Jeso Carneiro

O caso da mulher de branco

por Célio Simões (*)

Costumo dizer que meu pai levou uma vida que não foi além de sua própria realização pessoal. Muito cedo deixou o convívio familiar na fazenda São José, nos ermos do Paraná de Dona Rosa e veio estudar o primário em Óbidos, na Escola do Professor Marcos Nunes e depois em Belém, como interno no centenário Colégio do Carmo.

Meu avô, o Capitão João Anastácio de Souza, cearense de Sobral, que a exemplo de seus conterrâneos veio para a Amazônia atraído pela exploração da borracha, saiu-se bem nessa aventura e se não fez fortuna, era abastado o suficiente para manter todos os filhos estudando em regime de internato nas melhores escolas da Capital, proeza para poucos naqueles anos recuados.

No Carmo, que reunia a rapaziada da capital e do interior, meu pai destacou-se nos estudos e nos esportes. Era o goleiro do time e brilhava nos memoráveis embates com o Colégio Nazaré, reduto dos abastados jovens metropolitanos, instituições que cultivavam aberto antagonismo cultural e esportivo.

Todo mundo sabia que a disputa transcendia a um simples jogo de futebol. A cada prélio estava em avaliação a eficácia de maristas contra salesianos; do interior contra a capital; dos “ricos” contra os “pobres”. Daí que uma briga de vez em quando não era nenhuma surpresa e o velho também encarava, tirando vantagem dos seus 1,84 de altura, quase 90 quilos de peso, cheio de saúde e acostumado ao rústico labor na fazenda.

Um de seus grandes amigos no internato, o mais tarde governador e senador Catete Pinheiro, filho ilustre de Monte Alegre, apelidou-o de “caminhão”, pela força física aliada aos olhos graúdos e atentos.

Do Carmo saiu ele direto para o Exército, onde passou um ano no 26.º Batalhão de Caçadores (atual Infantaria de Selva), ficando nesse interregno como hóspede de seu padrinho, o abastado português Joaquim Coelho, o “Jabuti”, cujo imenso chalé próximo ao Curro Velho, a especulação imobiliária fez desaparecer para dar lugar a mais um espigão amorfo, desses que surgem todo dia em Belém.

Com a baixa do serviço militar, iniciou seus estudos de contabilidade na Fênix Caixeiral Paraense, ali próximo da Praça da Bandeira, outro ponto de referência da cidade arrasado pelo desamor à Capital.

Quase concluído o curso, veio o convite para trabalhar na mais conceituada empresa daquela Belém dos anos trinta, a Ferreira Gomes Ferragistas, convite que nem chegou a ser aceito. Com a morte de minha avó Maria em outubro de 1930, veio do Lago Grande, de forma irretorquível, a ordem para o retorno. A lida na fazenda reclamava a colaboração de todos os homens da família, sem exceção. O retrocesso social e cultural era palpável, porém meu velho o encarou com estoicismo, arrumou a trouxa e após uma década morando em Belém, tomou o caminho de volta.

Inicialmente ocupou-se da faina típica das fazendas de gado formadas na várzea, onde o trabalho é diuturno e a luta se revela perene entre a exuberância do verão e a tragédia das enchentes, nas quais o gado definha e morre, reduzindo as marombas a toscos palcos vigiados por insaciáveis urubus.

Não foi preciso muito tempo para convencê-lo da necessidade de alterar aquela rotina insana, fazer alguma coisa que não dependesse exclusivamente dos humores do tempo; ou se de outra forma não fosse possível, que a rotina do recomeço ocorresse próximo à cidade e não naquele longínquo Lago Grande, aonde somente se chegava de canoa a remo ou vela após dias de viagem.

Visitou a Costa Fronteira de Óbidos e acostumado às pradarias do Igarapé das Fazendas, fez um vaticínio enganoso. Afirmou que jamais se estabeleceria ali, “nem que fosse para contar dinheiro”, esquecendo momentaneamente as voltas que a vida dá.

Tomou o rumo de Juruti. Abriu casa de comércio típica do interior, onde de tudo se vendia, porque nesses locais de tudo se precisava. E ia tocando a vida, aproveitando os finais de semana para distrair-se com os jogos do Brasil Novo, um time de futebol que fundara e reunia a rapaziada local (o nome foi influência direta do “Estado Novo”, de Getúlio Vargas).

Na terra do tribódromo encontrou acolhedora amizade de primos distantes, que eram seus parceiros prediletos nas festas, nos namoros e nas serestas feitas nas noites de lua cheia, sem compromisso com o tempo, varando a madrugada.
Meu pai morava só numa estalagem e dele tomava conta, no que diz respeito à limpeza do quarto e lavagem da roupa, uma jovem alta, cabelos escuros e compridos, simpática, morena e atraente, que nos dias de serviço aparecia quase sempre vestida de branco.

