Não me sigam! Eu, também, estou perdido… Por Josué G. Vieira

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Não me sigam! Eu, também, estou perdido... Por Josué G. Vieira

Enquanto você está a caminho, alguma parte de você chegou; antes que a porta do restaurante se abra, os app´s trataram de lhe apresentar o salão, aproximar os pratos, contar quais são os preferidos, denunciar a demora do serviço, elogiar a sobremesa e até ensinar em que canto a fotografia fica melhor quando a tarde atravessa a janela.

É uma sensação de que outros olhos fizeram o reconhecimento por você; outros paladares sentenciaram, ao sentar-se na mesa, levastes consigo uma memoria feita por fatos que nunca viveu, não há exatamente a inocência de uma primeira vez; ainda não experimentou o lugar, e já aprendeu o que esperar dele.

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Que ironia! Nunca tivemos tantos caminhos para conhecer o mundo antes de encontrá-lo. Hiper conectados, nossa opinião leve, abundante e veloz atravessa continentes sem pagar passagem, que por outro lado, a experiência não recebeu a mesma facilidade, continua lenta, teimosa, pede que você vá, permaneça, leia, escute, observe, conviva, gaste algumas horas e suporte inclusive a chance de estar errado.

Há um fio de navalha quando opinar ficou barato e experimentar, viver, continua com seu preço único, esse fio é um custo, esconde uma lição existencial, de que nenhuma tela vai permitir que o encontro desarrume o que você pensava saber e devolva, ao final, alguém ligeiramente diferente daquele que chegou.

Durante muito tempo, você lia o livro, assistia ao filme, conhecia alguém, visitava um lugar, acompanhava um acontecimento, depois, talvez, construísse um juízo. Naturalmente, esse intervalo nunca foi perfeito, sempre existiram preconceitos, reputações, autoridades, jornais, professores, críticos, amigos e inimigos dizendo antecipadamente o que deveríamos pensar.

Hoje, em escala e na estrutura, a opinião chega primeiro, e lá atrás, ofegante, primária, quase pedindo misericórdia, vem a experiência. Volte ao exemplo do restaurante, não fomos ao restaurante apenas para comer, fomos verificar uma hipótese.

O prato que “vale a pena”, a bebida que “combina”, o horário que “funciona”, o canto mais fotogênico, e a comida… a comida, rsrsrs, chega à mesa experimentada, descrita por desconhecidos, você prova e depois compara, procura sentir o entusiasmo que os comentários prometeram ou a decepção que anunciaram.

Isso muda alguma coisa delicada na relação com o mundo, a experiência funciona como confirmação ou contestação de uma opinião previamente recebida. Está explicado porque ela é mais barata, já que experimentar não é simplesmente encontrar aquilo que esperávamos, é conceder às coisas o direito de nos surpreender, e quem sabe estejamos perdendo esse direito.

Se em sua casa houver uma estante de livros, olhe agora para ela, senão houver, abra a tela do celular e cavuque nos arquivos a lista de livros que você um dia prometeu ler, buscar conhecimento, fortalecer sua cultura. Quem sabe, nas duas situações há livros que milhões de pessoas conhecem sem jamais terem lido.

“1984” aparece como uma palavra que alguém fala em vigilância; “O Príncipe” sobreviveu os séculos com a fama de manual da astúcia política; “A República” carregou centúrias sendo reduzido a uma caverna e algumas sombras; “O Capital” encontra defensores apaixonados e adversários igualmente convictos que talvez nunca tenham enfrentado seus volumes. A Bíblia circula em versículos separados do corpo que lhes dava contexto; Freud cabe numa conversa sobre desejo, trauma ou inconsciente; Nietzsche reaparece em frases de efeito sobre força, moral, solidão e abismos.

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Conhecidas e ao mesmo tempo estranhas, essas obras tornam-se íntimas dentro de nossas opiniões e ao mesmo tempo desconhecidas em sua leitura. Pergunte a si mesmo: quantas obras você acredita rejeitar sem jamais tê-las lido? Quantos autores admira por meia dúzia de citações? Quantas pessoas foram absolvidas ou condenadas dentro de você por relatos que chegaram antes delas?

Veja bem, não se trata de investigar a culpa, trata-se de perceber uma engrenagem silenciosa, alguém interpreta, outro resume, outro recorta, você recebe e, quando finalmente poderia começar a conhecer, já encontra dentro de si uma conclusão esperando pelo objeto. Professores, críticos, resenhistas, influenciadores, podcasts, vídeos de poucos minutos, comentários, resumos, algoritmos e aquela frase destacada que atravessou décadas até chegar sozinha à tela do celular. É isso!

Aquilo que aparece muitas vezes adquire o perfume enganoso das coisas conhecidas, a tela do seu celular sabe disso e trabalha sem descanso, aproxima, seleciona, recomenda, devolve, insiste; mostra novamente o que reteve sua atenção e vai construindo ao redor de você uma paisagem feita de reconhecimentos.

Depois de algum tempo, confundimos saber o nome de uma coisa com saber alguma coisa sobre ela; confundimos ter ouvido uma ideia com tê-la examinado alguma vez, a familiaridade veste as roupas do conhecimento e quase ninguém pede seus documentos. É, por isso, que seja difícil perceber o que perdemos, porque o mundo já explicado, tudo chega com legenda, interpretação e sentença.

Quanto daquilo que você chama de opinião nasceu realmente do encontro e quanto apenas chegou antes de você?

