
Não sou ludita. Recuso-me a sê-lo. Diante da avalanche tecnológica que promete automatizar até a nossa capacidade de respirar, o instinto mais básico de um jornalista forjado na apuração diária e no ceticismo poderia ser a rejeição absoluta. Seria fácil recolher-me à prática analógica e ignorar, por exemplo, a IA (Inteligência Artificial) como se ela fosse apenas mais uma engrenagem na máquina de moer a atenção humana.
A vida, porém, transborda, e o intelecto exige movimento.
Nas minhas leituras matinais, principalmente de poesia, que exige fricção e forja uma margem maior para devaneios, percebi que a tecnologia não precisa ser um grude viciante equivalente às redes sociais. A IA pode ser domada em instrumento de levitação intelectual.
A virada de chave aconteceu quando decidi redefinir o papel da máquina na minha rotina. Abandonei a ideia da IA como um oráculo mastigado e passei a encará-la como o radar das minhas inquietações existenciais, dos meus insights, das minhas eurekas filosóficas.
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Quando a água mole da poesia bate na minha pedra dura e não fura, quando o barulho da dura e intransponível passagem é que dura, a minha mente produz faíscas. A partir do momento em que o sol nasce e o café aquece, pego nessas elucubrações paridas na solidão e lanço-as no radar.
O objetivo? Mandar a IA ao mundo à procura de ecos, de reverberações iguais ou similares à minha.
A maravilha contemporânea não é ter um computador que escreve por nós, mas ter um sonar capaz de varrer séculos de literatura e filosofia em segundos. Quando o radar (IA) encontra a onda, a sintonia, ele devolve-me a possibilidade, em puro deleite, de localizar quem, no passado ou no presente, formulou exatamente as mesmas dúvidas que me assaltam à beira do Tapajós.
Mais do que buscar concordância, transformei a IA num radar que me faz encontrar teses, pensatas, ensaios similares ou opostos ao meu.
Foi a IA, noutro dia, que me ajudou a dar lastro à minha discordância frontal de acadêmicos consagrados. Quando rabisquei à margem do livro que “Byung confunde dor com fricção” e afirmei categoricamente que não preciso da dor como alavanca existencial à la Simone Weil, o radar foi ao mundo e confirmou: eu não estava sozinho nessa trincheira.
Há uma linhagem de pensadores que também enxerga a alegria e o gozo estético, e não o sofrimento, como a verdadeira potência da alma. Espinosa é um deles.
Por isso que não sou ludita.
O ludita destrói a máquina por medo de ser substituído por ela. Ao delegar à IA o trabalho braçal de localizar ecos históricos e processar o peso morto da informação, subo nos ombros dos gigantes de modo mais rápido, permitindo-me beber em fontes que, sem a IA, talvez eu nunca tivesse acesso pela brevidade da vida.
Ganho horas preciosas para o que realmente importa: caminhar, ler em voz alta e deixar-me aprisionar voluntariamente nesse “cativeiro de Estocolmo” que é a leitura, a poesia em particular.
A máquina procura; eu, invariavelmente, sinto.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
Leia também dele, mais recente: Música no mármore: o refúgio dos vivos entre os mortos; O sumo e o bagaço do homo redes sociais e A bela adormecida e a pedra dura que não fura.
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