A bela adormecida e a pedra dura que não fura. Por Jeso Carneiro

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A bela adormecida e a pedra dura que não fura. Por Jeso Carneiro
Cecília Meireles, poeta brasileira, autora do livro Vaga Música. Foto: reprodução

Há um pacto silencioso que firmamos toda vez que abrimos um livro de poemas: esperamos que a palavra nos atravesse. Confiamos que, em algum momento da travessia, a sintaxe ceda, a epifania estale e o verso ilumine alguma penumbra do nosso intelecto.

Mas o que acontece quando o pacto é quebrado? O que sobra quando o leitor se entrega, mas o poema se recusa a abrir as portas?

Foi o que me ocorreu no habitual percurso das leituras matinais, ao esbarrar em uma poesia de Cecília Meireles, uma das publicadas na obra Vaga música. O poema trazia um nome revelador: Da bela adormecida. E, fazendo jus a ele, o seu significado decidiu não despertar para mim.

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O sentido dele continuou em sono profundo, encapsulado sob a métrica.

E quando a poesia, água mole em mim pedra dura, bate tanto e não fura? Uma, duas, três leituras, e não fura?

O incômodo literário deu lugar a um impasse quase físico. O sólido poema rola, rola. É água mole, tem ritmo, é banhado na cadência ceciliana. Contudo, os seus versos longos batem na pedra dura, e o que ecoa não é a revelação, mas o impacto surdo da incompreensão. O barulho da dura e intransponível passagem é que dura.

A fricção literária, a que habitualmente alarga a mente e gera o gozo estético, se faz instransponível. Eu, leitor dura pedra, versos moles batem e não fratura. É um vai e volta entre estrofes exaustivo, o leitor enlouquece, aquece, na ânsia de decifrar a cecília adormecida, mas os versos águas não arrefecem. Eles mantêm a sua temperatura, sua fluidez, indiferentes, alheios ao meu esforço de arrancar-lhes a alma.

Aceitar a opacidade de um verso exige maturidade. A sociedade nos condiciona a exigir respostas claras, rápida, utilitárias de todas as coisas, mas a literatura reserva-se o direito de manter os seus feitiços. Nem toda d’água tem a obrigação de perfurar o granito em uma única manhã.

A adormecida ceciliana preferiu o seu leito de mistério à claridade da minha interpretação.

O que me resta, então, como leitor, forjado no hábito de espremer o sumo das palavras? Resta-me converter o intransponível em literatura.

Fazer da própria barreira a matéria-prima de um “pobre poema” ou uma crônica sobre essa impotência. Pois, no fim das contas, a equação se resume a uma constatação inevitável diante dos clássicos insondáveis: cabeça dura, verso mole, vida curta.

Que venha a próxima página!


∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.

Leia também dele, mais recente: Música no mármore: o refúgio dos vivos entre os mortos e O sumo e o bagaço do homo redes sociais.

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