Jeso Carneiro

A Gosto (de uns) Des Gosto (de outros). O que há de comum a todos nesse agosto de 2016?

por Anselmo Alencar Colares (*)

Escrevo esse texto tentando dialogar com dois polos que se mostram nesse momento irremediavelmente apartados. O dos que imputam a Dilma e ao PT todos os problemas que a mídia fartamente revela no cotidiano, e com maior intensidade nos últimos meses. E o dos que se colocam apaixonadamente na defensiva.

Ambos ficam, a meu ver, impossibilitados de ver o óbvio, embora este seja quase sempre difícil de ser decifrado por nosso campo sensorial.

Considerando o que leio de ambos os lados, penso que para uns não há o que festejar, embora insistam nisso. E para outros, não há como ferrenhamente defender uma completa ausência de falhas no conjunto de situações que motivaram o processo de impeachment.

Nesse processo, particularmente, sinto mais tristeza que euforia. Mais decepção que entusiasmo por engrossar qualquer tipo de manifestação.

Mas, definitivamente, não me junto aos que aproveitam a situação para destilar preconceitos ou ridicularizar a pessoa Dilma, que foi investida de um poder por via democrática, que foi eleita de forma legítima e majoritária, embora desde o resultado da eleição tenha sido objeto de dúvida e piadas maldosas, e seus eleitores – principalmente das regiões mais pobres do país, Norte e Nordeste – desqualificados e até ridicularizados pelo Brasil remanescente da Casa Grande.

Também não me junto aos que, ingenuamente, acreditam que Dilma foi afastada por um crime de responsabilidade tipificado na Constituição Federal é reconhecido de forma unânime no mundo jurídico. Nem posso concordar que seus acusadores e eleitores do sim sejam qualitativamente melhores que ela e os partidos que condenam o PT sejam diferentes e corretos em suas práticas.

Por isso, meu olhar é de cautela, de tristeza, mas também de esperança.

Sim, na expectativa de um efeito pedagógico, que as pessoas se dediquem mais a buscar compreender o que está por trás das aparências. A saber o peso que deputados e senadores possuem, por conta dos votos que a eles são dados. Assim como vereadores, que estamos prestes a eleger.

Eles podem no futuro afastar um prefeito que não consiga manter um forte relacionamento com o legislativo. Encontrar justificativas jurídicas não é tão difícil assim. Há uma fartura de possibilidades.

Difícil mesmo é encontrar quem esteja totalmente isento de falhas.

Mas como aqui é o planeta terra, e não o paraíso… temos que saber conviver com as imperfeições. Só não acho que devamos festejar as quedas, de quem quer que seja, porque todos passamos por abismos. De todo tipo. E estamos sujeitos a cair neles.

Por fim, me permito recorrer a um Livro Sagrado e dele extrair a sabedoria de um dos maiores líderes da humanidade, a quem muitos classificam de Mestre dos Mestres, o qual diante da iminente condenação (de uma mulher considerada culpada de adultério pelas regras então vigentes) desafiou a quem não tivesse culpa que atirasse a primeira pedra.

Por isso, atualizando aquela passagem bíblica para os nossos tempos, digo: Os que se julgam honestos puros, os que não erram, os perfeitos… juntaram as pedras e acertaram o alvo. Mas o que farão agora com as pedras? Como vão limpar a sujeira que as pedras deixaram em suas mãos?

Quanto aos demais, que aproveitem o ocorrido como fonte de aprendizado. Especialmente aos que, conhecendo a história, escolheram ficar com as maiorias sofridas, sufocadas pelos poucos que controlam a produção e a circulação das riquezas.

Aprendam também que chegar ao poder político, pelo voto, não dá garantias de permanecer nele. E que não basta distribuir cargos entre supostos aliados políticos para que estes se mostrem solidários ou se mantenham coesos.

Ha tantas outras lições que são impossíveis enumerar.

A mais importante, a meu ver, porém utópica, seria o nascimento de uma nova consciência política e ética, com o revigoramento das organizações sociais.

Utópica mas não impossível. A palavra aqui está empregada no sentido de construção permanente, de algo inacabado porque cada vez que se aproximar de um fim, o movimento da história já estará demandando novos avanços.

E assim seguimos, aprendendo, ensinando, sempre. Dai ser tão importante o papel dos educadores. Em todos os espaços coletivos.

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