por Orivaldo Fonseca (*)
O dramaturgo Nelson Rodrigues, citando Otto Lara Resende, escreveu que “o mineiro só é solidário no câncer”. Quando o assunto é um político do quilate de Orestes Quércia, eu sou mineiramente solidário. Como se sabe, Quércia renunciou à sua candidatura ao Senado por São Paulo porque lhe ressurgiu um câncer na próstata. Desejo profundamente que o ex-governador se recupere da mesma forma que desejo que jamais retorne à vida pública.
Mas esperar que homens como Quércia sejam banidos do cenário político por uma enfermidade, além de fisicamente cruel (para o político), é significadamente injusto (para o povo). Jader Barbalho pode ter quantos cânceres a Divina Providência lhe reservar, mas não é justo que isso seja o motivo de sua despedida da política. O ideal seria que o povo, esse desmiolado masoquista, se incumbisse da defenestração. Mas enquanto não atingimos esse grau de evolução, que seja bem-vinda a Lei da Ficha Limpa.
Eu não posso ser contra uma lei que lança ao fogo gente da casta de Jader Barbalho, Cássio Cunha Lima e Joaquim Roriz. Por outro lado, não posso ser a favor da manipulação escusa que se faz dessa lei, ao se tentar colocar nesse mesmo balaio torpe pessoas honradas como o casal Capiberibe, do Amapá.
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E por falar no Amapá… Ah, o Amapá! O estado mais musicalmente lindo que já conheci e o mais masoquista politicamente. Celeiro de oligarquias dos mais variados matizes, o Amapá forçou o surgimento de mais uma via para refrear o ímpeto da gatunagem: as operações da Polícia Federal. A mais recente, denominada Mãos Limpas, jogou no xilindró não menos que o governador do estado, Pedro Paulo Dias (PP), candidato à reeleição; o ex-governador Waldez Góes (PDT), candidato ao Senado; o presidente do Tribunal de Contas do Estado, José Júlio de Miranda Coelho, além secretários de estado.
O Amapá já é velho conhecido da PF. Muitos de seus caciques já viram o sol nascer quadrado por conta das operações Pororoca, Sanguessuga e Antídoto. Foram prefeitos, deputados, secretários estaduais e municipais e outros ladrõezinhos de escalões inferiores, mas não menos perigosos.
Mas o triste é constatar que todos, absolutamente todos, os larápios pegos pela Federal, e que se candidataram a cargos eletivos, foram premiados com mandatos. O Amapá possui um magnetismo tão forte para a roubalheira que não surpreenderá se essa corja surpreendida pela Operação Mãos Limpas sair de cana mais fortalecida do que quando entrou.
Não por acaso José Sarney escolheu o estado para abrigar-se. Não por acaso surgiram rumores de que Fernando Collor e Paulo Maluf intentavam o mesmo. Alô, alô, Quércia, Barbalho, Cunha Lima, Roriz e amiguinhos! Sou-lhes solidário apenas na eventualidade do câncer. Mas dou-lhes uma dica se sobreviverem à Ficha Limpa e à Polícia Federal: conheçam o Amapá!
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* É poeta, paraense de Belém, controlador de voo e parceiro musical de Zé Maria Pinto. Mora hoje em João Pessoa (PB). Escreve regularmente neste blog.