por Jota Ninos (*)
As peças do imenso xadrez de 2012 começam a ser movimentadas.
E para não ceder um xeque-mate para a oposição, é preciso cortar na própria carne. A saída de uma das concunhadas preferidas da prefeita Maria do Carmo faz parte deste ritual. Figura de frente da Martilândia desde a entronização de Maria no poder, e com o aval especial do Grande Irmão, Alba Valéria atravessou todas as turbulências possíveis, mas agora é preciso ceder o lugar para quem pode dar outros frutos. Em seu lugar deve entrar o microempresário e pau-pra-toda-obra Inácio Corrêa.
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Poderíamos gritar “buracos de Santarém uni-vos, pois agora, todas as verbas do mundo deverão ser conseguidas para mostrar a capacidade do novo secretário de Infraestrutura de tapar aquilo que Alba não conseguiu”? Obras do PAC sairão do emPACamento? Portos, pontes e outras obras farão de Santarém “um canteiro de obras”, como vociferou Everaldinho em recente entrevista encomendada por 30 dinheiros num jornal local? Vale-tudo para que a Martilândia continue soberana, nem que mil Pelosos esperneiem…
Inácio é pragmático e super bem-mandado. Ex-pupilo do padre Edilberto Sena (o eterno criador de criaturas que o traem), começou sua atuação no movimento popular no extinto MEB – Movimento de Educação de Base. Era tido como uma espécie de “grilo falante” da esquerda festiva dos anos 1980.
Conhecido por sua sensatez, Inácio sobrevivia bem num campo de batalha onde as famílias Peloso, Ganzer e Pastana trituravam qualquer oposição ao reinado “correntista”(*) do PT. Antes mesmo de conseguir impor seu projeto “Marionete” do Carmo e passar a dominar o partido, Everaldinho tratou de cooptar Inácio para ser seu lugar-tenente, assim como já havia cooptado a maior pupila de Edilberto, a então vereador Socorro Pena, hoje sua esposa.
Com a fidelidade de um cão, como o lendário Hashiko, Inácio coordenou as campanhas de Maria (à prefeita e à governadora), esquentou o banco do futuro primeiro-damo na CDP (Companhia Docas do Pará) e foi até candidato a vereador para dar um “chega-pra-lá” no maior adversário dos Martins no PT: o então vereador Pedro Peloso.
A briga de Titãs acabou mal pras duas facções, que acabaram derrotadas pela vaga na Câmara, em 2000. Mas Inácio só cresceu no conceito do Grande Irmão, até se tornar o chefinho de Gabinete preferido por não questionar o chefe maior e estar sempre a postos para uma nova batalha. Não há melhor perfil de subalterno para um grande general do que um lugar-tenente do tipo “capachão”…
Guerras de Alexandres e Raimundos
Quando Maria viveu o inferno astral de seis meses, na tentativa de ganhar do STF (Supremo Tribunal Federal) a licença para governar pela segunda vez os destinos de Santarém, o nome que saiu do colete de Everaldo para uma possível nova eleição foi o de Inácio. À época, escrevi aqui no Blog do Jeso que, coincidentemente, o candidato petista seria um Raimundo Inácio Campos Corrêa, assim como Raimundos eram os outros dois candidatos na provável disputa (Alexandre Raimundo Vasconcelos Von e Raimundo Márcio Pinto). A Guerra dos Raimundos, como a batizei, acabou não acontecendo naquele ano, mas ao que tudo indica, ela apenas pode ter sido adiada para 2012.
Com o fracasso do plano A para a sucessão de Maria – já que Carlos Martins foi derrotado para deputado federal – a Martilândia chegou a sonhar com a possibilidade de um plano B com Alexandre Padilha, ex-ministro de Lula, tido e havido como grande aliado dos Martins. Mas a presidenta Dilma Roussef entronizou o médico no Ministério da Saúde acabando com a possibilidade de termos uma “Guerra de Alexandres” (Padilha e Von) em 2012.
Antes que outros nomes queiram se enxerir na disputa (como a sempre assanhada por poder, Lucineide Pinheiro, titular da Semed), o jeito foi Everaldinho apelar para o plano C. “C” de Corrêa, do tipo Inácio, mas sem sangue-azul nas veias, apesar de carregar o nome de um ex-prefeito da grife Barão do Tapajós…
Para que os petistas não digam que só os persigo, é bom frisar que se Raimundo Inácio é um bem-mandado de Everaldinho, seu possível opositor nas eleições de 2012, Alexandre Raimundo, já é PhD como bem-mandado!
