
A estilista santarena Terezinha Xabregas. Na foto emoldurada, ela e o seu 1º vestido de noiva
por Renata Dantas (*)
Ícone da moda em Santarém, a estilista Terezinha Xabregas se prepara para celebrar seus 40 anos de carreira. As comemorações serão marcadas por um grande desfile neste domingo (14), no Barrudada Hotel.
Na passarela, criações exclusivas da estilista que, ao longo de 4 décadas, se tornou sinônimo de sofisticação e elegância, ao vestir diversas gerações de mulheres e damas da alta sociedade santarena. Vestidos de noiva, debutantes e trajes de gala, especialidades da artista, darão o tom do desfile.
O interesse de Terezinha pela moda veio cedo. Teve início na região do Ituqui, interior de Santarém, onde ela e todos os oito irmãos nasceram. Foi lá que, ainda criança, ela começou a criar roupas para suas bonecas. O pai, cultivador de juta e criador de gado na região, percebendo o talento da filha, fez uma promessa “se até os 15 anos você aprender a fazer camisa e calça dos trabalhadores, te dou uma máquina de costura”. Ela aprendeu. A avó paterna, costureira de mão cheia, foi a primeira professora.
Em pouco tempo, a jovem já costurava calças e camisas para os trabalhadores da fazenda do pai. O tino comercial foi aguçado e ela passou não só a produzir as peças, mas também a vendê-las.
Não demorou muito para que ela se tornasse a costureira da família, especialmente da mãe – sua modelo preferida – e das três irmãs. Até hoje, a memória de Terezinha guarda a lembrança de um pedaço de gorgurão roxo, tecido que bordou pela primeira vez. Fascinada pelo brilho das pequenas pedras do bordado, resolveu não parar mais e investir em trajes de festa.
O primeiro vestido de noiva foi o do seu próprio casamento, elaborado há exatos 40 anos.
“No dia em que casei, a máquina de costura veio comigo e não parei mais. Optei pela moda”, ressalta. Opção que foi aperfeiçoada com muito estudo. “Tenho meu talento, mas sempre estudei muito, nunca parei de me atualizar. Estou sempre a par das tendências”.
A dedicação ao trabalho, porém, exigiu sacrifícios pessoais.
“Muitas vezes eu deixava minha vida pessoal de lado pra me dedicar ao trabalho. Meu marido sempre me apoiou e tinha muita paciência. Às vezes, no Ano Novo, saía da máquina direto para acompanhar minha família na festa”, confessa. A vida pessoal inclui, além do esposo Amós, os cinco filhos – Max Levy, Kirk Amós, Cassius Cley, Marylin Fabíola e Aubermaia.
“Não gostava de deixar as crianças sob os cuidados de outras pessoas, então tinha que dar um jeito de conciliar tudo”, explica. Mesmo sendo responsável pela organização da casa e pelos cuidados com o marido e os filhos, ela nunca abriu mão do trabalho, “para manter minha independência”, revela.
Do ateliê de Terezinha, que leva o nome da única filha Fabíola, saíram peças que vestiram grandes nomes da alta sociedade santarena dos anos 70. Alaíde Ramalheiro, Marita Gentil, Vera Costa Pereira, Luci e Eunice Coimbra, Teresa Cristina Correa, dona Nevinha, Veleide Chaves, Rosmarina Escher, Nilce Meschede, Conceição Lisboa, Terezinha Nóvoa.
Esses são apenas alguns dos nomes que já desfilaram criações com a marca registrada de Terezinha. De lá pra cá, além das mães, as mãos talentosas já costuraram e bordaram vestidos para as filhas, noras e netas dessas damas da sociedade local.
“Até hoje, visto diversas gerações de uma mesma família. É uma tradição”, avalia.
Mas as produções de Terezinha não se limitaram a rodar pelos salões de Santarém. O talento da estilista já percorreu a maioria das cidades do oeste paraense – Oriximiná, Alenquer, Itaituba, Trombetas -, além de algumas capitais, como Belém, Manaus, Curitiba. “Até no Líbano já casaram com vestido meu”, informa.
Em 40 anos de trabalho, foram muitos vestidos. Dentre tantos, ela destaca uma criação especial: o vestido de casamento da própria filha. Outro marco na trajetória da estilista foi o vestido de 15 anos da jovem Larissa Ramalheiro, neta de uma das primeiras clientes de Terezinha, dona Alaíde.
“O vestido da Larissa foi um trabalho muito artesanal, diferente de tudo que já tinha feito, foi todo moldado à mão no próprio corpo da cliente”, enfatiza.
Outro trabalho marcante foi a confecção dos mantos para Nossa Senhora da Conceição. Durante três anos, ela foi a responsável por produzir a peça que veste a estátua para as festividades da padroeira de Santarém. Sobre esse trabalho, disse, na época, “foi a mesma emoção de ter tido o primeiro filho”.
Aos 57 anos, Terezinha ainda produz energicamente em seu ateliê. As mãos permanecem ágeis nos e na costura. Os olhos, ávidos, ainda brilham como os de uma adolescente. Os gestos amplos revelam a sagacidade de quem é apaixonada pela vida que construiu.
“Faria tudo de novo. Nada veio fácil pra mim, mas tudo valeu a pena”, analisa. Se ela pensa em parar¿ “Meu maior sonho é fazer o vestido de 15 anos das minhas netas. Depois, acho que já posso parar”, conclui com um sorriso largo no rosto.
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* Santarena, é jornalista e acadêmica do curso de Direito.