Jeso Carneiro

Simples, sábio e de talento invulgar

por Vicente Malheiros da Fonseca (*)

Ícone da cultura santarena, escritor, jornalista, poeta, teatrólogo e historiador, Paulo Rodrigues dos Santos (1890-1974), autor do extraordinário livro Tupaiulândia, escreveu o texto poético do Hino de Santarém (1948), cuja música é de Wilson Fonseca (1941), oficializado pela Lei Municipal nº 245, de 22.10.1971, a partir de Projeto apresentado pelo vereador Edson Sirotheau Serique, na gestão do prefeito Everaldo de Sousa Martins.

A música do Hino de Santarém foi composta por Wilson Fonseca (maestro Isoca) em 1941, sob título de Santarém, sem nenhuma letra, destinada à abertura das apresentações festivas e cívicas da Orquestra Euterpe Jazz, fundada por José Agostinho da Fonseca (1886-1945) e então dirigida por Isoca.

Paulo Rodrigues dos Santos

No ano de 1948, quando se comemorava o primeiro centenário de elevação da Pérola do Tapajós à categoria de cidade, o compositor pediu ao notável poeta Paulo Rodrigues dos Santos que elaborasse a letra da música, que já se tornara familiar aos santarenos.

Letra e música foram publicadas no Álbum do Centenário de Santarém, editado em 1948 pelo prefeito Adherbal Tapajós Caetano Corrêa.

A peça tem partituras para orquestra, banda, coro a 4 vozes mistas e transcrições para piano solo e piano a 4 mãos, da lavra do compositor. Em 2011, eu escrevi outro arranjo para orquestra, executado, na Casa da Cultura de Santarém, pela Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, sob a regência do maestro Miguel Campos Neto, e participação do Coro Maestro Wilson Fonseca.

No livro Meu Baú Mocorongo (v. 2, p. 544), Wilson Fonseca conta que “após a sua oficialização em cujo ato fizeram-se presentes o Governador do Pará e o Prefeito Municipal de Santarém [em solenidade realizada na Câmara Municipal, em 23.10.1971], o hino foi gravado no Rio de Janeiro em disco compacto, numa interpretação conjunta do ‘Coro da Rádio Ministério da Educação e Cultura’ e ‘Orquestra Sinfônica Nacional’, sob a regência do maestro Nelson Nilo Hack, disco lançado pelo Governador Fernando José de Leão Guilhon, no encerramento da ‘Semana de Santarém’ levada a efeito no ‘Teatro da Paz’, em Belém, no período de 23 a 27 de outubro de 1972”.

De fato, durante a Semana de Santarém, o Governo do Estado Pará (gestão Fernando Guilhon) lançou dois discos compactos contendo, além de Tambatajá (Waldemar Henrique) e do Hino do Estado do Pará (letra de Artur Teódulo Santos Porto, música de Nicolino Milano, com adaptação e arranjo de José Cândido Gama Malcher), as composições, de Wilson Fonseca, Canção de Minha Saudade (letra de Wilmar Fonseca) e o Hino de Santarém (letra de Paulo Rodrigues dos Santos), gravadas no Rio de Janeiro pela Orquestra Sinfônica Nacional e Coro da Rádio Ministério da Educação e Cultura (MEC), sob a regência do maestro Nelson Nilo Hack, e pela Orquestra e Coro Edison Marinho.

Foram realizadas diversas gravações do hino, inclusive pela excelente Orquestra Jovem e Coral Maestro Wilson Fonseca, no CD Sinfonia Amazônica (volume 1, 2002), sob a regência do Maestro José Agostinho da Fonseca Neto.

A primeira frase do belo Hino de Santarém (“Santarém do meu coração…”) foi sugestão dada pelo próprio Wilson Fonseca ao ilustre parceiro.

Paulo Rodrigues dos Santos é autor de diversas outras letras de músicas compostas por Wilson Fonseca, como as belas canções Lua Branca, Do Poema de Minha Tristeza e Alma Doente.

De parceria com José Agostinho da Fonseca, meu avô, destaco a Canção da Saudade. Mestre Paulo era da mesma geração e amigo do músico José Agostinho da Fonseca, do escritor e poeta Felisbelo Sussuarana e do cantor Joaquim Toscano.

Paulo chegou a produzir peças para teatro, como Cadê Nhá Cularinda?, que tem algumas músicas compostas por Wilson Fonseca. A parceria do mestre Paulo Rodrigues Santos com a família Fonseca atingiu à terceira geração.