Eterno capacho de Lira Maia, o deputado tucano vem sendo indicado para dar sequencia à mal-afamada República do Cipoal(**), provavelmente com algum vice, bem-mandado, da família Maia (o vereador Erasmo é pule de dez nessa função) para vigiar de perto o grande pupilo (assim como ninguém confia em Lira Maia, ele também não confia em ninguém que não seja da sua família).
É quase impossível o próximo prefeito sair de outro grupo político que não esses dois. Ainda não surgiu uma terceira via viável na política local. Nem mesmo o bem intencionado Raimundo Márcio Pinto tem esse perfil. Pode-se até dizer que ele seria também um bem-mandado de um grupo que tenta se firmar como alternativa de poder nas próximas eleições. Mas o PSOL e Márcio ainda são uma grande incógnita na política local.
Além dos Raimundos, há que se considerar os Nonatos. Sem parecer pejorativo (e talvez já sendo…), me refiro aos nordestinos que vislumbram cada vez mais chegar ao poder municipal. Em 2012, terão um município inteiro só deles (Mojuí), mas nada impede que queiram abraçar uma “pérola” de oportunidades. E não lhes faltam candidatos de grife: o vice-governador Helenilson Pontes e seu irmão-siamês Nélio Aguiar não podem ser descartados nesta contenda. O problema é que a inexperiência política dos dois pode entrar em choque com as pretensões de Jatene e de Lira Maia em fincar uma bandeira demo-tucana em Santarém.
Até o mundo mineral sabe que Jatene apenas suporta Lira Maia pelo caminhão de votos que ele representa. E apesar de ter como sonho de consumo Alexandre Raimundo para a prefeitura, torce o nariz à subserviência de Alexandre à Maia e para a ingerência de Maia na vida política de seu pupilo. Se pudesse unir o útil ao agradável, Jatene confirmaria Alexandre na disputa, mas com um vice nordestino indicado por seu vice Helenilson. Nélio seria este nome, mas os irmãos xipófagos nordestinos já não falam totalmente a mesma língua. Nada, porém, que não possa ser consertado num futuro breve. Entretanto, o sonho de consumo jatenista não pode vingar sem antes combinar com Maia. É aí que a tucanada rasga a plumagem…
Em termos de peso eleitoral, os dois principais Raimundos na disputa de 2012 são relativamente fracos. Alexandre Raimundo, apesar da exuberante vitória para estadual, é sempre um nome (literalmente) pesado. E se os nordestinos racharem com Maia, pior ainda. Uma derrota seria o ocaso político de Alexandre Raimundo, e quem sabe de Maia, apesar deste ter fôlego de gato.
Raimundo Inácio também é pesado, mas dificilmente terá oposição interna. Os grupos petistas encabeçados pelos Peloso vão estrebuchar, mas no final aceitarão as regras do jogo, afinal eles não têm uma alternativa para desbancar os Martins.
É bom acompanhar, também, a movimentação de outro “bem-mandado”. Neste caso, um vereador, filho de um político que tem sobrevivido às sombras do Poder. Osmando Figueiredo, depois do fracasso de seu projeto de eleger o filho vereador Bruno Figueiredo como deputado estadual, coloca-o numa secretaria (Semab) que nunca comandou para dar-lhe alguma visibilidade política. Quantos dossiês isso custou aos petistas? Só no futuro se saberá. E a iniciativa tenta apenas preservar o mandato de vereador de Bruno ou vai querer fazer dele um possível vice de Inácio? De Osmando, tudo pode se esperar.
No final, o que poderá definir o vencedor dessa guerra será o confronto entre as máquinas do Governo do Estado com as máquinas do Município e do Governo Federal. Pena que no meio destas máquinas estará o pobre eleitor santareno, eterno esmagado por uma democracia nada representativa.
(*) O grupo hegemônico que comandou o PT a ferro e fogo nos anos 1980, era conhecido por “Corrente”, alusão à “Corrente Sindical Lavradores Unidos”, braço do PT no movimento sindical rural. Depois, rachou-se em dois grupos: o PT Pra Valer (Ganzer e Pastana) e a Articulação Socialista – AS (Peloso);
(**) O termo “República do Cipoal”, criado pelos irmãos Carneiro para designar os oito anos de mandato de Lira Maia à frente de Santarém, talvez nem seja adequado. Ao se dizer “República” denota-se sentimentos de democracia que Lira Maia nunca teve. Monarquia do Cipoal seria mais adequado…
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* É jornalista. Escreve regularmente neste blog.