por Célio Simões (*)
Papai sempre viajava só.
Era piloto, marinheiro e maquinista, como soe acontecer com quem se utiliza desse tipo de transporte no gigantesco Rio Amazonas. Motor de popa, as atuais “rabetas”, antes sempre foi sinônimo de pane inesperada ou pela quebra de peças, velas imprestáveis ou vegetação aquática enrolado na hélice.
— ARTIGOS RELACIONADOS
Ouvi e vivenciei tais episódios inúmeras vezes, quer em nosso próprio meio de transporte, assim naquele alugado ao vizinho Lisbino, um bote de bom tamanho batizado com o nome de “LISNATO” (mistura do nome do dono com o de Nonato, seu primogênito). Mas no esplendor de setembro de muito sol, vento e maresia no Amazonas, a novidade ficou por conta da passageira que meu pai conduzia a bordo, para mim completamente desconhecida.
Negra, forte, cabelo tipo “black power” que não via pente há meses, pés descalços com rachaduras nos calcanhares pelas andanças nas tiriricas e terroadas, perna piririca de urubu, rosto redondo e olhos apertados, não encarava ninguém de frente. Mal a “Diacuí” tocou a rampa na restinga, começou a azáfama para aliviar a carga de mantimentos e ela ali parada, simplesmente olhando. Como que adivinhando meu interrogativo olhar de moleque de cinco anos, o velho fez as apresentações: “Esta aqui é a Maria, vem para a fazenda morar conosco”.
Caminhamos todos em direção ao casarão, passando pelos troncos flutuantes improvisados como ponte, levando cada qual o que podia carregar. Ela, a tal Maria, portava uma trouxa de roupa, pouco mais que andrajos e um paneiro forrado com folhas de arumã cheio de beiju que fora adquirido no Mercado, antes da viagem.
Mamãe estava nos esperando na parte superior da escada de seis degraus e fez festa ao ver as compras, indispensáveis ao mínimo necessário para uma família que já somava quatro crianças. Entretanto, passeou o olhar entre papai e a estranha, como a indagar o que fazia ali aquela criatura que nunca vira na vida.
Aí veio a definitiva explicação.
O Juiz de Direito de Óbidos, Dr. Reynaldo Xerfan (que anos mais tarde morreu de enfarte em Belém, em pleno estádio, assistindo a um jogo do Paysandu X Remo) já havia conseguido na base da amizade empregar aquela criatura como doméstica na casa de algumas famílias da cidade.
Poucos meses depois ela era “devolvida” ao Juiz, com as mais diversificadas queixas, porque vivia aprontando, tudo levando a crer que ela não era muito certa das idéias. Tinha repentinas crises de fúria e da última vez, armada de um terçado, botou os patrões para correr, pelo simples fato de não haver gostado da ordem que recebeu da dona da casa para lavar uma peça de roupa.
Ficou mofando na delegacia mas até os presos tinham medo dela, porque parecia uma onça acuada, capaz de matar para sobreviver. foi aí que o Dr. Xerfan conversou com meu pai e sem rodeios, expôs o angustiante problema. Tudo que sabia dela era o prenome (Maria). Não tinha carteira de identidade, certidão de nascimento, título de eleitor, nem ela mesmo sabia informar dia, ano e local de seu nascimento. Apenas que viera de Manaus, fugida num navio da extinta SNAAPP (Serviço de Navegação da Amazônia e Administração dos Portos do Pará), após se envolver numa briga com um estivador no cais do porto. E no cárcere ela não podia continuar, porque não havia condições adequadas para sua permanência.
Esperançoso, ponderou o magistrado:
– Talvez o ar puro e a vida livre na fazenda…
Meu pai era pessoa de boa índole, que na vida só fez amigos. Cedeu ao pedido do juiz e levou para casa aquela figura lombrosiana, de aspecto sinistro, autêntico cruzamento de pitbull com cascavel. E não demorou muito ela começou a botar as unhas de fora.
Mamãe dava uma orientação quanto aos serviços domésticos e ela ostensivamente desobedecia. Passava o dia rosnando pelos cantos, falando coisas ininteligíveis e quando estava com fome, desandava a chamar palavrão. Ganhou roupas, sandálias e uma rede nova; a alimentação era farta pela abundância de leite, peixe e caça, mas Maria vivia permanentemente insatisfeita, o olhar de ódio fuzilando a família que a acolheu e os demais empregados da fazenda.
