Jeso Carneiro

Lobby

por Josué Vieira (*)

É o seguinte meu amigo: todo dia vejo chuvas de prefeito chegando a esta cidade. Mesmo trajeto, vão de ministério por ministério, gabinete por gabinete, com suas canecas, porém sempre perfumados e dóceis, levando consigo pastas e projetos, e bote projetos no colo.

Chegam sempre com dois ou três a tira colo, sempre é um secretario, contador ou engenheiro. Como eles estão mais uns tantos prefeitos que chegaram antes, sempre ingleses com suas agendas. Mas onde há inglês em Brasília? No máximo lobos de cativeiros (risos). Mas sim, meu rei, qual é a grife que vás querer?

Antes que o senhor decida, posso enumerar algumas que trabalho há mais de 10 anos e aí o senhor toma as rédeas cabíveis, Ok! Fundação Carlos Chagas é uma boa, lá não há muito problema, o que falta é problema, tenho bons relacionamentos com alguns doutores que podem conseguir agilizar as papeladas dentro de um mês.

Já a Cespe, de elite, burocrática, de tanto que é fica mais com concursos, mesmo porque os doutores cheiradores de lá quase não possuem bons trâmites com o restante dos ministérios, conseguem alguma coisa lá pelo MMA, MDS ou da Integração, mas nada que possa trazer bons frutos, porque a maioria do grosso está atrelada às emendas, aí, meu amigo, fudeu pra mim, porque se for para ir atrás de emenda é melhor o senhor procurar um deputado ou senador da bancada de sua região.

Duas acho interessante: a FGV e a FIA. Sabe como é, são de São Paulo, são bem vistas, a maioria dos doutores de lá sempre vem por aqui, tomam café com deputados, juízes do STJ, enfim, são sempre os dentes de um bom negócio.

Porque sabe como que é, para se concretizar um negócio desses que o senhor procura conosco é necessário algum peso, porque aqui ninguém faz negócio com desconhecidos, já pensaste se 10 milhões pousa nas mãos de um doutor não sei das quantas que tirou o título em uma dessas universidades com CAPES 2, que são mais bocas de fumo do que outra coisa?

Isso é uma recomendação, vou te dar porque senti confiança em nosso negócio: quando se procura tramitar pelos corredores dos ministérios é muito importante para a concretização dos negócios a relação. É, meu chefe, são as boas relações entre os consultores e o ministério, que aquele sujeito que está no fim do mundo consegue ter água encanada, pisar no asfalto, assistir novela e no final o senhor sorrir e encher-se de gabo. Por isso é fundamental que se estabeleça uma ponte entre o meu negócio e o trabalho das canetas daqueles servidores.

Ai, meu rei, sua vinda de três dias na cidade dos Poderes se concretiza.

FCC, FIA, FGV, vamos deixar de lado a galera natureba da Cespe, uma dessas posso garantir seu sucesso, e como tenho experiência há mais de 10 anos trabalhando com essas fundações posso garantir, como minha palavra sendo bala, que seus projetos terão êxito, serão logo aprovados, dinheiro vai pulular em tua prefeitura, tu vás ficar feliz e eu junto, o servidor vai também porque sabe, trezentinho aqui, outros duzentinho, agradam. Ora, é pouco, sim, concordo, mas vá lá se este fulano esta com a mensalidade da escola do filho atrasada ou alguma intempere o incomoda, lhe tira o sono. Vai lá as notas, e sanam, pronto! Como fosse injeção para moléstia! (risos)

Tá… entendi! Consultoria, “marca”, doutor, servidor. Explicar melhor, tenho 17 projetos, dois na área da saúde, 5 saneamento, quatro asfaltamento e 6 recuperação asfáltica. Como teu elenco vai funcionar para trazer o que preciso?

Antes de lhe responder gostaria de divagar um pouco nas minhas experiências como consultor de projetos aqui em Brasilia. Já estou no ramo há 15 anos, depois que tirei canudo vim para cá, consegui bolsa pela Rockfeller fiz mestrado e doutorado na FGV, lá já se arregalava os olhos para o dinheiro federal. Sabes por quê? Porque as prefeituras não tinham em seu quadro técnicos projetistas, não falo de engenheiros, arquitetos, contadores e outros coitados mais que vivem do cabresto do serviço temporário. Falo de administradores, economistas e gerentes de projetos.

Aí, meu amigo, era sempre a mesma novela, eu chegava por volta das 9 na FGV e via aquela ruma de secretários e prefeitos fazendo fila na porta das coordenações afixando chamadas de seleções de estagiários com a finalidade de preencher vagas efetivas desses gerentes de projetos, que na época havia 8 em toda São Paulo e esses mesmos oito eram conhecidos das prefeituras maiores.

