Jeso Carneiro

A música da eleição santarena

por Tiberio Alloggio (*)

A incidência de temas gerais ou nacionais tem pouca influencia no resultado final das eleições municipais, cuja peculiaridade são os interesses locais, onde o eleitor se preocupa mais com seu “dia dia” e como seu voto pode influir para a melhoria dos serviços públicos oferecidos pela prefeitura.

Mas todas regras tem suas exceções, como é o caso das regiões que no final de 2011 disputaram o plebiscito para a criação de novos estados. Principalmente os municípios de Marabá (Carajás) e Santarém (Tapajós), que ficaram “marcados para sempre” com as consequências politicas pós plebiscitarias.

As feridas abertas com a derrota do SIM continuam sangrando no sul e no oeste paraense, mas se em Marabá a derrota provocou um terremoto na base politica tucano-jatenista, em Santarém ocorreu exatamente o contrário.

Enquanto em Marabá, a revolta contra o Parazinho chegou a gerar uma inusitada aliança PPS e PT em torno da liderança Pro Carajás de João Salame, em Santarém, numa reviravolta espetacular, o governo do Parazinho faturou o passe de uma porção de supostos lideres tapajônicos, a começar pelo demo-ruralista Lira Maia, que durante o plebiscito fingiu de ser o “líder máximo” Pro Tapajós.

Logo em seguida, trocaram também de casaco (entre os mais conhecidos) o vereador Reginaldo Campos (PSB) e o deputado Nélio Aguiar (PMN), que se juntaram ao vice-governador Helenilson Pontes (PPS) e ao tucano Alexandre Von, que já haviam debandado antes do plebiscito.

A justificativa por essa recomposição em torno dos interesses do Parazinho é a derrubada do ciclo petista santareno, iniciado com Maria do Carmo. Para tanto, abre-se mão dos interesses locais e regionais de um povo e curva-se ao poder despótico e arrogante da oligarquia político-econômica de Belém.

Ou seja, com uma cartada só, Simão Jatene arrolou aquela fatia de políticos locais sempre dispostos a trocar “princípios por migalhas”, demostrando toda a inconsistência e inconfiabilidade dessa geração de lideranças politicas santarena.

Gostando ou não, essa é a música de fundo que acompanha a disputa municipal em Santarém.

De um lado, um conjunto de forças bancadas pelo governador tucano Simão Jatene, reunidas em torno da candidatura do também tucano Alexandre Von.

Do outro, a tradição política da prefeita Maria do Carmo, no eixo PT-PDT, apoiando a candidata petista de Lucineide Pinheiro.

No meio, um manípulo de “figurantes” de direita (PSC) e esquerda (PSOL), além dos tradicionais oportunistas do barbalhismo caseiro, claro.

Uma polarização entre o bloco jatênico, cuja retomada de Santarém se tornou um ponto de honra, e os “remanescentes pro tapajós”, entrincheirados no bloco PT-PDT. Uma polarização que já está sendo percebidas pelas pequisas qualitativas, que mostram um crescente emparelhamento entre o candidato de Jatene (em curva descendente) e a candidata petista (em ascensão).

Um dualismo encarado com estilos diferentes, e que a menos de 30 dias do voto já está inflamando o clima político santareno.

Alexandre Von, insistindo com sua propaganda do “já ganhou”, sustentada numa pesquisa manipulada e recheada de “promessas mirabolantes”, mas sem apresentar “propostas”, no mais tradicional estilo triunfalista do marketing tucano.

Uma mensagem toda centrada numa suposta “capacidade” e “preparação” para governar Santarém, tentando se passar como a “grande novidade” a “mudança”, fazendo de conta que nunca governou essa cidade.

No “excesso de entusiasmo”, Von chega ao cúmulo de se apropriar das propostas já contempladas no programa do PT, renomeando-as ao “gosto da casa”. Muitas delas ainda do governo Maria do Carmo.

Enquanto isso, em sua desastrada campanha, o barbalhista Zé Maria Tapajós tenta convencer a si mesmo que é candidato de verdade. Mas sua propaganda está mais pra TápraVon do que pra Tapajós, fazendo de conta que nunca assumiu a prefeitura e que o PMDB não tinha responsabilidades no governo de Maria do Carmo. Um suicídio politico que pode levá-lo a ficar atrás até de Márcio Pinto.

O candidato do PSOL insiste na já fracassada postura de vereador. Sem bússola política, limita-se em bater (com fúria despropositada) ora a direita, ora a esquerda. Suas aparições “sinistras” e “apocalíticas”, acabam por espantar o eleitor ao invés de cativá-lo.

Rubson Santana é, sem dúvida nenhuma, o maior fracasso dessa campanha. Toda sua proposta política se reduz à pobreza do lema de uma coligação(?) que nem existe: “Acorda Santarém, mudança já”. Péssimo intérprete de si mesmo, acabou sumindo de sua própria propaganda, deixando terceiros falar por ele. Nem o próprio Rubson deve ter se aguentado na hora de assistir aos seus spots na televisão.

A professora Lucineide segue “cortando a distância” que ainda a separa do seu adversário, tentando mostrar a “inconsistência” de seu oponente e sua “relação íntima” com os fracassados governos de seu sponsor local, o ex-prefeito Lira Maia.

Sua propaganda é boa, mas ainda demonstra dificuldades em incorporar os “Grandes Projetos” em fase de implantação em Santarém: a grande Região Metropolitana, Minha casa Minha Vida, o saneamento e as duas estações de tratamento, o terminal fluvial, o Hospital Materno Infantil, entre outras.

Entender a dimensão e a importância de obras dessa magnitude, o impacto que terão sobre a futura capital do Estado do Tapajós, conseguir visualizá-las e transferi-las para o imaginário do povo santareno seria o “xeque mate” para todos seus adversários, que só sabem falar de picuinhas.

Com um adversário insistindo em apresentar Santarém como uma cidade desastrada e abandonada, Lucineide tem que pensar grande, pois a Santarém pintada por Von em sua propaganda já não existe mais. Ou melhor, existiu na época do governo deles.

Enfim, pela importância política de Santarém e pelo tamanho das forças em campo, essa é o tipo de eleição que se joga entre Von e Lucineide. Os demais só terão influencia no numero de votos que conseguirão subtrair a um campo ou ao outro.

Seja Von, como Lucineide ainda tem muitas balas na agulha e deverão disputar voto a voto uma eleição que só será definida na ultima semana de campanha. O resultado final, ainda é imprevisível e quem ganhar, será por uma diferença mínima.

O lado triste de tudo isso é que a eleição tem um turno só, correndo o risco concreto, do próximo prefeito(a) de Santarém ser eleito(a) com apenas uma minoria dos votos válidos.

A conferir.

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