De fato, eu também me tornei seu parceiro, ao completar – digamos assim – a letra de uma peça intitulada Samaritana, a primeira parceria entre Paulo e Isoca.
Explico melhor. Em 1933, Wilson Fonseca compôs a música de vários trechos do auto de Natal Pastorinhas de Santarém, inclusive a Samaritana. Mas em 1980 (após o falecimento do mestre Paulo), Isoca ampliou o projeto original e acrescentou mais duas partes, que o compositor aproveitou também para compor um Trio de Flauta, Violoncelo e Piano integrado pelas três partes da composição.

Em 2005 (após o falecimento de meu pai), eu elaborei o texto poético para as últimas duas partes da citada música, que hoje formam a composição completa, tal como está escrita no 3º volume da Obra Musical de Wilson Fonseca, publicado em 1984 (páginas 161-162), e gravada, apenas na versão instrumental, no CD Wilson Fonseca – Projeto Uirapuru – O Canto da Amazônia (1º volume, 1996. Secult/PA), na interpretação que eu mesmo fiz ao piano (acústico), acompanhado de meu irmão José Agostinho da Fonseca Neto (Tinho), ao piano digital.

Em setembro de 2011, compus a música sobre o belíssimo poema Trovas sobre um velho tema (1959), de autoria de Paulo Rodrigues dos Santos, que, uma vez mais, se reporta à saudade: “Amores, sonhos que nascem,/Vão partindo e se acabando;/Só a Saudade não parte,/Pois está sempre chegando…” (Apud WILSON FONSECA. Meu Baú Mocorongo, v. 2. Governo do Estado do Pará, RR Donnelley Moore-SP: 2006, p. 497-498). Como o poema original é muito longo (20 estrofes), escolhi apenas 10 estrofes para compor a canção.

Em dezembro de 2011, elaborei um arranjo sobre a canção Do Poema de Minha Tristeza (letra: Paulo Rodrigues dos Santos; e música: Wilson Fonseca – 1951), para Coro a 4 vozes mistas e Piano, a pedido da professora Lucília Mota, da Escola de Música Maestro Wilson Fonseca, de Santarém.

A partitura original dessa canção (Canto e Piano) foi publicada no 3º volume da Obra Musical de Wilson Fonseca (p. 176/178). A música foi cantada e gravada, na interpretação da notável professora e soprano Marina Monarcha, genitora da extraordinária soprano, ambas paraenses, Carmen Monarcha, solista exclusiva da André Rieu Orchestra (Holanda), que tem feito turnês por toda a Europa, Estados Unidos, Canadá, Ásia, Austrália e Nova Zelândia. Compus também a Canção para Carmen (2010), no ciclo de canções dedicadas a cantoras líricas (atualmente, 18).

A música Do Poema de Minha Tristeza, interpretada por Marina Monarcha, está no CD Wilson Fonseca – Projeto Uirapuru – O Canto da Amazônia.
O comovente poema de Paulo Rodrigues dos Santos foi escrito, segundo meu pai me contou, logo após o falecimento da primeira esposa do poeta (Alice Pereira de Matos), quando ele estava muito triste…

Paulo contraiu segundas núpcias com Priscila Corrêa Frazão, conhecida como Dona Ciloca. Sua filha Ofélia mora atualmente em Belém.

É realmente um privilégio ser parceiro musical de um grande expoente da literatura.

Estou convencido de que Paulo Rodrigues dos Santos é da mesma estirpe do poeta português Fernando Pessoa, também meu parceiro musical.

Mestre Paulo Rodrigues dos Santos nasceu em Santarém a 10 de janeiro de 1890 e aí faleceu a 7 de abril de 1974. Completou seus estudos em Belém, mas não chegou a fazer curso superior. Segundo Wilde Fonseca: “Como autodidata, armazenou invejável soma de conhecimentos, dono que foi de uma cultura eclética e solidamente fundamentada. Poeta de extrema sensibilidade, espalhou pelos jornais de sua terra, ao longo de sua existência, poesias de rara beleza. Colaborou intensamente nos jornais de sua cidade, quer como editorialista quer como em trabalhos assinados”.

Sua obra maior é o livro TUPAIULÂNDIA, autêntica a história de Santarém.

Paulo Rodrigues dos Santos é um dos Patronos da Academia de Letras e Artes de Santarém (ALAS).

Não vejo a hora de compor sobre mais um de seus belos poemas, por si só jóias musicais. Basta lembrar do Balão da Vida: “Todos nós temos n’alma um balão encantado,/De papel muito fino em gomos coloridos:/Branco, amarelo, azul, roxo, verde, encarnado…/De todos os matizes conhecidos…”.

Salve, mestre Paulo! Tu mereces todas as homenagens. Eras simples, mas sábio. Um talento invulgar. Verdadeiramente, imortal.

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* Santareno, é magistrado, professor e compositor. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

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