Como o preço desses senhores eram certos e demandavam das horas trabalhadas, os valores eram exorbitantes, os prefeitos que não podiam pagar o preço deles faziam suas magias a custa do trabalho estagiário ou de monstrengos da administração municipal. E lá peregrinavam para cá, a Meca do orçamento publico! Chegavam em bons modos, etiquetas para o café, para o lanche, para o almoço e para o jantar. Quando chegavam nos ministérios, era para o setor de protocolo de projeto que se encaminhavam e de lá iam para os gabinetes dos deputados e senadores migalhar um pouco mais, e nisso bote espera.

Quando regressavam para suas cidades com o espirito do dever cumprido, esperavam mais de meses por uma resposta valida de seus projetos que nunca chegavam, e quando havia vista desses projetos voltavam para ser consertado a planilha de custos, projeto básico e plano de execução, porque a maioria desses projetos eram amadores, simples rabiscos de números e linhas. Mas lhe garanto que a maioria, isso falo-lhe com a propriedade de 99% de que esses projetos nunca eram lidos, simplesmente serviam de encosto ou peso para matar as baratas dos setores, até um dia ganharem rumo ao lixão.

Para o prefeito que se fez presente, disponível a auxiliar aquela comunidade carente ao qual obteve a cifra mil de votos com um microssistema de abastecimento ou de pavimentar as ruas de certos bairros de sua cidade, construir praças, abrir vicinais e outros projetos que dependem da canetada federal e nisso rumaram até aqui e depois de meses receberam um extenso NÃO, no mínimo o sentimento é de depressão e abandono.

Foi por isso Natanael, vendo o dilema da maioria das prefeituras que estou aqui há mais de uma década, assessorando as prefeituras a conseguir o dinheiro necessário para conseguir tocar seus planos de campanha, a concretizar o sonho daqueles que esperam pelas providencias do poder publico. Até por vezes, logico preciso oxigenar o ego, gratifico-me com os apertos de mãos e as palavras de estimas daqueles prefeitos que auxiliei a colher os louros da vitória junto aos ministérios e departamentos.

Então é isso, Natanael, a prefeitura tem o problema, quer resolver via atração de recursos federais, mas para isso precisa de uma pessoa aqui que faça o barco navegar, vigiar se o dinheiro chega ao seu destino. Mas para que o senhor colha as congratulações junto a sua comunidade eleitoral, meu trabalho se processa da seguinte forma:

1) Antes do senhor me procurar, vistes como os outros escritórios de consultoria funcionam, certo? Não é jogar pedra no telhado alheio, mas no máximo eles levam teu projeto, protocolam e pronto, cobram uma taxa mensal, te dão toda assessoria, o que tu precisares, reuniões, vistas, almoços, passeios, e outros mais. Mas acompanhar teu projeto, isso não fazem!

2) O que tu precisas? De alguém que fique lá em cima, cobrando as analises, levando e trazendo papeis entre secretarias, ministérios, departamentos. Tu precisas de alguém que faça a coisa acontecer. E eu posso proporcionar isso.

3) Nossa empresas trabalha com duas taxas: de inicio precisamos de uma pecúnia de 300,00 para cada projeto. Então se tu tens 17 projetos é 5.100,00 de inicio. Por quê? Bem, simplesmente as coisas aqui em Brasilia não andam sozinhas, precisam de um empurrãozinho, de um estimulo. Lembras do servidor que esta com a mensalidade do filho atrasada? Pois bem, nosso escritório conhece alguns nesse status e facilmente fazem a coisa se mover lá em seus departamentos. Um deles é o Gilson do Turismo, trabalha no setor de processos, ele é o responsável por algumas IN do Ministerio do Turismo quando o assunto é prestação de contas. Outro dia me ligou perguntando se não tinha 150,00 reais para ele queimar uma divida da farmácia da velha dele, que coitada, sofre de Alzheimer.

4) Outra taxa é 4% do valor do projeto. Seguinte: se teu projeto vale 500.000,00 e for retalhado em 10 vezes, 50 mil cada parte da execução, nosso 4% é em cima da primeira parcela. Mas lembre-se: isso se teu projeto for aprovado, tu me pagas quando o dinheiro já estiver na conta convenio. E outra: não me traz projeto que não tenha uma finalidade, por exemplo se tu vás construir uma ponte por cima de um igarapé cujo nome é “agua fresca”, o titulo do projeto vai ser “Ponte do Agua Fresca”, tu entendeu, tens que criar vinculo de uso entre onde tu vás permitir a execução da ponte e a comunidade que depende desta para trafegar.

5) Na verdade, no meu trabalho não existe pagamento antecipado, existe um jogo, uma sociedade, porque serei teu sócio até o dinheiro ser liberado.
6) Quanto a prestação de contas e sua aprovação já esta embutido no valor de nossos serviços.

O senhor compreendeu nossos passos? Alguma duvida quanto algum procedimento? Se o senhor tiver é agora que podes fazer!

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* Santareno, é escritor e poeta. Reside atualmente em Manaus (Amazonas).

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