
por Márcio Halla (*)
Na segunda-feira, dia 09/09, o secretário municipal de Meio Ambiente, Podalyro Neto, foi entrevistado no Bom Dia Santarém.
Logo após ter assistido à entrevista, por ter observado a necessidade de explicar algumas coisas sobre a APA Alter do Chão, enviei a ele um email que, como imaginava, não foi respondido. Aqui no blog, quem sabe será?!
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Melhor seria, sem dúvida, se esta comunicação pudesse se dar pessoalmente, em espaço público, mas os espaços e canais de comunicação que foram construído entre janeiro de 2011 e abril de 2013, com muito esforço e voluntariedade de várias pessoas, foram obstruídos pela atual gestão.
Pelo que parece, como parte de uma estratégia de desarticular um processo de mobilização e protagonismo social, sem levar em conta que uma Área de Proteção Ambiental SÓ PODE SER EFETIVA SE TIVER PARTICIPAÇÃO SOCIAL.
Tal estratégia, ao meu ver, demonstra falta de habilidade e de senso de oportunidade. Ao invés de se somar e fortalecer um processo (apartidário) em andamento, o esforço da Semma vem sendo para recomeçar, para fazer tudo de acordo com as convicções próprias e pessoais do secretário. Convicções, diga-se de passagem, bastante equivocadas, como vou mostrar a seguir.
São dois os pontos mais falhos da entrevista, que mostraram ausência de conhecimento sobre gestão de Unidades de Conservação e tentativa de manipulação dos fatos:
1 – A fala do secretário na entrevista foi: “Tem um procedimento técnico anterior ao Plano de Uso, que é o Plano de Manejo. O Plano de Uso vem regulamentar aquilo que é estabelecido no Plano de Manejo”. Minha explicação é a seguinte:
O PLANO DE USO DEVE SER FEITO ANTES DO PLANO DE MANEJO!
O instrumento que regulamenta, que deve ser a base para a gestão da Unidade de Conservação, é o Plano de Manejo. Não faz sentido chamar a população para discutir regras, para fazer um acordo, depois que o Plano de Manejo está pronto. Só se for para “empurrar as regras goela abaixo”.
O Plano de Uso é uma ferramenta simplificada, que deve ser elaborado como um acordo entre as partes envolvidas, com ampla participação social, para depois ser absorvido pelo Plano de Manejo. Ou seja, o Plano de Uso é uma excelente referência para a POSTERIOR elaboração do Plano de Manejo, que é essencialmente um documento técnico. Que deve, sim, sempre, ser elaborado com a participação dos moradores e envolvidos, mas que depende de um grande aporte técnico.
2- A fala do secretário na entrevista foi: “O Plano de Uso não é da APA, que tem 9 comunidades, ele está muito restrito à Comunidade de Alter do Chão”. Minha explicação é a seguinte:
Entre os dias 06 e 08 de novembro de 2012 mais de 100 lideranças comunitárias das 9 COMUNIDADE DA APA participaram da construção e aprovação do Plano de Uso (PU). No dia 06 de dezembro de 2012 o Conselho Gestor da APA aprovou o Plano de Uso em reunião ordinária.
O Conselho Gestor da APA, apesar de ter sido homologado em abril de 2011 com composição bem diferente daquela que seria a ideal, sempre contou com a participação de uma representação de Ponta de Pedras e uma de todas as comunidades do Eixo Forte. Além da ativa participação de Ponta de Pedras e da Federação das Comunidades e Associações do Assentamento Agroextrativista do Eixo Forte ao longo de todo o processo de gestão da APA, nestes dias dedicados ao Plano de Uso TODAS AS 9 COMUNIDADES ESTAVAM REPRESENTADAS com no mínimo 2 lideranças.
Recorremos a dados secundários na elaboração do PU, utilizamos documentos, leis, estudos e relatórios de processos que envolveram todas as comunidades, justamente por termos construído e aprovado o Plano de Uso sem qualquer tipo de apoio da Prefeitura Municipal, com muito voluntariado e contrapartidas dos envolvidos. Claro que o ideal seria termos feito uma série de oficinas e reuniões em todas as comunidades, mas simplesmente não tivemos recursos para tanto e tivemos que lidar com a total ausência e omissão da SEMMA.
O que tenho a concluir, portanto, indo agora ao encontro das convicções do Sr. Podalyro, é: FAÇAMOS, ENTÃO, O PLANO DE MANEJO!
O SNUC, Sistema Nacional de Unidades de Conservação, lei federal que rege sobre o assunto, determina que o Plano de Manejo deve ser feito no prazo máximo de 5 anos após a criação da Unidade de Conservação. Portanto, a SEMMA e a Prefeitura Municipal de Santarém estão FORA DA LEI.
Em 2011, um grupo de pesquisadores da UFOPA estimou em 500 mil reais o valor necessário para elaborar o Plano de Manejo da APA. Pois então, se a SEMMA não quer reconhecer um documento consistente como o Plano de Uso da APA, aprovado com a participação de todas as comunidades e organizações comunitárias da APA Alter do Chão, SEM CUSTO PARA A PREFEITURA MUNICIPAL, façamos o Plano de Manejo, desde que seja com a devida participação social (prevista nos Arts. 5o e 27 do SNUC).
Enquanto isso vamos continuar trabalhando para que as regras do Plano de Uso sejam aplicadas.
Não há mais o que esperar, Alter do Chão e região estão em processo de intensa degradação ambiental e social. A reversão deste quadro depende, mais do que nunca, de quem realmente está comprometido com o nosso futuro comum.
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* É geólogo e morador de Alter do Chão.