por Samuel Lima (*)
No começo dos anos 1960, minha mãe foi morar numa casinha cedida pelos irmãos Coimbra, localizada no terreno da empresa de sua propriedade – Coimbra Indústria e Exportação S. A. (Ciesa), na Prainha. Foi o Sr. Hilário Coimbra que intermediou o pedido de mamãe junto à direção da fábrica: colocar uma banca de venda de lanches e refeições na porta da Tecejuta. Assim, ela pode trabalhar para sustentar suas três filhas, eu e o Celsão Lima (rebento de pouco mais de um ano, em 1966).
A Tecejuta era para mim, menino tapajoara, o símbolo da potência dos teares e máquinas enormes que transformavam a juta em sacos para exportação do café. Não recordo o número exato de operários, mas nas contas da dona Oscarina “Cheirosa” Lima passava de dois mil trabalhadores (entre chão de fábrica, almoxarifado e administração). Eles se dividiam em três turnos: das 6h às 14h; ato contínuo o 2º turno que começa às 14h e seguia até 22h, quando chegava o pessoal que iria daquele horário até às 6h da madruga do dia seguinte.
Vendíamos uma cesta de produtos nos horários da merenda/almoço e à tarde/noite: mingau (de banana grande com canela, era o mais famoso), refrescos, sopas, sanduíches diversos, picadinho de carne e café (com pão e leite). Eu e minhas irmãs mais velhas (Graça, Zuila e Eró) íamos juntos ajudar nas vendas. O Celsão Lima já pegou os últimos tempos, mas cuidava da banquinha à tarde, sempre com o seu “colete verde”, presente recebido do Ir. José Ricardo, diretor do Colégio Dom Amando.
Quando paramos com o negócio (no começo de 1975), dona Cheirosa ficou com um “caderno do fiado”, que em valores de hoje seriam R$ 800,00 (atualizados pelo IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas). Jamais recebeu um só centavo.
Acompanhei essa década de apogeu e começo do declínio da Tecejuta. Poucas vezes estive dentro da fábrica, porque a entrada era muito rigorosa e crianças não podiam transitar por ali. No máximo, eu levava os lanches encomendados pelo pessoal da administração e arriscava, vez em quando, ir até a entrada do setor operacional.
A luta pela vida começou ali, às “margens virentes, formosas, ridentes, do meu Tapajós azul, azul como o céu”, como cantam os eternos maestros Paulo Rodrigues dos Santos e Wilson Fonseca.