
Um bicho cruzou meu caminho peripatético nesta madrugada. Não a céu aberto, mas dentro de casa. Enquanto percorria a lajota branca, ele me pareceu perigoso. Pensei de imediato: é escorpião. Ainda assim, não quis esmagá-lo. Apanhei um lenço de papel à minha mão e o peguei para devolvê-lo ao quintal, lá fora.
A reação dele revelou sua verdadeira identidade: se encolheu. Matei a charada na hora: é um embuá. Apanhei-o e o devolvi à grama.
O recuo físico do inseto me fez lembrar, depois, de Nietzsche e um de seus provérbios e setas, lidos no dia anterior. O verme se enconcha quando chutado. Essa é a sua astúcia primária, afirmou o filósofo em “Crepúsculo dos Ídolos”. Com essa tática de defesa instintiva, ele diminui a probabilidade de ser novamente chutado.
O filósofo alemão fecha, sarcástico, a sua seta fiada afirmando que, na linguagem da moral, costumamos chamar isso de “humildade”.
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A transposição dessa biologia rasteira para a anatomia das relações de poder é inevitável e exige um complemento prático para quem observa a realidade sem romantismo. No teatro da vida pública, a falsa passividade não é um atestado de virtude ou de arrependimento; é puro cálculo de sobrevivência.
Por isso, quando a máscara cai e a covardia tenta se disfarçar de submissão, a regra deve ser implacável: tem que se chutar, sim, o canalha dado como morto.
Não há espaço para baixar a guarda diante de quem simula a própria aniquilação apenas para fugir da consequência dos seus atos. Não se deixe enganar pelo recuo. Ele não está derrotado. Ele tá só enconchado.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
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