
No silêncio dos meus mil passos matinais, o corpo engata um ritmo para que a mente possa descolar do chão. É nessas caminhadas, vendo surgir os primeiros clarões do dia, que as perguntas mais inesperadas me assaltam. A mais recente recaiu sobre a nossa espécie atual, curvada e hipnotizada pelas telinhas brilhantes: afinal, qual é o sumo que se extrai do homo redes sociais?
Passamos horas rolando feeds, consumindo vídeos curtos, manchetes e frases lapidares que fisgam nossos instintos mais básicos. Acreditamos piamente que estamos saboreando o mundo, degustando a informação em tempo real. Mas e se nós somos a fruta? E se o resultado desse navegar digital for apenas nossa conversão em bagaço diário?
Na esteira dessa ruminação, a ficha caiu. O sumo do homo redes sociais não nos pertence; ele nos é extraído gota a gota – tempo, atenção, reflexão – para alimentar os suprassumos do Vale do Silício. Somos canibalizados por um sistema que lucra com a nossa exaustão, foco.
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O barro da nossa sugestionabilidade humana não mudou.
A diferença, aterrorizante, está na ferramenta. Os suprassumos do passado discursavam para praça cheia; o algoritmo de hoje sussurra no ouvido de cada um, medindo a dilatação da nossa pupila e entregando o veneno sob medida.
Se, caminhando, produzo a dúvida que me liberta, o vagar na tela suga minha capacidade de questionar. A grande trincheira contemporânea não é apenas desligar o celular, mas recuperar a soberania sobre o próprio tempo.
Entre ser o bagaço espremido pela máquina e o caminhante dono da sua própria lentidão existencial, a escolha precisa ser diária, feita a cada passo dado longe da tela.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
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