Jeso Carneiro

Lendas urbanas: a dama de vermelho

por David Marinho (*)

Os mais antigos habitantes de Santarém devem lembrar-se da época da febre do ouro, nas décadas de 60 a 80. Esta cidade era muito agitada no comércio e em suas noitadas de festas pela presença de garimpeiros que, como se dizia na época, “bamburravam” na extração de ouro nos garimpos da região do Tapajós próximos, a Itaituba.

As casas noturnas eram muito freqüentadas e as brigas e mortes pela disputa das damas, geralmente meretrizes que freqüentavam esses ambientes, eram resolvidas à bala dos “tresoitões”.

Nesse período do “faroeste santareno”, existia uma casa noturna na esquina das avenidas Barão do Rio Branco e Mendonça Furtado, em frente ao cemitério São João Batista, no centro da cidade, conhecida como salão do “Vermelhão”, nome surgido da característica do piso de sua pista de dança feita com pigmentação e alisada com cera Cachopa de cor “vermelha”.

Dentre as garotas que ali freqüentavam, uma em particular chamava a atenção, por sua beleza física e pela característica de se apresentar sempre de vestido preto com detalhes brilhantes, e ser de pouca conversa. Mas que era muito disputada pelos garimpeiros para dançar, pois dançava muito bem os “calientes” boleros, sucessos de Waldick Soriano, o “rei da zona”, e recebia cantadas para acompanhá-los às muitas “pensões de quartos” daquela época, pois não existiam motéis na cidade.

Certa madrugada, essa dita “dama de preto”, em frente a essa casa noturna, pegou um taxi e pediu ao motorista que a levasse na Estrada da Rodagem, nº 666, hoje a movimentada avenida Magalhães Barata, no trecho conhecido como “Morro do Sapo”, próximo a atual estação rodoviária, alegando ser seu endereço.

O taxista seguiu o trajeto pedido, tentou puxar uma conversa com sua bela cliente, mas esta só lhe deu um leve sorriso colocando a mão na boca, não alimentando qualquer tipo de conversa.

Chegando ao local indicado, ela pediu que o mesmo parasse em frente a uma humilde casa de madeira dizendo que aguardasse um pouco que iria pegar algum dinheiro com sua avó e retornaria para pagá-lo. A dama abriu um pequeno portão de pau-a-pique e adentrou por um corredor ao lado da casa.

O taxista esperou, mas ela não retornou.

Impaciente pela demora de mais de 30 minutos, e pensando que tinha levado mais um “pino” de sua linda passageira, desceu do carro, abriu o portão e resolveu bater na porta da casa. Depois de alguns minutos, uma senhora de idade abriu a janela com uma pequena lamparina na mão, tentando protegê-la do vento para não apagar, e perguntou o que ele desejava.

O taxista, meio sem jeito, constrangido de estar perturbando a idosa, se desculpou, mas justificou sua decisão de bater para tentar receber o dinheiro de sua corrida, da moça que ali tinha adentrado e disse:

– Desculpe-me, senhora, mas fiz uma corrida a pouco mais de meia hora para uma moça de preto que entrou nesse portão alegando que iria pegar o dinheiro aí, para pagar-me.

Então a velhinha retrucou espantada:
– Senhor, aqui não mora mais ninguém além de mim, pois vivo sozinha aqui abandonada…
– Não acredito nisso!, disse o motora. “Pois eu trouxe uma moça linda, vestida de preto, cabelos longos e…

Nesse momento, ele foi interrompido pela senhora, que alegou que uma moça com essas características, realmente morou com ela, era sua neta que tinha falecida há três meses, por ter contraído “malária da braba” nos garimpos do Tapajós… Em seguida pediu que ele entrasse em sua pequena sala e confirmasse a pessoa em uma foto pintada em um quadro que estava pendurado em sua parede, e que ela guardava de recordação com muito carinho…

O homem, assustado, confirmou como sendo ela que transportara em seu táxi.

Nesse momento, sentiu um arrepiou pelo corpo, se benzeu, desculpou-se da senhora correndo para seu táxi e saiu disparado cantando pneu rumo ao centro da cidade, ainda caiu numa baita vala, pois nesse trecho da cidade era uma escuridão medonha, não diferente de hoje…

Chegando em frente ao bordel conhecido como “Sombra da Lua”, ainda na Rodagem, sentiu um forte cheiro de flor, olhou pelo retrovisor interno do carro e viu novamente a dita “dama de preto” sentada no banco traseiro de seu táxi sorrindo para ele com os dentes todos podres e cheios de falhas.

Nesse momento, desmaiou e bateu seu carro num poste de “acariquara” da antiga companhia de energia “Força e Luz”, que como hoje, já naquela época também só tinha “luz” no nome, e “força”, neca, neca… Mas naquele tempo quando ia faltar luz, eles avisavam dando um “apito” para que pegássemos as lamparinas a tempo. Agora nem isso, pois o pisca-pisca vem sem aviso…

Quando recobrou os sentidos, estava no antigo “SESP” com 40º de febre, tomando uma “Benzetacil” de (2.500.000 unidades) nas nádegas. Égua da injeção doída, não iria dirigir tão cedo…

Depois que recebeu alta desse “saudoso” hospital, foi à oficina onde estava seu táxi “Willys Itamaraty – 66” todo amassado e ao olhar no assoalho entre os bancos traseiros, encontrou um ramo de flores murchas, com um pequeno cartão onde estava escrito: “Até breve! Estarei no Vermelhão à tua espera…”

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* Santareno, é gestor ambiental.

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