Jeso Carneiro

Click

por Sérgio Freire (*)

Aí eu abro o browser. E vi que ele curtiu um post meu. Uma sensação de ser pega no flagra me invade porque eu não consigo disfarçar o sorriso que veio automático.

Eu nunca o vi pessoalmente. Só nas redes sociais. Sei do que ele gosta, o que pensa, onde está. Sei quando está triste, quando está alegre, quando está irônico. Sei que músicas ele ouve, a que séries assiste, o que está lendo.

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Não, não sou stalker. Apenas fico feliz em saber que ele existe. Ai, que boba eu… Saber dele me faz bem. Desconfio de que ele me sabe também. Mas a gente mantém a distância prudente. Eu às vezes sinalizo. Ele às vezes mostra que me entende. A gente flerta veladamente, embora não admitamos.

Aí ele posta uma foto com a namorada. Eu curto. Ele entende o que essa curtida quer dizer. Ele vai e curte uma foto minha de um álbum antigo. Mas ele nunca curte uma foto minha acompanhada. Eu entendo o que ele quer dizer.

A gente nunca se cutucou. Quem se quer de verdade não se cutuca nunca. E assim a gente vai construindo a nossa história. Sim, a gente já tem uma história. Todo dia de manhã, quando eu entro no Face, vou direto no perfil dele e falo em voz alta para ele, meio que cantando: ‘Bom dia, meu amor!’

Não quero nunca encontrá-lo de verdade. Eu morro de medo de no encontro perder a intimidade que já temos. E que cresce a cada dia. A gente se sabe tanto já…

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* Amazonense, é escritor, professor doutor e tradutor, além de blogueiro. Escreve regularmente neste blog.

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