
Topei com uma frase no romance Katábasis, de R.F. Kuang, que me paralisou feito veneno de cascavel: “Há uma eternidade para segredos”. Essa sentença saltou da página de ficção e centelhou na minha mente, empurrando-me para um abismo muito mais real e implacável do que qualquer submundo mitológico.
Fechei o livro, olhei para o teto e encarei a mais assombrosa das indagações humanas: o que exatamente acontece com um segredo quando o pacto entre seus dois únicos guardiões se desintegra no silêncio de uma sala cheia?
Você já experimentou a vertigem de dividir o mesmo recinto com alguém com quem partilha um segredo profundo? A física do ambiente muda instantaneamente. Há um fio invisível, elétrico, atordoante, esticado entre vocês.
Mas e se essa pessoa, a poucos metros de distância, te ignora olimpicamente? Nesse exato instante, o que restou daquilo que viveram? Em mim, a memória ruge. É uma lembrança pétrea, pulsante, que lateja a cada cruzamento de olhares covardemente evitados. Mas e nela? Terá o segredo empoeirado? Terá descido à cova da conveniência, enterrado sob o peso de um esquecimento voluntário?
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A outra face dessa moeda relacional pode ser também cruel e desgastante. A pessoa não te ignora; ela se aproxima e conversa. Troca delicadezas diplomáticas, veste a máscara irretocável da civilidade e rir o teu riso social. A superfície é perfeitamente polida. O abismo, porém, continua ali, escancarado entre as taças.
Enquanto o diálogo fútil acontece, pergunto-me, encarando-a em silêncio: o nosso segredo ainda vive nela, oculto sob as palavras ensaiadas, ou virou passado morto e sepultado, encoberto pela erosão implacável do tempo ou outras experiências? A polidez, muitas vezes, é o caixão mais elegante que existe para uma memória compartilhada.
Um segredo não é apenas uma informação retida; é um pedaço de intimidade que não pode ser desvivido. Se a lembrança esfriou no outro lado do salão, uma constatação dolorosa e solitária se impõe: o segredo passa a viver única e exclusivamente comigo. Ele deixa de ser um pacto sagrado, uma cumplicidade silenciosa e vira herança solitária. O que fazer, então, com essa matéria invisível e inflamável?
A resposta que a literatura me oferece é que eu a carregarei para a minha eternidade. O certo é que: o segredo que perdeu seu cúmplice não morre; ele apenas transmuta. Converte-se em alavanca para as minhas reminiscências, em combustível para histórias inarticuladas, caladas, jamais relatadas. Passa a ser o meu acervo particular de assombros.
A tragédia e a beleza de um segredo órfão é que a memória não é um território democrático. Se o outro esqueceu, ou finge ter esquecido para sobreviver ao próprio teatro, a posse muda de mãos. O que antes era irrevogavelmente “nosso”, forjado na cumplicidade, agora é apenas “meu”. E eu o levarei intacto. Para eternidade.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
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