por Vicente José Malheiros da Fonseca (*)
Raimunda Rodrigues Frazão, mais conhecida como Dica Frazão, nasceu em Capanema, Estado do Pará, em 20 de setembro de 1920.
Com 22 anos de idade, já casada, mudou-se para Santarém (PA), onde faleceu em 19 de maio de 2017, com 96 anos.
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Filha mais velha de um agricultor e de uma dona-de-casa, D. Dica estudou até a 4ª série do curso primário e ficou órfã de mãe aos 12 anos de idade.
Dois anos depois, seu pai saiu de casa dizendo que voltaria em três dias e sumiu. Dica assumiu a criação dos sete irmãos mais novos.
Chefe de família, ainda adolescente, trabalhava na roça e, à noite, costurava. Reencontrou o pai (Manoel Franklin), após 39 anos, doente, num garimpo distante e cuidou dele depois de criar os seus irmãos mais jovens e filhos.
Em Santarém, a fama da modista se consolidou.
Em janeiro de 1949, criou a sua primeira peça artesanal, um leque de penas de pássaro. A criação pioneira surgiu da encomenda de duas rosas feitas de penas de arara. Preocupada em como fazê-la, Dica teve a inspiração do trabalho num sonho.
Daí em diante confeccionou ventarolas, leques, toalhas de mesa, chapéus, redes, bonecas, vestidos de luxo, flores, bolsas e até vestidos de noiva.
Em respeito à ecologia, as penas dos animais selvagens foram substituídas por penas de animais domésticos (paturis, patos, perus e gansos). A natureza é sua inspiração.
Foi a primeira artesã a utilizar a raiz do patchuli. Depois vieram as palhas de tucum, buriti e açaizeiro, fibra de caranã, malva, bambu, cipó escada de jabuti, entrecasca de madeira, sementes de melão, melancia, tururi.
Seu trabalho é admirado pelo esmerado acabamento, variedade de cores e beleza estética.
Suas encomendas transformaram-se em réplicas que podem ser admiradas em sua residência, onde também funciona o museu que leva o seu nome. O seu ateliê, transformado em Museu Dica Frazão pela Prefeitura Municipal de Santarém, em parceria com o Ministério da Cultura (1999), é localizado à Rua Wilson Dias da Fonseca – Maestro Isoca (antiga Rua Floriano Peixoto), nº 281, um verdadeiro templo de arte.
Foi vizinha e amiga de nossa família, há muitos anos.
O Museu surgiu da necessidade de reunir, em um só espaço, réplicas de peças feitas pela artista e adquiridas por admiradores brasileiros e alienígenas.
O diferencial dos trabalhos de Dica Frazão é a matéria-prima usada, como sementes, fibra de entrecasca de madeira, raiz de patchuli, fibra de malva, penas de ganso, o que torna as peças belas e originais.
No quintal de sua casa tem uma criação de gansos, fonte das penas que usa nas suas produções artísticas.
A conceituada artesã, modista e estilista, quase centenária, continuava exercendo a sua apreciada arte, ao lado do marido, Pedro Vítor, praticamente seu único ajudante no ateliê.
É uma das principais personalidades da história da arte no Pará. Pioneira na criação e confecção de artesanato com material retirado da floresta amazônica, Dona Dica dispensou panos e tecidos, e passou a trabalhar somente com fibras naturais.
Sobre ela, meu pai Wilson Fonseca (maestro Isoca) escreveu no “Meu Baú Mocorongo” (v. 2, p. 597-598), ao discorrer sobre o artesanato e adornos santarenos:
“Outra faceta do artesanato ‘mocorongo’ que merece destaque é a confecção de leques e ventarolas de penas de aves ou patchuli, bem como objetos de adornos e peças de vestuário em que aplica material obtido nas matas vizinhas de Santarém, como fibra de palmeira buçú, entrecasca de árvores, palha de tucum, caule de açaí, penas de arara, garças, colhereiras e outras aves, sementes e frutas diversas, palha de milho e sândalo.
