Jeso Carneiro

Carta aberta à governadora

por Apolinário (*)

Minha querida governadora,

É muito natural que eu tenha ficado magoado com sua recusa ao convite que lhe fiz para vir dançar comigo aqui em Santarém na sede do Fluminense. Muito embora essa mágoa não venha por fim no tesão que sinto por Vossa Excelência. Compreendo que devo parar de ser besta para as mulheres que me atraem.

É realmente muito difícil ficar aqui o tempo todo me masturbando politicamente. O tempo vai passando e eu tenho a sensação de que vou morrendo aos poucos diante de suas promessas de que tudo vai mudar, vai ficar vermelho para todos, que o céu vai ser azul, que o sol nasce para todos.

E aguento tudo pela exuberância e a formosura que vejo na sensualidade das curvas de seu corpo. E Vossa Excelência sempre me deixa sozinho, esquecido, doente e triste aqui no oeste do Pará. E se diverte enlouquecidamente nas baladas noturnas das principais casas de São Paulo e Rio de Janeiro, sem contar com algumas pequenas e milionárias fugas para Miami e Nova York.

Claro que não estou censurando! Estou é morrendo de inveja e ciúmes. Eu gostaria mesmo era de estar junto, conhecer os seus brinquedos e lhe mostrar os meus. Queria ver Vossa Excelência sorrir com os arrepios de algumas coisas legais que eu sei fazer em mulheres picantes como Vossa Excelência.

Entendo porque ficou tão distante de Santarém, envaidecida com as falsas e brilhantes promessas de amor da burguesia belenense.

Vossa Excelência é uma gata solteira. Dança, pinta e borda muito bem. Livre e desimpedida, pode ficar com quem quiser e ninguém tem nada a ver com isso. “Mas acontece que eu não sei viver sem você/ às vezes me desabafo/ me desespero porque você é mais que um problema/ é uma loucura qualquer/ mas sempre acabo em seus braços/ na hora que você quer”.

E acontece também que Vossa Excelência prometeu cuidar do amor que jurou ao povo de Santarém e toda essa região. Jurou cuidar melhor da saúde pública, meio ambiente, educação, política social, cultura, turismo e o problema dos encarcerados.

Jurou também para os artistas que iria abrir em Santarém um escritório de representação da Secretaria de Articulação Institucional do Ministério da Cultura, porque é amiga do presidente Lula. Mas ele disse que não sabia disso e que pensava que estava tudo bem por aqui, confiando em muitas verbas que mandou para Vossa Excelência calar a dor dos nossos lamúrios.

Agora o seu mandato está findando, junto a isso toda a tara que eu tinha por vossa formosura. Parece que não deu certo ter falado de tempos tão ruins e não ter conseguido superá-los. “Você foi a melhor coisa que tive/ mas o pior também em minha vida/ você foi o amanhecer cheio de luz e de calor/ em compensação o anoitecer/ a tempestade/ a dor/ você foi o meu sorriso de chegada/ tudo/ nada e adeus”. “Por isso vá de uma vez/ não volte mais/ vá porque não vou voltar atrás/ eu vou me acostumar/ foi bom demais nossos momentos/ mas foram momentos e nada mais/ vá/ vou me acostumar/ não quero mais ninguém pra me enganar”.

Ninguém que seja bonita somente no corpo, nos gestos e maneira de falar. Ninguém, vestida de vermelho ou rosa goiaba apenas para me hipnotizar. Ninguém mulher apenas no sexo, na leveza da voz, mas sem atitude e respeito pelo compromisso firmado com o povo do Rio Tapajós. Ninguém apenas gostosa, bonita, atraente, envolvente, boa de voto e cama, mas ruim pra governar.

Ninguém mulher apenas porque não nasceu homem, “Vá de uma vez/ não volte mais/ não vou voltar atrás/ não quero mais ninguém pra me enganar”. “Por onde tu andares/ na certa encontrarás/ em tudo uma lembrança do que ficou pra trás/ de um amor que era lindo/ que aos poucos se perdeu/ e agora só nos resta lembrar nada mais”.

A estrela do PT que era nossa, agora é só sua e dos seus e não tem pra ninguém do povo que está debaixo da mesa comendo e sobrevivendo apenas das sobras dos pratos dos seus banquetes. Aqueles nossos antigos amigos que em 82 pichavam com a gente, criticando os vilões da política da época, agora passam escondidos por trás de suas vidraças escuras de seus carros climatizados, com as pacoteiras de dinheiro distribuindo para esse, aquele e aqueles.

O ato mais simbólico de seu governo, aqui em Santarém, foi durante uma manifestação feita pelos professores estaduais, que empunhando cartazes e com a voz embargada entoavam “você pagou com traição/ a quem sempre lhe deu a mão”. Mas chora!

Do seu ex-eleitor, Apolinario

Obs.: Ah, a propósito, governadora, surtei! Acho que vou lhe trocar por não sei quem.

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* Santareno, é artista plástico.

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