
por Apolinário (*)
O barco Espírito Santo ancorou em Santarém no porto da praça Tiradentes, no domingo dia 21, às 6h45. Ao chegar, Jéssica liga para um amigo (paquera sem compromisso fixo) Vancley, gerente do navio/motor Golfinho do Mar, onde estava garantida sua passagem com direito a acompanhante com camarote e tudo até Manaus. Vancley já conhecia Jéssica de outros temporais, inclusive com moderada frequência o mesmo depositava dinheiro na conta da tia de Jéssica.
Então, Vancley foi buscar Jéssica em seu carro para levá-la à casa de Luíza, prima de Mauro, que neste momento dormia numa rede na sala. Vancley deixou Jéssica e disse que qualquer coisa ela poderia ligar para ele. Já eram 7h, quando Jéssica chegava à casa de Luíza com sua mala pedindo agasalho até terça-feira 23, data da saída do Golfinho do Mar para Manaus.
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Segundo Luíza, Jéssica estava um pouco mais ousada, com cabelo mais vermelho e brilhoso, se adiantando em tudo, radiante, festiva, intranquila, buliçosa e afoita. E alegremente falando no sonho que tinha em conhecer Alter do Chão, de pisar na areia, mergulhar nas águas e subir no topo da serra e olhar tudo lá de cima (lá de cima você vê que lá em baixo tudo é bonito e não entende porque lá em cima é feio e desconfortável. É como se você atravessasse um purgatório de calor e cansaço para chegar ao céu e descobrisse que aqui na terra é mais bonito e que Deus nunca esteve lá em cima. O lugar é belissimamente sinistro).
Então Jéssica foi expressando cada vez mais sua força de espírito e o tempo resumindo o dia por segundo, fazendo com que a hora de sua morte fosse se aproximando. Eram quase 9h. Mauro já teria acordando, banhado e estava tomando café, pois ele havia passado uma boa parte da noite, entrando pela madrugada, estudando assuntos que pretendia desenvolver com um grupo de jovens na igreja Matriz.
Mauro não conhecia Jéssica. Ficou surpreendido com a maneira como ela foi se apresentando, dominando o espaço e em tão pouco tempo garantido com a força da sedução que ele a levasse em sua moto para conhecer Alter do Chão. Assim, ficando tudo combinado entre os dois depois do último almoço de suas vidas, lá por volta das 12h30, o casal dava início a uma jornada que se dividia entre a beleza da paisagem e o inferno da maldade em transição. Mauro jamais imaginou que Jéssica seria o seu ingresso cortesia para a boca da morte no final daquela tarde.
Normalmente alguns casais que vão para Alter do Chão procuram as praias mais afastadas dos olhos do grande público. São casais que se gostam, se amam, se comem, se lambem e viajam na liberdade da loucura poética da mente, e na beleza das profundezas do coração. Porém, toda essa emoção deve ser controlada e mantida em segredo entre eles, simplesmente pelo fato de que na vida real são casados com outras pessoas que não gostam, mas precisam conviver com ela.
No mundo do amor sexual sempre foi assim, um ama o outro, participa de todos os eventos sociais, religiosos e políticos, saem abraçados nas colunas dos jornais como os representantes oficiais da moral do lugar, depois numa folga da farsa acham necessário comer alguém por fora. Logo, enfrentam alguns obstáculos quando um quer ficar com a mulher do amigo ou a mulher deseja saí com o cunhado. Para muitos, convidar o outro para ir ao motel é agressivo demais e sem poesia, então, fica bem melhor convidar para ir a uma praia.
Um vai à frente e o outro vai atrás por ali arrodeando, devagar até chegar ao deserto combinado. Chegando lá os pertences pessoais (óculos de marca, carteira com dinheiro e cartões, joias, celular e máquina fotográfica de primeira linha) são reunidos em uma só trocha na saída de banho da princesa ou na camisa do herói. Cuidadosamente a trocha é colocada debaixo de um arbusto enquanto o amor sexual ensaia um orgasmo subaquático…
Atualmente em Alter do Chão isso tem despertado a possibilidade de gerar renda para pervertidos e alguns desocupados, já que tudo o que é proibido dá dinheiro e não paga imposto.
Há mais de três meses, um grupo de micróbios (nome que se dá para a parte podre do movimento hippie) que fica esperando que algum casal praticante de amor proibido venha para as praias desertas de Alter do Chão, para que eles possam roubar os seus pertences de valor no momento de descuido. São aquelas figuras desaforadas que não estão nem aí com nada, mandam ver qualquer parada, acham que o mundo é que deve se adaptar a eles. Estão o tempo todo dos dias noiados, pensando, premeditando ou fazendo coisas erradas para se capitalizarem e continuarem financiando sua proposta de fuga.
São grupos de homens fortes, destemidos, sem documentos, articulados, escondidos pelas matas de Alter do Chão. Eles sabem que essas pessoas ao voltarem para a cidade, registrarão apenas um Boletim de Ocorrência dos documentos perdidos para não revelarem o que de fato estavam fazendo escondido.
Então, Jéssica e Mauro chegaram à Alter do Chão e atravessaram para a ilha do Amor aproximadamente às 13h40. Caminharam por entre as pessoas e visitaram algumas barracas. Num determinado momento, Jéssica pegou o celular e ligou para Vancley, o mesmo não atendeu. Então, ela deu um suspiro e falou em voz alta “Nossa que lugar lindo…”.
Obs.: No próximo episódio deste caso, a continuação de tudo o que aconteceu no assassinato de Jéssica e Mauro. E a evolução que houve nas investigações quando o delegado Silvio Birro e sua equipe assumiram o caso.
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* Santareno, é artista plástico.