Jeso Carneiro

O Brasil que celebra tempos escuros

por Joaquim Onésimo F. Barbosa (*)

O que leva gente de um País que passou um dos piores tempos de sua história, sob ferro e fogo, limitado pelos mandatários militares, que surrupiaram direitos e dividiram a sociedade entre os muitos sem nada, miseráveis, alijados de direitos e de liberdade, e outros poucos, ricos, fartos de poderes e aninhados nos rincões da República?

O mesmo Brasil que acobertou a mesquinharia de Roberto Marinho, este que dava jantares de gala aos chefões militares para, deles, receber os afagos e concessões, para implantarem uma ideologia que hoje se enlameia em mentiras, destrói laços de família – a família ideal para os noveleiros e, certamente, para os bilionários Marinhos, é aquela esfacelada pela traição, pela discórdia, pelos males que é o retrato da sociedade, mas que não precisa (ou precisa?) de afagos, pois inverte valores que muitos, dos que hoje apregoam a volta da ditadura, balizam como estruturas morais para o bem social.

O que leva gente que foi eleita pelo povo, como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, e outros que se dizem estandartes de guarda da Democracia, como Marina Silva, Silas Malafaia, Rachel Sheherazade,etc… etc… a defender a volta da um regime que massacrou nossa liberdade?

O Brasil que defendem esses que citei e tantos outros de cujo nome não me lembro merece realmente voltar ao período duro, se massacre, de impedimentos?

As famílias brasileiras são realmente carentes de um ordem militar, que poupa poucos e massacra milhares?

Se levarmos em conta o apoio dos que organizaram a chamada “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, sim. O Brasil é carente da outras tantas décadas de amordaçamento.

Há, sim, males que precisam ser extirpados da sociedade: a corrupção, a quem se entregam os poderes, pelo mau uso do dinheiro pago mediante os altos impostos, que enriquece poucos, safados, aéticos, desprovidos de qualquer senso democrático.

Mas, muitos dos que desviam bilhões dos cofres públicos são indicações dos que foram eleitos – ou são os que foram eleitos – pelo voto democrático. Não estão lá por méritos, mas pela ignorância de muitos, que votam sem conhecer a história social dos rolezeiros que aparecem a cada quatro anos, com bons discursos, fazendo-se defensores do povo, para conquistar, um a um, votos e, assim, chegarem ao poder onde mana leite e mel.

Há, sim males que precisam ser varridos da Nação: a falta de investimento na saúde, na educação, na infraestrutura, no lazer, na promoção da paz social.

Não se pode fechar os olhos para um País que investe em outros países bilhões, e deixa os seus desprovidos de benefícios que deveriam ter por aqui.

Não se pode calar diante de atrocidade de policiais, que deveriam defender o cidadão de bem, mas que agem como verdadeiros carrascos, arrastando pobres indefesos pelas ruas, como se fossem seus troféus de guerra, como agiam os da época hoje apregoada e idolatrada por alguns viúvos e desnutridos.

Não se pode fechar os olhos aos desmandos dos que usam do poder para o bem próprio, quando deveriam agir em defesa do cidadão: altos salários, bens adquiridos através de meios fraudulentos são regalias de poucos, enquanto milhares mendigam.

Não se pode fechar os olhos num País onde juízes se juntam a toda espécie de gente, em troca de benefícios, dos holofotes, de autógrafos, como se não estivessem onde estão para promoverem, com imparcialidade, a Justiça, hoje tão banalizada.

Mas também não se pode deixar que um punhado de gente defenda a volta de um período que não acrescentou um centavo ao bolso dos pobres – pelo contrário, tirou milhares de centavos para engordar os barões da mídia e das grandes empresas que financiaram a ditatura no Brasil.

O Brasil que saiu às ruas na propalada “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade” celebra e deseja a volta de um regime grosso, cafajeste, sanguinário, que oprimiu, matou e amordaçou quem lutou, sem ver concretizado o que permitiu que esses que hoje saem às ruas para “celebrar” o que não merece um risco na nossa memória, a não ser lembranças duras, crueis e marcadas por dores, perdas e silêncio de muitos inocentes.

Defender a família é defender princípios fundamentais, como a Ordem, a Justiça, a Liberdade, a Ética, os Direitos ao direito de poder usufruir daquilo que pagamos sem receber.

Defender a Família é primar por aquilo que conquistamos às duras penas, com lágrimas e sangue de muitos, e protegê-la dos inimigos invisíveis.

Defender a Família é defender todos os princípios legais, que regem uma Nação e que permitem a livre expressão, os manifestos ordeiros e de direito.

Não será aplaudindo um regime que amordaçou, castigou, jogou nos calabouços centenas e matou outras centenas em nome da ordem que teremos um País de família.

Não será homenageando os que usaram e abusaram do poder, para meios próprios, que se fará da Família o alicerce social.

Ao bem de muitos, dos líderes religiosos que encabeçaram a “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, dos representantes do povo, que eleitos democraticamente, desdenham da liberdade, deveria haver uma Marcha pela proteção da Nação, pela busca da dignidade, pela defesa da ética e do amor, pela unidade das etnias, pela defesa das minorias, pela igualdade entre todos.

A quem acha que amordaçar a Nação, clamar pela ditadura, selar um pacto pelo silêncio da Democracia é guardar a Família, que tal uma Marcha em defesa da Verdade?

Defender a Verdade é defender a Liberdade, é proteger a Família. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará…”.

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* Santareno, é professor e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.

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