Jeso Carneiro

“Direitona” não é também um rótulo?

Réplica do articulista Evaldo Viana ao sociólogo Válber Almeida, a propósito do post Direitona raivosa e rótulos:

Caro Valber,

Sinto-me honrado pelo seu comentário e por suas opiniões sempre muito claras e coerentes com o seu pensamento e à visão que tens do mundo, que em muitos casos convergem com o meu ponto de vista.

Entretanto, na questão que nos conduziu a esse encontro hoje, devo, evidentemente, deixar bem clara minha respeitosa divergência às suas colocações, pelo menos no tocante aos aspectos centrais e, eventualmente, nos periféricos.

Vamos ao rótulo ‘Petralha’ criado pelo articulista da Veja Reynaldo Azevedo, que designaria aqueles petistas que à época do Mensalão comportavam-se como metralhas, ou seja corruptos que desenvolviam atividades criminosas organizados em bando ou unidos por sólida irmandade.

Não há como negar que o mensalão existiu e que foi idealizado ou promovido ou financiado por petistas em posição de comando e que atuavam à semelhança dos inesquecíveis irmãos metralhas. Por quê então a revolta com o neologismo? Seria porque criação do Reinaldo Azevedo, raivoso direitista desprovido de idéias e movido a ódio concentrado?

Quanto à densidade intelectual do polemista do semanário pouco tenho a dizer, pois sendo uma opinião pessoal sua, que certamente tem uma cultura mais vasta, profunda e profícua do que a dele, seria tolice minha desdizê-lo em questão onde a relatividade é quase absoluta.

Mas você no seu comentário adverte-me para não cair na tentação fácil de usar os rótulos de maneira indiscriminada. Contudo, no seu texto lá está a palavra ‘direita’ e seu derivativo ‘direitona’. Que seria direita? Que é um rótulo sei que é, e dos mais usados nesse blog. Que é pejorativo e nada lisonjeiro também sei, pois nunca ouvi ninguém declarar-se de ‘direita’.

Por exclusão poderíamos definir como sendo um indivíduo ou político ou grupo de direita todos aqueles não alinhados no campo da esquerda.

Então devemos definir, agora não por exclusão, o que vem a ser um indíviduo ou grupo de esquerda.

Vamos começar pelas organizações e políticos que se encontram mais próximos da nossa realidade.

Maria do Carmo, Everaldo Martins, Carlos Martins e todos os demais políticos e filiados ao PT são de esquerda? Se a resposta é afirmativa então a condição para merecer a grife seria apenas estar filiado ao partido dos trabalhadores e nenhuma outra mais? Digamos que sim e também que todos aqueles que estão juntos com o PT, apoiando as suas políticas sociais ou ausência delas, por contigüidade, também passem a ser considerados de esquerda.

Nesse caso teríamos no campo das esquerdas também todos os filiados ao PMDB santareno, com Antônio Rocha e companhia, o PP, o PR, o PSB do pastor Reginaldo Campos e todos os demais 15 ou 20 partidos que gravitam em torno do tesouro municipal, digo, nas adjacências do poder público municipal.

Quem sobraria então para representar a direita? O PSDB santareno – que ninguém sabe ao certo se existe ou se um dia existiu – o DEM do ex-prefeito Lira Maia, o PPS do Taré e, ora sim, ora não, o PMN do médico Nelio Aguiar.

Mas esse não nos parece ser um critério ou uma classificação confiável, porquanto bastaria o sujeito sair do partido listado como de direita e ingressar no seu antípoda que lá seria batizado como esquerdista.

Que outro critério teríamos para pespegar com justiça o rótulo de direita ou de esquerda num sujeito?

Como tanto girondinos e jacobinos opunham-se aos privilégios da nobreza francesa, defendiam os direitos dos trabalhadores e oprimidos e divergiam apenas na intensidade e métodos a utilizar para a promoção da justiça social, então de nada nos servirá remontarmos a França revolucionária para a eleição de um critério objetivo e confiável.

Uma outra equação cogitável para dirimir o problema seria de se considerar de esquerda os adeptos do socialismo e de direita os entusiastas do capitalismo.

Assim seriam de esquerda, para ficar só no medalhões, Mussolini, Fidel Castro, Stalin, Mao Tse Tung, Pol -Pot, etc.

De direita seriam, por exemplo, todos os primeiro-ministros japoneses, os dirigentes franceses, alemães e ingleses e a totidade dos presidentes americanos.

Poderíamos, também, estabelecer o seguinte: é de esquerda o sujeito que luta pela diminuição do coeficiente de desigualdades sociais, pela promoção da justiça social e pela entronização da democracia e vive honestamente às custas do seu trabalho.

Ao revés, de direita seria o sujeito que defende privilégios pessoais e de grupo, abomina a democracia, promove e patrocina a opressão dos trabalhadores e desvalidos, põe-se sistematicamente a roubar o dinheiro do povo a fim de aumentar seu patrimônio e privilégios e, no poder, luta com todas as armas para ocupar ad eternum o posto de mando conquistado.

Com base nesses predicados definidores de esquerdistas ou direitistas, o presidente Lula é de esquerda ou direita? Aqui, não á dúvida: Lula realmente se preocupa com o povo e se incomoda com as desigualdades sociais, é, até que se prove o contrário, pessoalmente honesto e se empenha em promover a justiça social. Quanto a sua estima pela democracia,vê-se que o presidente tem uma concepção muito peculiar do que é um governo do povo, para o povo e com o povo.

E o FHC, é de esquerda ou de direita? O ex-presidente tem uma vasta obra no campo da sociologia onde demonstra profundo conhecimento, ainda que teórico, da problemática social. Foi um parlamentar dedicado ao Brasil e às causas sociais. Foi um bom presidente e fez o que as contingências permitiam para diminuir a pobreza e a promoção de uma vida melhor ao povo brasileiro. Consideradas essas premissas como verdadeiras,para quem dá importância ao rótulo, FHC é tão de esquerda quanto Lula, com a vantagem de ter-se desgarrado do poder com muito mais desprendimento do que o atual presidente.

E a Dilma, é de esquerda ou de direita? Dirão que é de esquerda porque resistiu à ditadura, e, principlamente porque foi ministra do Lula.

E o Serra, é de direita ou de esquerda? Presidente da UNE nos sombrios tempos da ditadura militar, parlamentar exemplar, um grande ministro da Saúde que efetivamentese preocupava com a dor e sofrimento do povo, democrata convicto e contra quem não pesa nenhuma acusação de corrupção. Então é de esquerda?

Agora, você Valber, é de esquerda ou de direita?

E o Reinaldo Azevedo, sob qual fundamento ou argumento poderíamos enquadrá-lo como de direita ? Por que critica o Lula e o PT? Por que defende a candidatura do Serra e a alternância no poder? Por que escreve para a revista Veja? Ou por que usufrui e vive lindamente e em perfeita harmonia com o capitalismo?

Quanto a mim, creio ser um humanista e democrata incorrigível, que tem horror á corrupção e aos privilégios de uns em detrimento da miséria de muitos. Sou de esquerda ou de direita?

Já quanto à acusação que você faz ao Aécio, sobre a dependência de cocaína e das motivações que teria para expor a vida fiscal do Serra e seus familiares, deixo com você maiores explicações.

Um abraço cordial.

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