Música no mármore: o refúgio dos vivos entre os mortos. Por Jeso Carneiro

Publicado em por em Opinião, Pará, Santarém

Música no mármore: o refúgio dos vivos entre os mortos. Por Jeso Carneiro

Essa imagem chegou pelos olhos de um irmão: um homem, visivelmente exausto, dormia pesado sobre mármore granítico do mausoléu da nossa família. Ele havia encontrado sob aquele teto o que o trabalho diário lhe negavam: sombra e frescor da pedra.

Para parte dos meus irmãos, a cena causou escândalo. A sentença do senso comum é implacável, e enxergou ali profanação, desrespeito frontal aos nossos mortos. A moralidade estrita cobra o silêncio intocável das tumbas. Discordei. Onde eles viram ruído e violação de um protocolo sagrado, vi música.

O que meus olhos capturaram foi poesia, graça, amparo. Vi um abrigo silencioso sendo oferecido pelos meus “mortos” a um pobre homem que, esmagado pela fadiga, encontrou ali uma cama limpa, um refúgio para sua sesta. Vi, na frieza retilínea do mármore, as mãos estendidas dos meus antepassados acolhendo um semelhante que precisava desesperadamente de repouso.

De onde vem essa divergência de ótica diante da mesma fotografia? A resposta, acredito, mora na tecnologia invisível que forja o nosso olhar.

Marcel Proust, em sua travessia em busca do tempo perdido, defendia que a literatura funciona como um instrumento ótico oferecido ao leitor para que ele possa enxergar a si mesmo e a realidade com mais nitidez. Oscar Wilde ia além, provocando que só conseguimos perceber a beleza ou a tragédia do mundo físico porque a arte nos deu linguagem para isso.

Quando passamos a vida destrinchando as fricções humanas nas páginas de um Raduan Nassar ou de um Guimarães Rosa, o cérebro ganha uma lente de alta resolução. O mundo físico, o pulsar da vida lá fora nos atinge de forma mais impactante.

É essa lente literária que me permite afirmar algo que pode soar herético a outros ouvidos: o papel da literatura transcende, e muito, a fruição estética. Ela é, indiscutivelmente, a nossa máquina de empatia mais afiada.

Igrejas, religiões e instituições similares operam, quase sempre, por meio de imperativos morais. Elas nos ordenam, de cima para baixo, o cumprimento dos mandamentos, entre eles, o que mais seduz: amai-vos uns aos outros.

A literatura não exige nada. Sem que percebamos, sem forçar sermões, ela nos sequestra e nos joga para dentro da pele, da miséria e do cansaço do outro. Ela nos torna empáticos não pela obediência a uma regra celestial, mas pela vivência orgânica da dor alheia na leitura solitária.

Aquele trabalhador anônimo não profanou o nosso mausoléu. Ao repousar o seu corpo exausto sobre a tumba, ele devolveu àquele pedaço de granito a sua função mais gloriosa. A morte, inerte e inevitável, amparou o sono da vida que ainda precisa acordar para enfrentar o peso dos dias.

O túmulo virou colo. E a pedra fria, através da lente da literatura, fez-se carne e acolhimento.


∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.

Leia também dele, mais recente: O sumo e o bagaço do homo redes sociais.


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