Jeso Carneiro

HP no Céu

por Paulo Silber (*)

– O próximo!

São Pedro, com voz de trovão, dera a senha. Hamilton Pinheiro estalou o pescoço, empurrando com as mãos o queixo para trás e a nuca para a frente. Passou os dedos nos fiapos de cabelos desalinhados na careca e apresentou-se diante da mesa do Santo.

– Prossiga, comandante!

O porteiro de Deus abrandou-se, vergou o corpo sagrado para a frente como quem quer contar um segredo.

Hamilton imitou o gesto, oferecendo a orelha graúda.

– Comandante… – ralhou São Pedro – é o Homem lá da cobertura.

– Positivo – obedeceu o velho radialista, respeitoso como ele só.

São Pedro retomou o distanciamento.

Afiou a barba e mediu o pequeno humano à sua frente, com os olhos. Depois mirou a ficha do recém-chegado e novamente o espiou, sem dizer nada, apenas murmurando e balançando a cabeça positivamente.

Humilde e sereno, mas firme como um soldado na trincheira, Hamilton devolveu-lhe o olhar, por sobre os óculos, arqueando as sobrancelhas quase apagadas pelos 63 anos, mais de 40 dedicados ao jornalismo.

– Hamilton Pinheiro, né? Nova Timboteua, Belém, Rádio Difusora, Liberal AM, TV Liberal, Cultura OT, SBT, RBA, Record, Cultura de novo… – o fundador da Igreja Católica enumerava as informações do prontuário. – Então, é este o seu currículo, senhor Hamilton Pinheiro?

– HP… – Hamilton atreveu-se a corrigir.

– Hã?! – embaralhou-se São Pedro. – Como ousa interromper a reflexão de um Santo, senhor Hamilton?

– É como me chamam: HP…

– Então o senhor abdica de seu nome em favor de um epíteto, que tanto pode fazer referência ao apelidado como a uma impressora?

– Tem também um pessoal do pagode…

– Ah, o senhor é engraçadinho?…

– Positivo e operante.

A fila atrás do radialista inquietou-se. Ouviram-se murmúrios. Uma senhora, que conhecia HP desde o Paes de Carvalho, desmaiou. Houve quem puxasse o terço já com medo da descida de HP diante da impertinência com São Pedro.

Mas eis que uma sonora gargalhada estremeceu os céus. Na Terra, uma nuvem negra recalcitrante dissipou-se sobre a Ruy Barbosa.

A gargalhada era do próprio São Pedro, satisfeito com a rápida entrevista, curvando-se ao humor sutil do pequeno grande homem que esperava autorização para entrar no Céu, porque currículo ele tinha de sobra. Não apenas como radialista, mas principalmente como gente de bem.

– Pode entrar, filho! – aquiesceu o Porteiro de Deus, dando um tapinha nas costas de HP, como quem já tem intimidade.

Hamilton seguiu em frente, os passinhos curtos. Um olho firme, outro caído, a respiração agora incrivelmente macia, um riso na ponta dos lábios sem fazer estardalhaço, olhando para um lado e outro, curioso, como sempre.

Mas São Pedro chamou de novo, como se tomado de uma súbita raiva, um inexplicável arrependimento:

– HP! – gritou o Santo.

A fila voltou a ruir: “Ohhhhhhh…”

O radialista girou 180 graus nos calcanhares e encarou São Pedro com tranquilidade.

– SP?

São Pedro o olhou apenas o tempo suficiente para uma bênção sagrada e silenciosa. Depois sorriu:

– Nada não. Eu só queria agradecer pelo que você fez pela nossa causa lá embaixo.

– A gente faz o que pode – respondeu HP, sempre humilde.

São Pedro alargou o sorriso com ternura. Mas rapidamente recompôs-se e, antes de chamar o próximo, ordenou ao simpático baixinho:

– Prossiga, Comandante!

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* É jornalista, natural de Marapanim.

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