resolvi logo achar um local para me abrigar. Encontrei uma árvore. Uma sapopema, de raiz grande e que tinha um tronco bem próximo à raiz.
Eu estava com todos os equipamentos individuais – capacete, perneira, bota. Tava com meu facão, meu cantil, tinha alguns alimentos na bolsa. Limpei o local, coloquei a minha capa de chuva no chão e fiquei lá. Esperei amanhecer. Fiquei até amanhecer com o facão na mão, pra qualquer coisa, né?
Madrugada de medo
Passar a noite ali foi muito difícil. Não conseguia enxergar nada, só conseguia ouvir muito barulho. Qualquer coisa que a gente ouve na noite escura da floresta causa uma aflição muito grande. Mas em nenhum momento me desesperei.
Claro que eu estava com muito medo, muito medo mesmo, mas mesmo assim não me desesperei, pois eu sabia que tinha gente me procurando. Sabia que de uma forma ou de outra iam me encontrar.
Então o que eu tinha que fazer ali era me manter calma e segura até que me encontrassem. Foi isso que tentei fazer. Não me desesperei.
Logo que começou a escurecer procurei um local pra me abrigar. Não andei durante a noite. Tentei me proteger ao máximo com tudo o queeu tinha lá.
Segundo dia na mata
Quando clareou o dia, fiquei um tempo ainda no lugar onde passei a noite. Pensei que, já que estavam me procurando, uma hora ou outra iam passar por ali. Esperei um pouco pra não ficar andando e a gente não se desencontrar.
O tempo foi passando e nada. Eu não tinha noção de hora. Não escutava nada que indicasse que as pessoas que me procuravam estavam perto. E o tempo passando.
Nessa altura, já tinha decidido que outra noite ali eu não passaria. De vez em quando passava uma carreta mais pesada na BR [rodovia Santarém-Cuiabá, a BR-163] e ouvia de muito longe o som dela trafegando. Naquele momento decidi que eu ia, pelo som dos carros, pelo som das carretas, encontrar a BR. Não importaria o tempo que ia demorar pra chegar lá.
Decidi ir, então, andar. Acho que caminhei durante umas duas horas e, graças a Deus, cheguei na base do km 72 [da BR-163]. Cheguei bem, não sofri nada de grave. Só picada de mosquitos na parte do meu corpo que não estava protegida – um pouco nas mãos, um pouco no rosto. Fora isso não aconteceu nada de grave.
Retorno para floresta
Passei por isso, e não desejo pra ninguém, porque uma noite dentro da floresta mexe com qualquer um. Mas não tenho medo de voltar pra outra [aula] prática. Não estou com trauma por ter vivido isso. Adoro o curso que faço, adoro estar na floresta. É o que eu gosto de fazer.
A experiência que adquiri na aula prática dentro da floresta me ajudou a manter a calma, me manteve com a cabeça no lugar pra escutar o som dos carros, e seguir o até a BR. Ninguém está preparada pra passar por uma situação assim, mas todas as orientações que a gente ouve, as estórias dos manejadores, as pessoas que convivem no local, isso me deu uma força a mais naquele momento”.