por Joaquim Onésimo F. Barbosa (*)
Segundo ele, o livro, embora tenha contribuído para a revolução do mundo moderno, passa a ser visto, num mundo cada vez mais dependente dos meios rápidos e práticos, mediado pela inovação tecnológica dinâmica, como um instrumento ultrapassado, cadavérico, se não inútil, haja vista seu modo de produção lento e o custo que encarece seu acesso à população e, certifica que, mantendo o preço às alturas, o livro poderia tornar-se um objeto de luxo, guardado em antiquários, posse de uma clientela seleta.
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Em terra de Gil e Buarque, Valeska é “pensadora”.
Antes de Febvre, o filósofo Walter BENJAMIN (1978), em 1929, vaticinara também que o livro, na sua forma tradicional, estaria com os dias contados, pois, cada vez mais, diante de uma sociedade sedenta por meios mais práticos e modernos, os impressos tornavam-se obsoletos.
De acordo com o filósofo, “[…] novos sistemas, com formas de escritura mais versáteis, se farão cada vez mais necessários. Eles substituirão a maleabilidade da mão pela nervosidade própria dos dedos que operam comandos.”
Os ditos de Benjamin se confirmaram. Hoje, muitos dos impressos deixaram de ser editados em papel e aparecem hoje somente em meio digital.
O livro, no formato que o conhecemos, e como o denominamos, nada mais é do que o modelo do códice(codex) cristão, escritos em pergaminhos, cortados em pedaços, costurados e, comumente, encapados, que os cristãos elegeram, a partir do século IV, como formato adequado para as sagradas escrituras, de modo que as diferenciasse dos escritos pagãos.
Livro (liber) tinha conotação mais genérica e designava qualquer dispositivo de fixação do pensamento, seja ele a inscrição em pedra ou madeira, a tabuleta de cera, o rolo de pergaminho etc., com o passar do tempo, livro passa a designar o códice e, então, não se tem um termo para designar qualquer outro tipo de fixação de pensamento.
Hoje, não há como falarmos em livro e não o relacionarmos ao escrito, ao formado em páginas traçadas, embora em tempos anteriores ele tenha tido outros formatos, só para citar um exemplo, a própria Bíblia destaca que Moisés apresentou os Mandamentos em pedaços de pedra. Nem sempre quem o escrevia era o seu autor; ele apenas ditava, para que outro – o escriba – traduzisse por escrito.
Na Idade Média, a escrita do livro era uma profissão laboriosa, e escrevê-lo era uma forma de estudá-lo ou modificá-lo, quando se discordava dele.
Lebvre designa o livro como “o instrumento mais poderoso de que pode dispor uma civilização para concentrar o pensamento disperso de seus representantes e conferir-lhe toda a eficácia, difundindo-o rapidamente no tecido social, com um mínimo de custos e de dificuldades.
Sua função primordial é ”conferir [ao pensamento]um vigor centuplicado, uma coerência completamente nova e, por isso mesmo, um poder incomparável de penetração e de irradiação”.
Assim como os livros impressos, o futuro da mídia audiovisual – a televisão – parece ser incerto. A internet começa – ou já é – a pedra no sapato dos donos de canais de televisão.
Pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), feita pelo Ibope, divulgada em março, apontou que mais de 60% dos entrevistados preferem buscar notícias na internet a se informar pela televisão.
Eles passam mais tempo navegando na internet do que assistindo à tevê. Também, para os entrevistados, a televisão não cumpre o seu papel de ser um meio de transmissão da notícia pela notícia, mas constitui-se como um canal de desvirtuação da verdade, ou seja, a televisão é mentirosa.
Ainda, de acordo com a pesquisa, 3% dos entrevistados não assistem nunca à televisão – mesmo eu não sendo um dos entrevistados, incluo-me entre eles; as revistas são lidas por apenas 1% dos entrevistados, o mesmo índice dos que leem jornal. Isso mostra que os impressos agonizam diante da expansão da internet.
