Jeso Carneiro

O Banco Imobiliário

por Tibério Alloggio (*)

É bom que as pessoas não entendam o funcionamento do nosso sistema bancário e monetário, porque se acontecesse acredito que explodiria uma revolução antes de amanhã de manhã (Henry Ford).

Passeando pelo shopping center na tarde de um domingo desses, fui surpreendido por minha filha caçula (6 anos) que, ao parar em frente de uma vitrine, disparou: “Que lindo, pai! Compra para mim?”.

O objeto, por sinal, caríssimo, e sem nenhuma utilidade para uma menina de sua idade, me levou a tentar driblar o pedido na maneira mais fácil, e respondi: “Querida, não vai dar, não tenho dinheiro”.

“Como assim pai?”, retrucou. “Não tem dinheiro? Pega no banco, ora!”

Essa episódio, deve ocorrer à toda hora, com todos os pais do mundo. Mas, devo confessar que fiquei perturbado com a rapidez do raciocínio de uma menina de apenas 6 anos.

Mais tarde, refletindo com calma, pensando sobre as repetidas crises econômicas que estão sacudindo o mundo, já não achava nada demais na atitude de minha filha. Afinal, a nossa ideia de riqueza é o dinheiro, e isso acaba sendo repassado (quase que geneticamente) de geração em geração.

Infelizmente, a ideia de riqueza que cultivamos ainda fica prisoneira à imagem romântica de um enorme cofre cheio de notas e moedas (um tesouro) com um Tio Patinha tacanho, sentado em cima dela.

Mas hoje, a verdadeira riqueza passa longe do romantismo, e consiste basicamente na capacidade de poder criar dinheiro a partir do nada.

Poxa, que maravilha!, pensará o leitor. Então podemos criar notas de dinheiro na nossa própria casa, certo? Errado! Na nossa própria casa não pode! O sistema não permite… a não ser que a nossa casa seja uma companhia privada e tenha o “gabarito” de uma instituição financeira. Ou seja, um banco! Se o caso for esse, aí sim, pode “imprimir” mais cédulas do que todos os falsários do mundo inteiro.

“Imprimir” entre aspas, pois na realidade de hoje apenas 3% do dinheiro em circulação é físico, o resto é virtual e ocorre pela via informática.

As últimas estimativas dizem que 97% de todo o dinheiro em circulação não existe. Ou melhor, existe apenas virtualmente, não fisicamente. E o mais importante, não é criado pelo Estado, a maioria do dinheiro é criado pelos bancos.

Martin Wolf, especialista membro da comissão independente acerca do setor bancário, declarou nas páginas do Financial Times: “A essência do sistema monetário é a criação de moeda, do nada, com os empréstimos muitas vezes absurdos, concedidos pelos bancos privados”.

O sistema funciona mais o menos assim: vamos ao banco e pedimos um empréstimo. O banco pede garantias que nunca temos, mas temos nosso salário. Serve? Sim serve.

Nessa altura, o banco deveria “verificar” se tem esse dinheiro no cofre e caso positivo dizer “Sim, temos o dinheiro, eis o seu empréstimo”.

Esse seria o procedimento num mundo normal, mas no mundo financeiro as coisas não funcionam assim. Os bancos nem sabem o que tem, ou o que não tem. Logo digitam o valor e pronto, o dinheiro já está na conta!

Todos os bancos fazem isso. Resultado? Uma maré de dinheiro criado a partir do nada. Um oceano de moeda em circulação. Moeda virtual, que pula de conta em conta, inflacionando a emissão da mesma moeda.

Alguém compra uma casa com dinheiro físico? Ninguém. A casa fica (cada vez) mais cara. E para sua compra é preciso de (cada vez) mais dinheiro. O que significa (cada vez) mais empréstimos. E o jogo recomeça. Com uma dívida cada vez maior, que não poderá ser paga. Isso chama-se de “bolha”.

Mas como, questionará o leitor, não há limites legais? Não há leis? Não há!

As leis acerca da criação do dinheiro nunca foram atualizadas, e nunca chegaram a abranger o dinheiro eletrônico.

A grande parte dos pagamentos são feitos hoje com dinheiro eletrônico, criado pelos bancos. A criação de dinheiro acabou privatizada e os Estados ficaram omissos.

Enquanto os falsários arriscam-se para criar e vender 2,5 biliões de dólares a cada ano, os bancos criam e vendem mais de 100.000 bilhões no mesmo período, sem violar a lei. Porque não existe uma lei.

O valor de todas as coisas presentes no planeta Terra não passa do 10% do dinheiro, títulos e valores mobiliares e imobiliares. Em outras palavras: 90% da suposta riqueza não existe, é papel.

A realidade é que nossas casas valem um quarto, as ações das empresas um décimo, e os títulos públicos podem até não valer nada e nem serem reembolsados.

Pilhas de dividas públicas, derivativos, moedas sem valores, alimentadas constantemente por um sistema sem ideias e nem futuro. Um sistema maluco, fora de controle. Um jogo: o Banco Imobiliário da vida real.

Querem imprimir cédulas e vender dívidas para toda a eternidade.

O que ganham os bancos? Interesses, juros.

O que ganhamos nós? Uma vida de dívidas.

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* É sociólogo. Reside em Santarém e escreve regularmente neste blog.

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