
Um passo decisivo foi dado nas apurações sobre o escândalo Ufopa-Fiam. O MP (Ministério Público) do Pará pediu à Justiça a destituição e o afastamento cautelar de toda a cúpula Fundação de Integração Amazônica.
O pedido de urgência alcança, entre outros, apurou o JC, o diretor-presidente da fundação, Otto Narry Tavares da Silva, e o diretor administrativo-financeiro, Diógenes Moraes da Costa.
Justificativas do MP
A solicitação de afastamento apresentada pela 12ª Promotoria de Justiça Cível de Santarém baseia-se em um conjunto de irregularidades na condução da fundação de apoio.
Segundo o MP, a atual gestão praticou atos incompatíveis com os deveres de lealdade, transparência e moralidade administrativa, promovendo uma centralização excessiva de decisões e desmantelando os mecanismos de controle interno e de segregação de funções da entidade.
Entre os principais motivos apontados pela promotoria para exigir a remoção dos gestores estão:
- Conflito de interesses em licitações milionárias: A realização e manutenção de contratos com a empresa J. L. Pinto Gomes Ltda. (K. J. Construtora), cujo sócio e administrador principal exercia concomitantemente a função de assessor jurídico da própria Fiam.
- Favorecimento de familiares: A contratação direta e recorrente de uma empresa de passagens aéreas pertencente à companheira do diretor-presidente Otto Narry, com autorização e transferência de recursos da fundação para o núcleo familiar de seu principal dirigente.
- Uso irregular de credenciais de terceiros: A prática de atos administrativos e homologações de certames no sistema oficial de compras do governo (Comprasnet) mediante o uso das senhas e logins pessoais de subordinados, comprometendo a autenticidade e a autoria dos atos de gestão.
Diante do risco contínuo de comprometimento do patrimônio fundacional e de interferência na produção de provas, o MP solicitou a nomeação de um administrador provisório para assumir a gestão da Fiam até o saneamento completo da instituição.
Ação sob sigilo judicial
O procedimento corre sob sigilo decretado pela Justiça. A restrição de acesso público foi requerida pelo próprio Ministério Público como medida preventiva necessária para assegurar a efetividade das ordens judiciais e evitar eventual ocultação de documentos ou dilapidação do patrimônio da entidade antes da apreciação das medidas de urgência.137 dias de apuração e desdobramentos
As investigações completaram 137 dias desde a instauração do inquérito civil pelo promotor Túlio Chaves Novaes, titular da 12ª Promotoria de Justiça Cível de Santarém.
O escândalo foi tornado público pelo JC após o mapeamento de um contrato de R$ 1,86 milhão destinado a obras de adequação no campus da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) em Juruti.
O caso ganhou contornos mais graves quando foi revelado que o advogado da Fiam à época, Kennedy Kester da Silva Lima, era o proprietário da empreiteira vencedora. Em depoimento, o presidente Otto Narry admitiu ter tomado conhecimento da fraude em outubro de 2025, mas optou por manter os pagamentos e a vigência do contrato até o encerramento do exercício.
Além de presidir a Fiam, Otto Narry é servidor efetivo da Ufopa e atua como pregoeiro e agente de contratação oficial da universidade. A rede de contratações sob investigação estendeu-se ainda a ordens de serviço diretas firmadas pela própria universidade com a mesma construtora.
Com o pedido de afastamento em análise no Judiciário, o Ministério Público também determinou o envio de cópias das apurações à Polícia Federal e ao Ministério Público do Trabalho para a verificação de eventuais ilícitos criminais e trabalhistas.
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