Pontifica nesse lavor, desde 1943, ajudada por suas filhas, D. Raimunda Rodrigues Frazão, a D. Dica Frazão como é mais conhecida.
Os trabalhos de arte saídos de seu atelier, instalado em seu próprio lar, são alvo de admiração, pelo seu apuro artístico e esmerado acabamento. Rejeita insinuações para a montagem de uma ‘indústria’ em grande escala; prefere trabalhar com amor, como sempre diz, dentro das tradições do artesanato, pois assim as suas criações são mais valorizadas artisticamente, embora menos rendosas monetariamente, dado o pequeno volume de produção.
Hoje os trabalhos artísticos de D. Dica e suas filhas, correm mundo, atingindo até as altas camadas sociais, que nem sabem de onde vêm tão delicados e atraentes objetos de arte.
E a artesã pioneira já motivou seguidores, que por sua vez vêm fazendo as suas variantes”.
Wilde Fonseca (maestro Dororó), meu tio e padrinho, fez as seguintes abordagens, em seu livro “Santarém Momentos Históricos” – Instituto Cultural Boanerges Sena (ICBS) e Prefeitura Municipal de Santarém, Gráfica Brasil, 5ª edição, 2006/2007, Santarém-PA (p. 173), no tópico sobre o artesanato santareno:
“Os leques saídos de seu atelier, feitos das mais variadas cores de penas de aves, são objeto de admiração, pelo apuro artístico e esmerado acabamento. Vale dizer que D. Dica não agride a natureza, pois as ‘penas de aves’, a que nos referimos, ela as obtém de aves domésticas tais como patos, paturis, perus etc., criados em viveiros próprios, cujas penas recebem variado colorido através de um processo por ela mesma criado. Dona Dica também realiza primorosos trabalhos com fibras silvestres (roupas, toalhas, redes, chapéus), que têm larga aceitação por parte de turistas que visitam a cidade. Aliás, a casa de Dona Dica é parada obrigatória de quantos turistas visitem Santarém”.
Tal como aprendeu com os índios, D. Dica não revelava o segredo de sua arte: o modo como transforma a casca dura silvestre em tecido macio, resistente e branco.
A artesã era ardorosa defensora do desenvolvimento sustentável.
Fez trabalhos para a Rainha Fabíola, da Bélgica, ao Papa João Paulo II, ao Presidente Juscelino Kubitschek e outras personalidades nacionais e estrangeiras.
A capa do Programa do 1º Festival de Música Popular do Baixo-Amazonas, realizado em Santarém, em 1970, foi ilustrada com a sua arte.
Participou da famosa “Semana de Santarém”, em outubro de 1972, com exposição de seus trabalhos, no Theatro da Paz, em Belém (PA).
O belo suporte que acompanha a coletânea “Meu Baú Mocorongo” (Wilson Fonseca), impressa por RR Donnelley Moore (SP) e editada pelo Governo do Estado do Pará, lançado em Santarém (PA), em 17.11.2006, é ilustrado com a reprodução gráfica dos famosos leques de Dona Dica, que já prenuncia a arte e a cultura mocoronga.
Ainda em vida recebeu diversas honrarias.
Em 2008, foi homenageada com o prêmio de Mulher Padrão, pelo Conselho de Profissionais do Estado do Pará.
Foi membro efetivo e vitalício da Academia de Letras e Artes de Santarém (Cadeira nº 23).
Salve a grande artesã Dica Frazão, uma mulher de fibra e talento invejáveis!
Em sua homenagem, compus a música “Elegia para Dica Frazão”, um noturno extraído de uma peça que compus em 1970 (“Olhando o ocaso”), agora com arranjo para Duo de Oboé e Piano, cuja execução simulada por computador pode ser ouvida nesse link:
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* É o decano do TRT8, músico e compositor santareno residente em Belém. O artigo acima, atualizado ontem, 19, foi publicado originalmente na Revista do Programa da Festa de N. S. da Conceição, Santarém (PA), do ano de 2010.
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