por Apolinário (*)
– E aí, playboy, cadê a gatinha?
Sem responder, Mauro apenas esboçou um riso negativo e ficou estático. Os micróbios logo se desinteressaram em ficar ali. Dois ou três deles alertaram o grupo da pressa que tinham de chegar a uma embarcação que estava ancorada na praia do Tauá, localizada ao lado esquerdo de quem sobe a serra. Eles tinham ido à praia apenas para pegar umas paradinhas para fumar que haviam deixado guardado em uma árvore na ponta da praia da Ilha do Amor.
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Deviam voltar rápido, pois estavam sendo esperados no barco por algumas pessoas com quem iriam fazer uma comemoração (os malucos que haviam chegado de Floripa com uns brinquedos diferentes), por isso deixaram Mauro para trás e entraram mais à frente em direção ao destino programado.
Jéssica, que se encontrava um pouco fora do caminho onde pediu um momento para tirar o biquíni molhado que lhe incomodava e fazer xixi, voltou só de short e blusa para a beira da estrada junto a Mauro. Ambos andaram mais dez metros, continuando a viagem ao topo da serra. Jéssica pegou o celular e mandou uma mensagem para Wancley: “Tô subindo a serra!”.
Neste momento, uma galerinha interagia tudo de maneira particular; jovens mirrados, moradores da vila, que na maioria das vezes está por ali com os micróbios fumando, bebendo, filosofando e procurando coisas perdidas ou fáceis para se apropriarem, qualquer coisa que venha contribuir com a adrenalina, provocar sensações diferentes, mexer um pouco mais com as peças do sistema.
São garotos mal vistos na vila, rejeitados pelas garotas certinhas, aceitos somente pelas vampiras, questionados constantemente pelos caretas, religiosos, educadores e pelos próprios pais, que aos poucos foram sendo discriminados e rejeitados pela força moral catequisada dos borari. Acolhidos pelas drogas e pelos caminhos incertos e obscuros dos labirintos da vida.
– Que legal, moleque… essa parada é muito doida…
O homem é uma construção que não deu certo, porque Deus não desenhou antes de fazê-lo. Mas exige que o homem faça sozinho o seu próprio projeto de existir e ser. É aí que mora o perigo. Nem todos terão a noção de limite.
Assim, a galera dos meninos da vila pegou Jéssica e Mauro igual a dez gatos quando põem as garras em duas borboletas sem asa.
Um banquete de gritos, correria, pauladas, facadas, sexo, muita adrenalina, desejo, tesão e orgasmo. Foi muito bom e prazeroso para eles sentirem de perto o sangue quente de Jéssica e Mauro espirrar nas suas direções. O que neste momento era terror, assombração e morte para Jéssica e Mauro, para os garotos era apenas liberdade de expressão, uma resposta para algumas mágoas, amor e até, quem sabe, vontade de Deus. Quando o poder é pouco para decidir a sobrevivência de alguém, se decide a morte de outro.
Depois do ritual, a galera dos meninos da vila dos borari arrastou os corpos de Jéssica e Mauro um pouco mais para dentro do mato para que não fossem vistos com facilidade. Livraram-se das armas e foram lavar o sangue dos dois nas águas do rio Tapajós.
Por volta das vinte horas, Seu Luís e Luísa, tio e prima de Mauro, começaram a entrar em desespero. Os celulares estavam fora da área de serviço o tempo todo, a preocupação foi se ampliando a cada segundo que o tempo passava.
Segunda-feira, dia 22 de outubro, o grito de alerta foi dado. As buscas começaram. O subtenente Washington, do Corpo de Bombeiros, atuou diretamente nas buscas, procurando centímetro por centímetro das praias, lagos, trilhas e mata a dentro, até que na terça-feira, dia 23, aproximadamente às 13 horas, os corpos de Jéssica e Mauro foram encontrados na estrada da serra em adiantado estado de putrefação.
O delegado Silvio Birro não pode ficar em Santarém porque tinha agendado um compromisso em Manaus, e depois tinha que viajar ao Paraná a assuntos de sua capacitação policial. Mas a sua equipe de investigadores, que é a melhor do oeste do Pará, assumiu o caso e o delegado ficou dando assistência via telefone ou e-mail, sempre que havia possibilidade.
Birro não é subordinado à superintendência. Ele recebe ordens diretamente de Belém. Nessas circunstâncias, ficou certo que sua equipe faria as investigações, mas outros delegados ganhariam a mídia dos resultados na imprensa. Na verdade, Silvio Birro é um delegado que não se preocupa com mídia. Essa equipe só trabalha com casos graves. É a elite da Polícia Civil de Santarém.
Quando os investigadores viram os corpos no local do crime, tomaram nota de todos os acontecimentos e movimentos em volta da performance dos criminosos e da trajetória das vítimas, de onde saíram até o local onde foram mortos. Encontraram o celular de Jéssica desmontado, mas ainda assim dava para ler as últimas mensagens recebidas e efetuadas.
A última mensagem enviada por Jéssica foi para o celular de Wancley – “to subindo a serra” – por isso, ele teve o seu aparelho retido na delegacia por alguns dias. O caseiro de uma chácara que fica perto ao local do crime foi interrogado e disse não ter ouvido som de tiro na área. O lugar é bastante silencioso, se alguém tivesse atirado, ele teria ouvido o disparo.
A perícia diz que um ferimento na cabeça de Jéssica, que parece com um furo de arpão, é de tiro e, possivelmente, calibre 22, mas não acharam o projétil e nem fizeram raios-X, alegando que o corpo de Jéssica tinha mau cheiro. É natural, Jéssica já teria passado da fase de estar cheirosa e maquiada para fazer o exame, isso faz parte da vaidade do mundo dos vivos.
A imprensa santarena acatou a tese de que o crime era passional: marido ciumento teria mandado matar a mulher e o amante. Alguns diziam que se tratava acerto de contas por envolvimento de Jéssica com traficantes, acusaram-na de ser avião (pessoa que negocia a droga entre o traficante e o usuário). Alguns blogs mostraram a imagem dos corpos com os golpes e a nudez de Jéssica banhada em sangue, jogada no mato.
Os policiais da equipe de Silvio Birro chegaram à conclusão de que o crime era muito extravagante para ter sido feito por profissionais, que se tivesse arma de fogo, com a mesma extravagância com que cortaram e furaram, teriam dado mais tiros, inclusive em Mauro (a perícia não prova que houve tiro).
Jéssica e Mauro tinham o perfil físico que os assassinos queriam para se divertir. O crime foi por impulso de crueldade. Na vila, que preferia que o crime fosse passional, diziam: “O crime veio de fora, não temos nada a ver com isso!”. Agora sabem que o crime foi também pela falta de segurança e preocupação com o bem-estar dos visitantes.
Com a prisão e a confissão arrancada dos suspeitos, vai ficar muito mais difícil conviver com a ideia de que a própria vila está matando os seus visitantes…
Obs.: no próximo e último episódio deste caso, mais detalhes sobre as investigações, prisão e confissão dos acusados.
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* Santareno, é artista plástico e articulista deste blog.