Seria o que hoje o Direito do Trabalho conceitua como “diarista”. Apesar do tratamento cordial, quase afetivo, ambos mantinham conveniente distância, porque naquela época as moças no interior que ficassem “faladas” caiam em verdadeira desgraça perante a comunidade em que viviam, a começar pela própria família. Os namoros mais apimentados, em decorrência, ocorriam no universo mais amplo e concessório das festas profanas do subúrbio, rendendo saldo para vários meses, até que uma outra viesse ocupar lugar no coração do jovem conquistador.

Se a coisa aconteceu não foi por falta de aviso. Vários amigos já o haviam advertido que em Juruti ocorriam certas aparições que ninguém explicava, geralmente a desoras, quando a madrugada já ia alta, a pessoa estava sozinha e a lua passeava no céu com sua costumeira lenteza. Havia também os inevitáveis fadistas, que se transmudavam em porco ou cavalo nas noites de quinta para sexta-feira e no dia seguinte apareciam para trabalhar exibindo equimoses, produto das pauladas que levavam daqueles que pretendiam atacar.

A praça da matriz, avisavam, era um lugar proibido para se transitar depois da meia-noite. A verdade é que meu pai, homem corajoso, rijo parece sararaca e descrente dessas sandices, nunca deu muita importância a tais lucubrações debitando-as ao imaginário popular. Quiçá o fascínio pelo extraordinário, pelo desconhecido, nele produzisse aquele sentimento de desafio contra a imaginação coletiva, uma espécie de combate ao culto da escatologia. Se soubesse o que ia acontecer, teria reconsiderado seus conceitos.

Violonista de elogiada versatilidade, naquela noite de sexta-feira foi um dos últimos a sair da improvisada tertúlia na casa de um amigo. Despediu-se, deixou o violão para apanhar no dia seguinte, ouviu os agradecimentos de praxe e ganhando a rua, respirou o ar balsâmico da madrugada, recebendo no corpo um banho do mais autêntico e fascinante luar de Agosto.

Vinha cantarolando o seresteiro, as últimas músicas que tocara na improvisada recepção, sem se dar conta que se aproximava da praça da matriz, o dito local tido como palco das indesejadas aparições, fato comum em cidades do interior do Brasil. Porém, para encurtar o caminho, resolveu atravessa-la. Já ultrapassara mais da metade do monumental espaço quando viu sentada em um dos bancos de madeira uma jovem morena e alta, cabelos escuros e compridos, toda vestida de branco.

Dada a semelhança, de plano foi levado a imaginar tratar-se de sua “diarista”, porém não era possível vislumbrar-lhe o rosto, porque à medida que se aproximava, ela ia girando discretamente o corpo, no propósito de esquivar-se da visão frontal daquele intruso, o cabelo em cascata sempre lhe encobrindo a face. Assim continuou até que, distante apenas um metro daquela inesperada figura feminina, pronunciou a frase que soou como se fora um ultimato: – Queres me assustar? Acompanhado do instintivo e amistoso gesto de tocar-lhe o ombro com a mão direita.

No mesmo instante que a tocou, meu pai levou como se fosse um choque elétrico de alta voltagem e foi impulsionado para trás, ao tempo em que a mulher de branco evaporou-se por completo bem à sua frente. Tentou esboçar uma reação, preparando-se para o confronto. Com quem? A praça permanecia vazia e silente, na mais profunda paz, dormitando em sua morna quietude, alheia ao drama ocorrido em suas próprias dependências.

Face ao episódio repentino e aterrador, inexplicável do ponto de vista do conhecimento humano, foi forçoso admitir o óbvio – a crença na vida post-mortem, nos fenômenos de ordem sobrenaturais, ainda que manifestados por algum tipo de alucinação. Sem maiores escrúpulos, o intrépido ex-soldado, acostumado aos desafios da vida na floresta, admitiu que estava com medo!

Conseguiu chegar a casa e sequer pôde trabalhar no dia seguinte, tal a moleza que lhe afetou o corpo. Consultada, a diarista esclareceu que nem saíra na véspera, porque não tinha costume de perambular de madrugada pela cidade. Ademais, era crente, não freqüentava festas e por costume se recolhia cedo. Convencido da procedência dos avisos que recebera dos antigos moradores e amigos, meu pai deixou Juruti pouco tempo depois, passando a morar em Óbidos, onde conheceu minha mãe, com quem se casou no ano de 1944.

A fazenda Capela, por ele adquirida para a criação de gado, fica justamente na Costa Fronteira, aquela várzea que meu pai um dia viu e abominou, jurando solenemente que lá não se estabeleceria “nem para contar dinheiro”. Ficou ali por trinta anos, até sua morte em janeiro de 1975. Do grotesco que essa história revela, Wolfgang Kayser diria que “ele aparece sempre onde falta ao homem uma orientação segura com relação à vida, sendo quase sempre a manifestação de uma angústia pessoal”.

Será? Teorias à parte, o episódio aqui narrado serve ao propósito de evidenciar que nos mundos distanciados, como o interior do Pará, esse mesmo grotesco invariavelmente tem estreita afinação com o exótico, e principalmente com o estranho e o inexplicável.

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(*) Advogado e cronista. Fundador e ex-Presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos. Membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.

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