A morte da televisão parece ser certa, embora não se saiba quando isso acontecerá. Mas, pelos índices de audiência do maior canal de televisão brasileiro, a Rede Globo, de fato os brasileiros tendem a gastar seu tempo mais na internet do que ficar diante da televisão.
Nos últimos cinco anos, o índice de audiência da rede Globo caiu aproximadamente 40%. O Jornal Nacional, um dos termômetros de audiência dos Marinhos, amarga os 20 pontos de audiência, para quem já teve 60% em outros tempos; época em que se ouvia a vinheta “Vem aí mais um campeão de audiência”.
O Fantástico é outro que sofre com a fuga dos telespectadores. Vira e mexe estão fazendo mudanças, para tentar salvar o emprego de Tadeu Schmidt e Renata Vasconcelos, mas parece que as estratégias dos globais não têm surtido o efeito desejado. É a prova de que a televisão está na UTI e respira com ajuda de aparelhos – entenda-se aparelhos a verba bilionária que o governo injeta nos canais que existem no País.
Talvez por perceber que é iminente a sua queda, que os donos de televisão têm apoiado os que ditam regras que massacram os que um dia deram audiência e altas somas ao barões da mídia.
Em outros tempos, o povo, pobre, sem recursos para viajar ou ter computador e internet em casa, era obrigado a engolir as “verdades” que os donos do pedaço fatiavam e jogavam nos seus telejornais ou nos seus impressos.
Os últimos dez anos – discorde quem quiser – foram os anos em que o poder aquisitivo do brasileiro melhorou, e mudou de forma que o tornou mais exigente, mais consciente e menos amarrado ao que a televisão, antes, dispunha como verdade.
A entrada do filho do pescador, do lavrador, do encanador, na universidade, a restituição do poder de compra do salário mínimo, as facilidades de aquisição de bens que antes eram privilégios de uma minoria arrogante e preconceituosa, a propagação acelerada da internet são elementos que constroem a ponte que liga o apogeu dos impressos, como os jornais e revistas e da mídia audiovisual – a televisão – e o seu declínio.
O jornalista Paulo Nogueira, que já comandou a que foi a maior revista semanal do País, a revista Veja, diz que houve um tempo que os Civitas tinham que dispensar anunciantes pela falta de espaço nas páginas do semanário. Várias vezes, segundo ele, foram escritos editoriais esclarecendo aos assinantes a grande quantidade de propagandas na revista.
Hoje, a editora Abril, que edita a Veja, começa a cortar gastos, demitir funcionários e vender ou eliminar publicações que já não dão mais lucro.
A era de ouro dos da mídia esfacela-se diante dos seus olhos. A internet parece ser a maior culpada disso tudo.
Não é por acaso que os políticos – muitos deles detêm em seu poder canais de televisão (citem-se Fernando Collor, Jáder Barbalho e outros) – teimam adiar o marco civil da internet. Não é por acaso que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) tem sido o intermediário entre os poderosos da mídia impressa e televisiva e as empresas de telefonia. A revista Istoé publicou uma reportagem dia desses em que desmascara o deputado, apontando a sua ira contra o marco civil da internet.
Mas, como nada é eterno nesta vida – e ainda bem que, pelo menos para os meios que manipulam a informação não o é –, a era da televisão, digital ou não, as revistas e jornais impressos parece estar chegando ao seu fim…
Ainda vai levar um tempo para que eles se tornemvelharia, mas já se sabe que não reinarão mais como antes.
Das tardes de sábado, do Chacrinha, a máxima “Quem não se comunica se trumbica”, soa como profecia, assim como a imagem do Velho de Restelo soava aos portugueses. A morte, para os da grande mídia, Severina, tem nome e chama-se arrogância e mentira. Que assim seja. E os outros severinos agradecem.
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* Santareno, é professor da rede estadual de ensino e universitário. É mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.
