
Há um ano, a vida do médico santareno Edson Ferreira Filho mudou radicalmente.
Quando atendia uma criança no HRBA (Hospital Regional do Baixo Amazonas), em Santarém, um homem armado com um revólver 38 entrou no ambulatório e o alvejou com 6 tiros.
Milagrosamente, o médico conseguiu sobreviver.
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Mantida a prisão de homem que baleou médico.
Cirurgia em médico baleado já dura 4 horas.
Passados 365 dias, Edson continua em plena recuperação. Em São Paulo.
“Hoje sou um cadeirante, e estou me adaptando a viver desta forma. Preciso vencer os obstáculos, ruas irregulares, incapacidade física para andar, ver as pessoas de baixo para cima, pois meu um metro e oitenta agora sentado na cadeira de rodas deve estar em 1,40m”, relata em emocionante depoimento enviado ao blog.
Nele, o médico conta em detalhes como ocorreu o episódio, e vaticina:
“Voltarei a trabalhar, não desistirei de minha vida, não me acovardarei por medo, não me esconderei por vergonha de estar de cadeira. Vou continuar minha vida de onde ela parou e enfrentarei o que for”.
Leia-o abaixo:
Esta é a primeira vez que desejo falar algo a respeito do fato ocorrido em 09/05/2013.
Fato: Em 09/05/2013 cheguei ao Hospital Regional [em Santarém] para meu atendimento ambulatorial. Iniciei meu trabalho em torno das 9h30. De uma média de 25 pacientes da manhã, metade são crianças com problemas neurológicos, uma vez que em Santarém não há neuropediatra. Sou eu que os atende, pois pra mim é uma honra atender esses pequenos pacientes. E assim estava pelo quinto paciente, uma criança de 5 anos com retardo mental, acompanhada de sua mãe, quando um indivíduo entreabriu a porta e efetuou o primeiro disparo por sobre a cabeça desta criança, atingindo meu ombro esquerdo.
Esse indivíduo adentrou no consultório e efetuou outro disparo. Desta vez atingindo meu punho direito. Foi quando cai ao chão e ele descarregou mais quatro disparos pelas costas. Só lembro da mãe desta criança gritando dentro do consultório e o criminoso dizendo que minha hora chegou. Mas aqui estou para dizer que não, minha hora não chegou. Estava no chão sangrando, com dores fortes no corpo, sentindo os projéteis queimando dentro de mim, sem poder me mover e o criminoso estava recarregando o revólver calibre 38 quando a polícia chegou.
Atendimento: Fui socorrido de imediato no próprio hospital. Estava com os dois pulmões sangrando, dificultando minha respiração, meu ombro esquerdo sangrando, meu punho direito sangrando, e sem poder mover de meu peito para baixo. Daí seguiu-se uma longa jornada de recuperação em UTI, depois em enfermaria. Depois fui transferido para São Paulo, onde precisei de outra cirurgia, agora para fixar a coluna com titânio.
Ao todo, foram quase três meses de internação e uma longa jornada de fisioterapia e exercícios para fortalecimento de tronco para poder ter uma vida próxima ao normal.
Criminoso: O Sr. Elionaldo [Raimundo Elionaldo Pereira Silva, 30 anos] foi atendido por mim em um total de 7 consultas e três retornos, apresentando melhora do quadro sempre que usava suas medicações, e piorando sempre que suspendia por conta própria os medicamentos. Isso se deu em consultas esparsas, em média de duas por ano em meu consultório particular, pois ele só aparecia quando suspendia os medicamentos e era trazido por seus familiares.
Isso se deu de 2005 a 2010. Depois, ele abandonou o tratamento, e segundo informações que soube ainda internado, estava em tratamento há 4 anos com o Doutor Charles.
Mentiras: Portanto, o senhor Elionaldo vai prescisar de tratamento por toda sua vida, pois seu caso é incurável. Logo, nunca prometi cura a ele nem a nenhum paciente, pois sempre trabalhei com ética e respeito a meus pacientes. Elionaldo não gastou muito dinheiro comigo, uma vez que na época minha consulta era 80 reais. E há quatro anos estava em tratamento com outro médico.
O fato de ter algum problema de saúde não o isenta de pagar por seu crime, pois ele soube comprar uma arma ilegal, soube comprar munição ilegal, soube se informar os dias de atendimento meus, os horários e disparar de forma planejada com a porta entreaberta, não me dando chance de defesa. Digo a vocês: se eu tivesse alguma chance, o resultado seria outro.
Além disso, ele tem uma longa história de outras tentativas de homicídio, inclusive já detido tentou matar outro preso. Portanto trata-se de um criminoso perigoso que deve pagar suas contas com a Justiça.
Nova Realidade: hoje sou um cadeirante e estou me adaptando a viver desta forma. Preciso vencer os obstáculos, ruas irregulares, incapacidade física para andar, ver as pessoas de baixo para cima, pois meu um metro e oitenta agora sentado na cadeira de rodas deve estar em 1,40m. Preciso conviver com dores crônicas nas costas, dores em ombros. Estou longe de minhas filhas. Minha mulher largou tudo pra cuidar de mim. Revoltas passageiras por não ter feito mal a ninguém e estar nesta situação… mas em tudo isso supero a cada dia e estou de pé em espírito!
O retorno: Estou trabalhando minha melhora física pra retornar, se Deus quiser, no fim deste ano para Santarém, minha cidade e minha região. Minha meta é voltar a trabalhar, atender meus pacientes, cumprir minha missão de ajudar quem precisa, apesar das dificuldades. Se Deus quis me deixar nessa vida, mesmo tendo levado seis tiros à queima roupa de um covarde, quem sou eu para descumprir a vontade Dele.
Voltarei a trabalhar, não desistirei de minha vida, não me acorvadarei por medo, não me esconderei por vergonha de estar de cadeira. Vou continuar minha vida de onde ela parou e enfrentarei o que for.
Grande abraço a todos!
Edson Filho