por Raimunda Monteiro (*)
A família Peloso comemora os 90 anos da matriarca, dona Eunice. Viúva após trinta anos de casamento, prosseguiu um verdadeiro mandato de construir uma família com princípios e formação sólida, forjada no trabalho e na dedicação ao bem-estar coletivo.
Quero destacar nesta breve reflexão, na trajetória da Dona Eunice, um aspecto que certamente marcou a vida de muitas mães brasileiras que viveram esses 90 anos da nossa história. São os anos em que o Brasil vivencia a urbanização e a industrialização. A cidade passa a ser o horizonte de realização da sociedade brasileira, com os empregos nas fábricas que emergem nas regiões dinâmicas, a telefonia, o telégrafo, o transporte por via férrea e depois as grandes rodovias que cruzam o Brasil de Sul a Norte e de Leste a Oeste.
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A influência do rádio e depois da televisão, influenciando as idéias, as aspirações de ser e de ter e os destinos dos jovens que passam a competir por um espaço físico nas cidades e por bens de consumo que simbolizam o sucesso numa sociedade capitalista emergente.
Foram os 90 anos em que o Brasil reconfigurou, cem anos depois da Europa, a paisagem humana das suas zonas rurais. Saem os camponeses e entram as máquinas naqueles estados brasileiros que se industrializam mais rápido. Também foram refuncionalizados os papéis das regiões. As mais equipadas e com mais elevado índice de formação escolar e profissional tornam-se centro de indústrias e aquelas em que a “natureza” ainda não tinha sido domada e as relações econômicas ainda não haviam sido “domesticadas pelo capitalismo”, tornam-se as fornecedoras de matérias-primas e mão-de-obra.
O ideário de educar os filhos e habilitá-los para a vida nas cidades orientou as famílias camponesas que compartilhavam essa visão de progresso. Melhorar a vida dos filhos se tornou uma missão geracional. Vencer pelos estudos, uma visão e uma estratégia de ascensão social pela inteligência individual e pela motivação coletiva.
Famílias íntegras, unidas por valores sólidos e coesão interna foram as melhor sucedidas. A família do seu Félix e dona Eunice Peloso estavam entre essas. Viveram a maior parte de suas vidas em Belterra, onde a filosofia empresarial de trabalho, de gerenciamento do tempo e do conhecimento foram um laboratório do que havia de mais avançado no sistema capitalista: o fordismo. Filosofia dele mesmo, do dono: Henry Ford. Tão locais e tão globais!
Porém, nenhum fordismo ou taylorismo (que diga, Rainilda, a filha administradora) funciona se não houver predisposições. Sejam culturais, seja nos laços sociais existentes. Forjar o sucesso em condições adversas exige capacidade de liderar e indicar um caminho, de organizar para atingir objetivos, de delegar e monitorar as metas – ao final, de formar as condições de reprodução – no caso aqui – o sucesso dos descendentes. Não apenas um sucesso no plano material, mas também nos significados políticos e sociais de cada conquista.
Nesses noventa anos, também tivemos o evento de uma ditadura militar de vinte anos e um movimento político nas entranhas da sociedade brasileira na luta pela democratização. A família da dona Eunice se envolveu profundamente. Imagino e vi, um pouco da aflição e da compreensão, quando ela viu alguns dos filhos mais novos se desviando dos planos traçados para a formação e o sucesso profissional pela militância e o altruísmo político. Ranulfo, um dos filhos mais velhos, formado para ser padre, voltar e ir morar na comunidade do Prata, como camponês, influenciando os mais jovens pelas ideologias do socialismo.
Ouvindo, opinando, aconselhando e, às vezes, discordando ela se manteve como o centro do exemplo que todos deveriam seguir, independente de suas opções religiosas, profissionais e políticas. Respeitou e acolheu a todos (as), porque talvez sabia que a sua missão tinha sido cumprida solidamente. Quaisquer caminhos individuais escolhidos trilhariam por princípios que os fariam cidadãos e cidadãs de bem. Sou feliz em ter bebido dessa fonte.
Nesses 90 anos viramos o século XX e os acontecimentos na base do conhecimento e das tecnologias transformam as sociedades rapidamente.
O Brasil mudou muito e nós com ele. A Amazônia, Santarém (Belterra) se vêem diante do desafio de absorver as boas conquistas do progresso sem desfigurar suas características naturais e singulares. Continuamos querendo vencer pela educação, pela formação qualificada, por uma cultura de justiça e solidariedade. Nesse novo século, os ensinamentos das mulheres brasileiras como dona Eunice permanecem modernos e muito úteis para as novas gerações.
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* Santarena, é professora-doutora e atual vice-reitora da UFOPA.
