Jeso Carneiro

1º livro póstumo de Emir será lançado dia 18

Jornalista e professora universitária, Lila Bemerguy faz um convite a vocês, leitores e leitoras do blog:

Jeso,

Emir Bemerguy: “Maromba”, 1ª obra póstuma

Convido a ti e aos demais leitores do blog a prestigiarem o lançamento do romance “Maromba”, no próximo dia 18 de junho, primeira obra de Emir Bemerguy editada após a sua morte.

O evento faz parte das comemorações do aniversário de Santarém e acontece no hall do Sesc, a partir das 19h. O lançamento integra o projeto Sesc multiartes, que tem por objetivo valorizar a cultura local.

A edição do livro tem o apoio da Prefeitura de Santarém, por meio da Secretaria Municipal de Cultura.

“Maromba” é a única obra de ficção escrita pelo poeta santareno Emir Bemerguy, morto em novembro de 2012. Bemerguy concluiu o livro em 1975 e assim definiu a própria obra: “Mais do que um inconsequente romance regionalista, esse livro representa uma espécie de depoimento romanceado”, escreveu o poeta na introdução.

O título do livro descreve a construção típica da época de cheia nos rios amazônicos, quando a água invade a casa e é necessário levantar o assoalho. A maromba é feita tanto na casa, como no curral.

Os 26 capítulos levarão o leitor a ingressar no universo amazônico, por meio da vida dos personagens fictícios Antônio Presidente e Maria Flor, casal de ribeirinhos proprietários da fazenda “Apuizeiro”, localizada na margem direita do rio Amazonas, “abaixo do Paricatuba, no município de Santarém”.

Segue uma prévia do que o leitor vai encontrar. Parte do capítulo “Sucuri”, no qual o autor narra um acontecimento envolvendo a temida cobra grande. O restante do texto e as demais histórias, o leitor confere no livro!

SUCURI

Trecho do romance “Maromba”, de Emir Bemerguy

Entardece. Cansado, o sol se apóia sobre as copas da mataria azul, reunindo esforços e coragem para o mergulho no desconhecido, de onde boiará, de manhãzinha, consumando o milagre triunfal de um novo dia. Entretanto, ainda está bem claro e Antônio Presidente atira a primeira cuia com água sobre o corpo, num gostoso banho, quando reboa pelo ar o berro horrível: – Aaaiii!… Papaaaiii!…
– A sucuriju pegou o Tuninho! – denuncia, espavorida, a irmã de sete anos.

Como um raio, Maria Flor, que costurava, pula n’água, com a tesoura grande na mão.

– Deixa comigo! – brada, enérgico, o marido, correndo com o facão afiado. Dá uma trombada na menina, atirando-a longe e salta quase em cima do monstro que aperta a esperneante criança em suas roscas fatais!

Com indizível pavor nos olhos esbugalhados, lutando desesperadamente para se livrar da triturante pressão, ruge a inocência martirizada: – Aaaiii!… Papaaaiii!… Me sarve, papaizinho!… Meus osso tão quebrando!… Mamãezinha do meu coração! Aaaiii!…
Os quatro irmãos da vítima fazem tremendo alarido de medo e compaixão, enquanto se trava formidável combate aquático. Sua simples visão é suficiente para fulminar covardes ou cardíacos. Maria Flor conseguiu agarrar a cabeçorra da enorme cobra e tenta introduzir a tesoura em seus olhos, pondo, na briga desigual, toda a força que lhe dá a alma rasgada de dor e ódio. Escancarando a bocarra onde se agita a língua bífida, a serpente procura morder o rosto da valente mãe.

Louco de fúria, Presidente acerta a primeira terçadada na fera, que logo começa a afrouxar o torniquete assassino, dando rabanadas violentas que fazem um escachoante tumulto na água suja. Repetindo, vezes sem conta, os violentos golpes, o alucinado pai termina matando a sucuriju. Mas, quando retira o menino daquele inferno de sangue e lama, compreende, com um profundo soluço, que tudo foi inútil: toda fraturada, a criança acaba de morrer, por asfixia! Recebera o bote fatídico da cobra quando brincava na escada do alpendre.

Antônio não chora há muitos anos e nem saberia dizer quando isso ocorreu pela última vez. Todavia, com o garoto morto nos braços, exausto da luta feroz, o pobre pai, agasalhando o cadáver sobre a mesa da cozinha, não consegue reter o pranto convulsivo. O rio acaba de lhe roubar o segundo filho em menos de três meses!
(Emir Bemerguy – “Maromba” – 1975)

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