Jeso Carneiro

O assassinato de Jéssica e Mauro – II

Foto: Sávio Carneiro
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Ilha do Amor: palco do assassinato de Mauro e Jéssica

por Apolinário (*)

As praias brancas se destacavam pelo contorno verde da floresta, pelo o azul das águas do angelical rio tapajós e céu brilhante pela força majestosa dos raios de um sol que naquele momento parecia mais quente e agressivo que de outros dias.

O vento escasso era percebido somente pelas reviravoltas que fazia no desenho do sereno banzeiro. Como se fossem de concreto, as árvores da praia da ilha do Amor não se movimentavam. As pessoas reclamavam do calor. Até mesmo as que estavam molhadas. Frequentemente, o silêncio era rompido quando a banana aquática puxada por uma lancha fazia os seus ocupantes gritarem de alegria.

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Crianças correndo, brincando de pira cola, mulheres bonitas desfilando com suas bolsas gigantes, cangas, biquínis, pernas, bundas e cabelos. Jovens, adultos e coroas formavam a clientela que ocupava as mesas das barracas que proporcionavam sombra, com água mineral, cerveja, tira gosto e peixe assado na brasa.

Em uma das barracas, o volume do som do rádio (94 FM) era mais alto e tocava uma canção que dizia: “É o amor/Que mexe com a minha cabeça/ E me deixa assim/ Que faz lembrar de você e esquecer de mim/Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver….”

E na melodia do cantar dos pássaros (bigodeiro, papa capim, rolinha, tesoureiro e xexeuzinho) uma tristeza inquieta sobrevoava a ilha de uma ponta a outra. Esses pássaros geralmente vão as praias para comer as sobras deixadas pelos humanos – farinha, arroz, carne, peixe, frango, queijo, azeitona, pão, bolacha, vinagrete, vomito de bêbados e fraldas descartáveis com coco de crianças.

Jessica e Mauro mergulharam nas águas, brincaram na areia, passearam na banana aquática e no caiaque. Caminharam várias vezes do começo ao fim da ilha até por volta de 16h20. Não comeram nada, mas beberam um refrigerante e várias garrafinhas de água mineral.

Foi exatamente quando decidiram subir a serra para olhar tudo lá de cima. Mauro ainda lembrou a Jéssica deveria estar em Santarém para participar de um compromisso que tinha na igreja Matriz. Mas Jessica conseguiu convencê-lo a ficar, e subir a serra com ela.

– Já imaginou: nós vamos perder a melhor parte. Estamos aqui, compromissos na igreja iguais a esse você vai ter vários, subir a serra comigo poderá ser a primeira e última vez. Sabe lá quando a gente vai se vê de novo?

– A questão não é essa. Eu nunca faltei em um compromisso por motivo de praia ou coisa parecida. Você me hipnotizou, não acredito que estou aqui.
– Nossa, agora estou me sentindo culpada. Você é sempre assim preocupado? Relaxa um pouco. Divirta-se. Depois você conserta os erros.
– Tá tudo bem, agora é tarde. Já perdi pro tempo. Vamos lá.

Durante esse diálogo, Jéssica e Mauro iam se aproximando da última barraca, que fica perto da boca de entrada da estreita estrada que vai ate o pé da serra. Do pé da serra até o topo, o caminho é mais estreito ainda, no máximo 30 cm de largura, com curvas, pedras, buracos, ratos e sapos, fora uns trechos escorregadios, que fazem dessa parte da subida, a mais sofrida e arriscada da viagem. Duas coisas você diz quando chega lá em cima e olha para baixo. A primeira: “Que lindo!”. A segunda: “O que estou fazendo aqui!”.

Lá em cima, uma cruz feita de tubos de ferro, um banco quebrado, uma área pequena suja, sem parapeito e nem um tipo de cuidado que demonstre respeito ou segurança pelas pessoas que queiram fotografar lá de cima.

Sem o mínimo de segurança no caminho, qualquer grupo de bandidos fica bem à vontade para assaltar, estuprar e matar qualquer visitante que demonstre fragilidade. A floresta camufla, nem um trecho da estrada oferece acomodação para transar, dormir ou descansar. O lugar é seco, quente e cheio de cobra cascavel.

Jéssica e Mauro chegaram na boca da estrada já por volta das 17h40, mas resolveram voltar, pois havia um grupo de cinco micróbios (hippies que não trabalham com artesanato, sobrevivem alternativamente).

Eles estavam voltando da serra com um semblante assustado e ameaçador. Passaram por Jéssica e Mauro no sentido contrário como se estivessem apressados para chegar à ponta da ilha. Mauro sugeriu a Jéssica que voltassem para a segunda barraca, e dessem um tempo enquanto os micróbios passavam.

Depois voltaram e entraram na estrada. Os micróbios deram um balão na ponta da ilha e retornaram também para estrada. Com aproximadamente 800 metros de caminhada estrada adentro, tirados provavelmente entre 15 a 20 min. Jessica se sentiu incomodada com o biquíni molhado por baixo do short, então pediu parada para tirá-lo e ficar só com o short e ao mesmo tempo aproveitou para fazer xixi.

Por isso, precisou sair da estrada para uma área aparentemente limpa e coberta por galhos e cipós, enquanto Mauro a esperava à beira da estrada. Foi quando os micróbios chegaram e disseram:

– E aí, playboy, cadê a gatinha?

Obs.: no próximo episódio, você vai saber como Jéssica e Mauro foram mortos e com quais ferramentas. E mais: tudo sobre a incompetência da perícia e a evolução das investigações da equipe policial do delegado Silvio Birro.

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* Santareno, é artista plástico e articulista do blog.

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