
por Apolinário (*)
Deus seja louvado!
— ARTIGOS RELACIONADOS
Movido pela fé em Cristo e com o coração cheio de esperança que todos seremos perdoados no juízo final, venho perambulando por caminhos sofridos até os pés de Vossa Santidade com esta humilde carta, para tentar chegar mais perto de Deus Pai e Espírito Santo, na tentativa de conseguir perdão e solução para os pecados corruptos da política do meu país, vizinho ao seu.
Leia também do autor – Carta para Lewandowski.
Perdoe-me pela ousadia de quebrar a hierarquia, por não ter procurado primeiro o vigário da paróquia do meu bairro, o bispo de minha cidade, o cardeal geral do Brasil; por não ter comungado antes de lhe escrever, e por ter me dirigido diretamente a Vossa Santidade.
Santo papa, sou um artista autodidata, de imaginação surreal e abstrata.
Compreendo a vida apenas como um dia que começa claro e termina escuro para todos os seres vivos do mundo. Casei na igreja católica há 18 anos, com uma cabocla de Óbidos – temos 4 filhos.
O casamento foi feito pelo padre Luís Pinto, o único que naquele momento me compreendeu e aceitou fazer a celebração. É que havia contra mim perseguição por parte de alguns membros da Cúria, que torciam contra minha sobrevivência como católico com comportamento distorcido, por motivo de um certo dia difícil da minha infância eu ter surrupiado algumas hóstias para matar minha fome.
Se elas estavam abençoadas, não percebi. Lembro apenas que não tinham o gosto de corpo de Cristo.
Sei que isso não aconteceu só comigo. Outros paladares também não assimilaram o sabor real de muitas outras hóstias feitas da mesma saca de trigo. Confunde demais a mente e tortura a alma quando tentamos entender a diferença entre a ânfora de vinho e a glicose do sangue de Cristo – açúcar pegajoso das uvas pisadas pelos pés imundos de alguns corredores de Roma… E ainda ter que comparar tudo isso diante do espelho da vida e ver o monstro em que o passar do tempo transforma uma criança inocente.
Gigantes diabólicos e santos, feras adestradas pelos diabos camuflados de povo consagrados, deuses controlados pela dor e o medo de deixar de existir…
A pior viagem do corpo é a queda, a melhor mentira do amor é o beijo, e o pior momento de um filho santo de um carpinteiro é ser crucificado em uma cruz de madeira, e ainda ter que perdoar um povo todo corrompido pela política da fome. “Pai, perdoa-os que eles não sabem o que fazem”.
É natural, Vossa Santidade Papa Francisco, que um povo sem Deus não saiba o que está fazendo, que um povo controlado por meia dúzia de poderosos carniceiros não arrede nunca o pé da lama do buraco da miséria. A fartura foi feita para poucos.
Se o povo todo fosse feliz e farto, a fartura e a felicidade não teriam valor algum.
Tem sido assim que o povo vem sobrevivendo ao bem e ao mal. A parte do povo mais difícil de se equilibrar na corda bamba e escapar dos perigos naturais de sua existência é justamente os seus líderes.
A todo momento, na mira do extermínio internacional, um líder de povo tem que se cuidar também com os inimigos que moram juntos – são às vezes mais carnívoros e perigosos. Isso está acontecendo com o meu país.
Judiciário contra o Governo, Câmara contra o Senado, partido do vice contra o da presidenta, o machismo estrangeiro com o regional unidos contra mulheres governando a nação, estados e municípios…
Quantos governos do sexo masculino roubaram os cofres públicos e assassinaram os movimentos populares, e ninguém nunca ouviu falar de justiça tanto assim? Nem na TV Globo e nem no rádio.
Estou com a premonição, Santidade, que algo muito grave está sendo pensado pelos militares neste momento. Do jeito que as coisas estão sendo conduzidas, temo que seja um golpe militar moderno.
“Vamos acabar com essa imoralidade e, em nome da Pátria, vamos assumir o Governo! Está fechado o Congresso e o Judiciário!”
Por isso, Santidade, venho lhe pedir não só oração e bênção, mas sim que interceda pelo seu país vizinho.
A nossa panela já perdeu a pressão. Pelo amor de Deus, peça para João Paulo II pedir para João Paulo I pedir para Deus colocar mais feijão na nossa água.
Diante dos olhos e ouvidos de Deus me despeço, e que Vossa Santidade seja feliz e com poucos problemas até o final do seu pontificado. Adeus.
Obs: Santidade, se as suas orações a favor do povo da América Latina derem certo, vamos comemorar com uma partida entre o seu São Lourenço e o meu São Raimundo. Até lá, estaremos com reforços, e não haverá problema se o jogo for no La Bombonera ou no estádio do River Plate.
– – – – – – – – – – – – – –
* Santareno, é artista plástico e articulista do Blog do Jeso.