por Madson Luiz Moda (*)
Em um espaço de tempo inferior a um mês, percebeu-se o laurel de honra dos altares – a nível de beatos – de duas figuras iconológicas dentro da História do Catolicismo Romano, no desfraldar do século XX, e que, a nível de cultura representativamente, demonstram aspectos tão peculiares que, mesmo à sombra de um mesmo processo de beatificação, imputam-lhe relativa distância.
A primeira grande figura do caso: a do Arcebispo de Cracóvia, Carol Wojtyla, que chegou ao sumo pontificado sob a égide de João Paulo II, onde demonstra certas razões curiosas à beatificação, ainda que em menos de dez anos, mas suficientemente muito fortes, a saber: a primeira grande reforma nos rituais de exorcismo fora protagonizada pela então figura de Bento XIV (Prospero Lorenzo Lambertini), também papa, reputado por figuras como o jesuíta Oscar Gonzales Quevedo como a maior autoridade parapsicológica da História, no que, a segunda grande reforma desses mesmos rituais dá-se no pontificado de João Paulo II, alguém que, já com a chancela de autoridade para certos processos já esboçados, ainda acrescenta aos conhecidos mistérios do terço, além dos já afamados (mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos), mais um conjunto de mistérios (mistérios luminosos).
A segunda grande figura é a de Ir. Dulce que, em termos de louvífico empreendimento, significou ser fruto da proeza conjunta de um grupo maciço de famílias (entenda-se, mormente, mães de família. Já que eram as que mais davam o bom ar da graça em praticamente tudo).
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A bem-aventurada freira carregava no então evento a importância de mobilização do tecido social presente, tentando enquanto processo, superar todos os contextos, e imprimir uma atitude de enfrentamento sob os auspícios de uma ação fraternal vivida abnegadamente no Espírito Santo. Porque, é bom que se frise, se esse dito fragor do Paráclito não fosse absorvido e captado em momentos fortes da vida religiosa, certamente pouco poder-se-ia esperar para uma beatificação.
Tal proeza sequer fora mesmo vivida por uma figura emblemática na História Pastoral e missionária dessas mesmas plagas, no caso, Dom Helder Câmara, no que, mediante os persecutórios descréditos que a ele foram reservados (ou impingidos), ficou sendo conhecido nos anais informais da História Tupiniquim como “O Cardeal Vermelho”.
Posto isso, o que bem se depreende é um prisma de viés tradicional no véu que envolve a figura, já beatífica, de João Paulo II, tanto é que hoje uma das figuras mais tradicionais em relação á própria cultura do mundo, Papa Bento XVI, com seus tantos livros publicados e títulos de Doutor “Honoris Causa” conquistados, fora, na época do pontificado de Wojtyla, uma espécie do braço direito do polonês, enquanto chefe da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sob o dístico de Cardeal Joseph Ratzinger.
Noutrossim, depreende-se, em relação à Ir. Dulce um prisma de viés progressista, havido do clamor popular de um recortado grupo do “terceiro mundo” que lhe testemunha o enfrentamento de quadros sociais de miséria e abandono social com intervenções estratégicas à sombra do molde do espírito caritativo de base vaticana.
Em um esboço rústico de similitude, as duas figuras tipificariam um processo de identidade com almas cristãs, até mundiais, prementes de elementos ideológicos que esteiassem suas sedes de ideais, tudo isso em uma conciliação carismática, enquanto figuras históricas próprias de um ranço weberiano. Sustentados, mesmo, pelo passionalismo de tempero pop, próprio da massa cristã do século XX.
A questão é que sendo partes pentencentes a estruturas culturais um tanto quanto diversas, mas não opostas, a beata freira toma, com todos os estertores próprios, a silhueta social de um Brasil (e uma América Latina) não superado, não cicatrizado, não corrigido, e o beato polonês conflui de forma convergente todo um abarcamento do que boa parte da cultura consolidada no século XX ainda adviria a absorver do século XXI e influenciar tal século no substrato de toda uma ocidentalidade.
Nesse jogo de grandes chances e ótimas brechas, questiona-se o fato de José de Anchieta não ter ultrapassado ou caminhado para além de seu processo de beatificação desde o século XVII, onde ficara estacado. Logo ele que é considerado o Taumaturgo do Brasil. Nenhum outro, na cultura religiosa brasileira, ombreou-se a ele com semelhante título desde a beatificação!!!
Louvada seja a Trindade Santa !!!
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* Santareno, é sociólogo filomata.