Cansativo, né, penso que você precisa de férias, anda confuso, cheio das situações que o cercam, não ouve mais o que outros dizem, apenas escuta e assim fica. Não duvido que um belo descanso merecido longe de tudo e de todos seja um bálsamo para seus nervos e pensamentos

Então você viaja!

Chega ao Rio de Janeiro e sobe até o Cristo Redentor, ou, então vai a Paris e encontra a Torre Eiffel, quem sabe, atravessa o Peru até Machu Picchu. Pare com isso, já está todo párvulo entrando no Teatro Amazonas, em Manaus; lugares diferentes, histórias diferentes, paisagens diferentes, mas há um gesto que se repete.

Ao chegar nesses lugares, você procura o enquadramento, não qualquer um, mas AQUELE, o único, radiante, redentor, e que valeu a pena sair do conforto para enfrentar as condicionalidades físicas pelo Belo. A posição da câmera que você já viu, a perspectiva conhecida, a fotografia que outras milhares de pessoas fizeram antes. Por alguns segundos, uma das experiências mais extraordinárias que o deslocamento poderia oferecer, transforma-se numa operação de reconhecimento.

“É aqui!”, você diz, grita ou gesticula, e é lá, que fez você viajar milhares de quilômetros para encontrar uma imagem que já conhecia. A fotografia deveria guardar a experiência, começa a precedê-la, primeiro conhecemos a imagem; depois procuramos o mundo que corresponda a ela, a paisagem deixa de surpreender e passa por uma espécie de prova documental.

Algumas viagens produzem gigas de vídeos e fotografias e tão poucas lembranças difíceis de enquadrar numa fotografia ou vídeo; porque, vamos fazer um exercício de recordação, o cheiro de uma rua depois da chuva, o cansaço das pernas, uma conversa inesperada, o silêncio estranho de determinada praça, o gosto de uma comida cujo nome você esqueceu, a pessoa que indicou o caminho errado, o vento, a espera, aquela esquina sem importância onde você permaneceu cinco minutos a mais.

E, lá no fundo, você sabe que a experiência costuma morar onde o roteiro não colocou legenda, pergunte a si mesmo quantas pessoas você conhece que estiveram dentro de uma aldeia indígena. Não numa visita turística de algumas horas, mas tempo suficiente para observar relações, conflitos, parentescos, trabalho, religião, política, desejo, contradições.

Vamos ampliar o escopo, quantas estiveram num garimpo? Numa penitenciária? Numa ocupação urbana? Numa comunidade ribeirinha? Numa fronteira agrícola? Agora pergunte quantas possuem opiniões muito consolidadas sobre indígenas, garimpeiros, presos, policiais, agricultores, moradores de periferia, ambientalistas, ribeirinhos, empresários, migrantes.

Não se trata de defender que somente quem experimentou determinada realidade possa falar sobre ela, se fosse assim, quase todo conhecimento histórico, científico e político seria impossível. Sem falar nos documentos, pesquisas, testemunhos, estatísticas, livros, imagens e relatos, a experiência direta não é dona da verdade, quem está dentro também pode compreender mal aquilo que vive.

A questão é outra, quanto maior a distância entre nós e uma realidade, maior deveria ser nossa humildade diante dela, e nem sempre é dessa forma, acontece o contrário e o problema dessa questão é a distancia que produz certezas.

Também, convenhamos a realidade vista de perto tem o cacoete de estragar nossas expectativas e destruir nossas categorias, por exemplo, uma aldeia real é mais contraditória que “os indígenas”, uma penitenciária concreta é mais difícil que “os presos”, uma comunidade ribeirinha é mais complexa que qualquer legenda sobre a Amazônia, um garimpo visto de perto contém exploração, violência, sobrevivência, dinheiro, devastação, trabalho, medo, esperança e interesses que não desaparecem simplesmente porque escolhemos uma palavra para descrevê-los.

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É por isso que a realidade incomoda, ela desarruma, chega com uma gaveta e descobre que o mundo não cabe nela, ela tem capilaridades, especificidades. Enquanto a opinião, oferece uma pequena economia cognitiva, classifica e economiza o tempo, escolher um lado reduz o desconforto, uma conclusão encerra provisoriamente o trabalho, há certo alívio em dizer “já sei o que penso”, é como fechar uma porta.

Há coisas que precisam permanecer algum tempo dentro de nós antes de adquirirem forma, uma leitura precisa sedimentar, uma conversa precisa envelhecer algumas horas, uma viagem continua acontecendo depois da volta, uma pessoa que conhecemos hoje pode desmentir amanhã a personagem que construímos sobre ela.

A experiência tem seu próprio funcionamento, nós é que chegamos atrasados, e quando estamos preferimos os comentários, as avaliações, as interpretações, os vídeos, as fotografias, as indignações, ora, trazemos conosco uma multidão subjetiva dizendo o que seja, sem ao menos experimentar o suficiente da coisa dada.

Experimente chegar a algum lugar sem procurar imediatamente a fotografia que já viu, leia algumas páginas antes de consultar o que disseram sobre elas, escute alguém sem preparar a resposta enquanto essa pessoa ainda fala, diante de uma realidade distante, permita que a distância também faça parte do seu julgamento.

Talvez você mude de ideia.

Talvez não.

Depois, você vê.


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.

E ainda: O que sobra do que somos depois de tantos desvios na vida.

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