Não trocava palavra com ninguém. Não era chegada a tomar banho. Suas obrigações eram módicas: ajudar na cozinha, lavar a louça, enxaguar uma que outra peça de roupa e uma vez na semana passar uma vassoura de piaçava na parte assoalhada da casa. O resto do tempo era exclusivamente seu, para repouso, sono ou alimentação.
Porém nem essa vida mansa a seduzia. Seu espírito malévolo vinha à tona mesmo nas pequenas tarefas. Costumava pegar a panela de água fervente e com ela se esgueirar por trás do imenso fogão a lenha, para dar um banho escaldante no “Boca Negra” nosso cão de guarda, que disparava desesperado no rumo do aningal; o pobre animal não podia ver ninguém com uma panela na mão que saía de carreira, condicionado pelo efeito psicológico da gratuita agressão.
Por essas e outras ganhou o apelido de Maria “Capeta”, porque todos nós, que dela tínhamos verdadeiro pavor, estávamos convictos que ela tinha parte com o “cramulhão”. De outra forma não seria possível justificar suas atitudes irracionais, agressivas, o jeito diabólico e o olhar acúleo de ofídio com que encarava as pessoas, sem nunca sorrir ou demonstrar qualquer sentimento de afeto ou gratidão por aquilo que recebia.
Às vezes se internava no mato, andando descalça por cima das palmas de juquirí um dos mais dolorosos espinhos que conheço, e de lá só saía quando meu pai conseguia encontrá-la. Éramos todos bem pequenos e não tínhamos como opinar para que a nefanda figura fosse excluída de nosso convívio.
O destino, porém, incumbiu-se desse mister. Ena, minha irmã mais jovem (e já falecida) era a nossa caçula, com aproximadamente dois anos e por óbvio, não falava, não andava, vivendo entre o colo e o berço. Porém, de quando em vez, despertava gritando desesperada e tinha fortes crises de pranto. Trocavam a fralda para verificar se havia vestígio de picada de inseto. Nada! A única coisa estranha era uma vermelhidão na pele do braço ou da perna, igual queimadura de sol. Coincidentemente nessas oportunidades, a Maria Capeta (f.d.p…) estava sempre por perto e, resmungando dizia não saber informar a respeito.
Um dia minha mãe desconfiou e resolveu ficar de tocaia, observando. Era uma hora da tarde, o café acabara de sair da chocolateira e cheirava convidativo. O bebê dormia tranqüilamente em seu berço. De repente, entra no quarto furtivamente a odiosa criatura segurando uma xícara fumegante da bebida e ato contínuo, encostou-a no braço da criança indefesa, que acordou aos gritos, assim ficando justificado o porquê da mancha rubra na pele delicada.
Sem poder controlar a justa ira, minha mãe entrou em cena, verberando de forma incisiva contra aquele procedimento irracional e desumano e foi a próxima a ser agredida. Papai ouviu o qüiproquó, interferiu em defesa dos seus e Maria Capeta correu até a cozinha em busca do terçado para terminar o serviço. Deu azar. Foi alcançada no fim da varanda, e após imobilizada, foi-lhe ordenado que arrumasse a trouxa pois seria de imediato devolvida ao juiz.
Em plena viagem, já atravessando o rio Amazonas (que pela sua profusão de águas fundas e perigosas é chamado de Rio Mar) pulou no meio da corrente encrespada, obrigando meu pai a um esforço sobre humano para resgatá-la e amarrá-la no convés da embarcação até completar a travessia. Foi passando para o xadrez e de lá deportada para Manaus, com mandado judicial para ser internada em manicômio judiciário. Só Deus sabe que fim levou.
Se tinha ou não parte com o “tisnado” ninguém nunca arriscou afirmar. Nem mesmo é possível jurar se esse tipo de relação espúria é capaz de existir. Entretanto, de uma coisa estou absolutamente convicto. Algum ente maligno, daqueles que habitam o terceiro subsolo do inferno, tinha alguma influência deletéria sobre aquela infeliz criatura, de temperamento sádico, violento e descontrolado. De todos os incontáveis desatinos que protagonizou no breve tempo que esteve conosco na fazenda, só não a vi mesmo foi rasgar dinheiro, para o que, a bem da verdade, nunca deu a mínima importância.
– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
* Advogado, é membro da Academia Paraense de Jornalismo. Formado em Metodologia do Ensino Superior pelo CESEP (atual UNAMA) e Relações Humanas e Públicas pelo BGB Belém/PA. Escreve regularmente neste blog.