Evaldo Viana (foto), servidor público federal e articulista do blog e do “TV Blog do Jeso”, comenta o post-réplica do médico Karlisson Lima “Os cubanos vão entender os ribeirinhos?”:
Sr. Karlisson,
Seria injurioso supor que as razões de fundo de seus posicionamentos sejam eminentemente corporativistas, que é uma praga, doutrina ou visão ideológica nefasta que acomete a quase totalidade dos médicos brasileiros praticantes e defensores do umbigocentrismo.
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Não sendo a defesa de interesse mesquinho e egoístas que motivam as suas ponderações, como se poderia justificar a sua oposição desmedida e até raivosa à vinda de médicos estrangeiros para uma região onde há um mísero médico para cada 3.000 habitantes?
Argumenta o Sr. que a não vinculação desses profissionais a um Conselho de Classe, como o egoista e escandalosamente corporativista CRM, teria sérias repercussões no desempenho das atividades dos médicos estrangeiros pelo fato de que, diferentemente dos brasileiros, aqueles não estariam vinculados ao código de ética médica imposta pelo famigerado CRM.
Que código de ética é esse imposto pelo CRM e praticado pelos nossos médicos? O que defende que os médicos devem primeiro defender os seus interesses corporativos e lutar encarniçadamente contra qualquer ameaça aos interesses de classe?
O que não vê absolutamente nada de errado quando o médico, estando na obrigação de consultar um paciente do SUS durante 20 ou 15 minutos para levantar a sua HDA o dispensa 30 ou 40 segundos após o início da consulta e receita uma cibalena ou mebendazol ou dipirona para os seus males?
E a sua colocação quanto à dificuldade que o médico estrangeiro teria de entender o paciente ribeirinho não se lhe parece absurda, vez que a linguagem ou idioma da dor e do sofrimento é universal e para entendê-la é suficiente querer e sensibilizar-se com os padecimentos alheios?
Por a caso, o CRM e o médico brasileiro entende essa linguagem, o idioma do ai, e se o entende o quem tem feito para atenuar a dor dos enfermos que agonizam sem sequer ter a expectativa de que um dia poderá contar suas dores a um médico? Será que o melhor que pode ocorrer à sua classe para enfrentar o grave problema da falta de médicos é opor-se colericamente a um programa do governo federal que ao menos paliativamente pode colaborar para resolução de parte desse problema?
Não, Sr. Karlisson, há outras coisas que o sr. e o CRM bem poderiam fazer agora para sentar entre os que estão à busca de soluções para os nossos problemas, por exemplo, adotar e praticar um verdadeiro código que realmente defenda a vida e a dignidade da pessoa humana e repila, energicamente, o farisaísmo e a hipocrisia de uns tantos que se apresentam como defensores dos interesses da coletividade.