por David Marinho (*)
Das muitas lendas urbanas contadas pela população de Santarém em passado recente, lembro-me de uma que na minha adolescência tive a péssima experiência de passar por grandes sufocos e medos.
Minha família morava de favor na última casa da hoje denominada Rua Raimundo Fona, no bairro do Salé, de propriedade do Sr. Enéias, que fabricava colchões de capim. Nos idos anos 60, era chamada de Estrada da FAO-CT. E essa casa na qual morávamos ficava próximo ao portão desse “Centro de Treinamento” do ramo madeireiro que capacitava profissionais para as serrarias da região.
Nessa época, as escolas públicas de Santarém tinham dificuldades de vagas para atender toda a demanda de alunos com idade escolar, então uma medida paliativa minimizando essa carência foi criar vários turnos de aulas, quando tivemos a péssima experiência de baixo aprendizado pelos turnos de períodos curtos: matinal, intermediário, tarde e noturno.
— ARTIGOS RELACIONADOS
E eu, inclusive, tendo apenas 14 anos, tive que estudar à noite no Colégio São Raimundo Nonato, o que para mim e os colegas era um sufoco na volta para casa tarde da noite, por estradas cheias de mato e sem iluminação pública. Nessa época só se conhecia dois bairros em Santarém: Prainha, na parte leste da cidade, e esse que morávamos chamado de Aldeia, na parte oeste.
Nessa periferia da cidade, os moradores falavam numa boca só, quase convictos, de que um “velho” que morava sozinho com seu cachorro “vira-lata” numa choupana isolada, e que trabalhava na produção de carvão, sendo alcoólatra inverterado por ter passado por uma desilusão amorosa, e se entregara ao vício da bebida, vivendo diuturnamente porre!
Havia pessoas que juravam de pés juntos de terem visto várias vezes esse pobre coitado ingerindo “despachos de macumba e cachaça” nas encruzilhadas, e no início de todas as noites de lua cheia dos dias 13 de cada mês, rolando sem roupas num buraco no chão (covão), onde seu cachorro se deitava no quintal (cama animal), e que depois de alguns minutos transformava-se, (virava ou gerava-se) em um grande cachorro de cor parda, que saía atacando e chupando o sangue de outros cães da redondeza, e o que encontrava pela frente nos caminhos escuros daquele bairro isolado tomado pela escuridão, inclusive de pessoas.
Acho que essa criatura foi o precursor do “chupa-cabras”…
Lembro-me que ao sair do colégio às 22:00 horas e ter de voltar para casa em companhia de alguns colegas, tínhamos de fazer um longo rodeio pela Avenida Rui Barbosa e atravessar por dentro de um igarapé com capinzal onde até capivara tinha, com água que dava pelo joelho e que tinha sua nascente na Avenida São Sebastião, onde hoje está o galpão-depósito da Gval, que alimentava a enseada chamada de “Laguinho”.
Nessa enseada barcos ancoravam próximo a Rua Benjamin Constant, hoje Silvério Siroutheau ao lado da casa do Sr. Felipinho. Essa área foi toda aterrada pelo interventor federal; Capitão Elmano de Moura Melo.
Ao apartar dos colegas na hoje Travessa Antonio Justa, seguia sozinho para casa por caminhos escuros, com as “sandálias na mão e o coração na boca”, pronto para o carreirão se o tal cachorro aparecesse, e o pior era que qualquer cachorrinho que surgia, o medo era tão grande que fazia parecer o tal “porre que virava cachorro”.
Algumas pessoas chegaram a mostrar ferimentos nas pernas e responsabilizar o tal “cachorro” que diziam ter a “cara de gente”, igual ao da foto.
Certa noite chuvosa, voltava sozinho todo molhado com os cadernos embaixo da camisa presos na barriga com a bermuda, quando olhei para trás, vi um vulto canino de grande porte, não sei se era a imagem do medo, só sei que nessa corrida ganharia até do Usain Bolt, pois mesmo caindo de barriga no igarapé quando nem o caderno molhou, tirei em poucos minutos desse igarapé até o portão da antiga FAO, onde hoje é o Campus da UFOPA, quando estava próximo de casa comecei a gritar que para minha sorte, minha mãe estava com o farol a querosene aceso na janela.
Quando me viu gritando abriu a porta na qual entrei disparado quase levando minha velha no peito! De manhã, vimos alguns aranhões na porta da cozinha…
A partir desse dia, abandonei a escola entrando para a estatística de evasão, por justa causa é claro. E só voltei a estudar no ano seguinte em horário intermediário, tendo outra experiência sofrida, pois saía de casa com fome por não estar pronto o almoço, e quando voltava continuava com fome, porque meus irmãos já tinham comido tudo, uma vez que era pouco… Oh infância sofrida, que ao lembrar hoje, ainda me dá medo…
– – – – – – – – – – – – – – – – –
* Santareno, é gestor ambiental. Escreve regularmente neste blog