O direito à dúvida que arde na era do oráculo digital. Por Jeso Carneiro

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O direito à dúvida que arde na era do oráculo digital. Por Jeso Carneiro

A mente indagadora, o cérebro questionador que anseia por respostas, encontrou o seu paraíso artificial. Sinto isso na pele. E confesso: a Inteligência Artificial tem me facilitado imensamente esse saciar de sede interrogativa. Mas, outro dia, lendo, uma provocação me assaltou, ferindo o meu próprio encantamento tecnológico: essa relação de pergunta-resposta imediata não me causa problemas cerebrais? Não “atrofia” a minha capacidade de pensar, de raciocinar por conta própria?

A pergunta que explodiu à queima-roupa, entendo hoje, não deveria ser terceirizada no milissegundo seguinte. Ela deveria “maturar”, “amadurecer”, conviver mais comigo. Deveria ficar pulsando dentro de mim antes de eu jogá-la ao colo do oráculo-LLM digital.

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Por que uma pergunta não respondida de imediato haveria de me diminuir intelectualmente? O filósofo Byung-Chul Han já nos alertava sobre o fim da nossa capacidade contemplativa na sociedade do cansaço. Ao matarmos o tempo da dúvida na guilhotina da pressa, exigindo a resolução imediata, abortamos a ideia antes mesmo que ela crie raízes no nosso íntimo.

É um desdobramento daquela agonia neurológica que reivindiquei em textos anteriores. Se a leitura sem fricção é o indigesto fast food que nos anestesia, a resposta previamente processada pela máquina é a garantia de atrofia do nosso músculo cognitivo.

A neurocientista Maryanne Wolf nos ensina que o cérebro é plástico e moldável; os circuitos neurais da análise profunda exigem o esforço da travessia. Quando a máquina nos entrega o raciocínio pronto, mastigado e asséptico, perdemos o fórceps da dedução. A máquina não sangra na busca; logo, a resposta que ela nos devolve, por mais precisa que seja, é desprovida da nossa dor e da nossa genialidade.

E aqui chego à constatação que mais me aterroriza. Até então, debatíamos o “roubo de atenção” como a perda de horas na rolagem infinita e fugaz das redes sociais. Mas não será essa saciedade instantânea da IA uma outra forma, muito mais insidiosa, de roubo?

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Sinto que estamos diante de uma escalada mais perturbadora, mais funda na mente, que as gigantes digitais estão pavimentando. Elas não roubam mais apenas os nossos minutos; estão confiscando o nosso tempo de incubação. Estão nos transformando, de forma silenciosa, em um “escravo comportamental” viciado no alívio cognitivo imediato, incapaz de tolerar o silêncio e o peso de não saber.

O abismo, afinal, está escancarado. Como – na IA? – buscar respostas para essas dúvidas existenciais? A máquina calcula a média, mas não rumina o mistério. Talvez o mais radical dos protestos hoje não seja encontrar a resposta exata de forma ágil, mas sim ter a audácia de segurar a pergunta no peito, suportando a agonia e o gozo da dúvida lenta.


∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.

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