
“No dia seguinte ninguém morreu”.
Para quem já leu o romance de Saramago, origem da citação acima, não deve ter estranhado o título dessa nossa crônica. As Intermitências da Morte é uma ficção bem humorada em que o autor “brinca” com o dia em que a morte teria deixado de existir.
Esse esdrúxulo termo, desconhecido de muitos, nada mais é do que uma curta interrupção de algum momento ou o curso natural de algo.
Nesse livro o Nobel português de literatura traz uma profunda reflexão sobre a vida e, paradoxalmente, usa a morte para nos revelar o valor de possuí-la, e sobretudo, de se morrer.
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Desde o ano passado o mundo foi assolado pela pandemia do covid-19, e assim como no romance, nossa relação com o vírus teve várias fases, em que na luta contra essa doença tivemos sempre a presunção de que estávamos na liderança do jogo, no controle dos fatos.
Engano! Não estávamos.
Quando a morte deixa de existir na pequena cidade fictícia do livro todos comemoram e até pensam ser algo passageiro. No entanto, depois, há um sentimento de inquietação, preocupação, que logo se transforma em MEDO, pois a morte tinha não apenas o controle da vida, mas da persistência dela.
Nós também! No início da pandemia achamos que o vírus pertencia apenas àquela pequena cidade na China – Wuhan. Até que ele chegou até nós!
Ficamos inquietos, preocupados e então, da mesma forma, tivemos medo.
Mas passou! Soluções foram propostas; planejamentos foram arquitetados, íamos driblar o caos.
Enchemos os nossos pulmões de ar; saímos de casa. Desafiamos o vírus! Então, como um monstro mitológico que triplica seu tamanho quando é provocado, o vírus voltou, e voltou grande… Gigante. IMPIEDOSO.
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Cansou de brincar de faz de conta e mostrou quem estava no controle. Mas agora você pode estar se perguntando: Por que a Morte fez aquilo, por que ela deixou de existir?
Ironicamente, a Morte tornou-se inexistente pra se tornar necessária.
Talvez seja essa a explicação para a existência desse vírus e sua persistência entre nós. Enquanto não percebermos que, nesse momento, ele está no controle e que devemos respeitar sua presença, ele irá continuar sua epopeia em busca da nossa compreensão.
Pois assim como a Morte, esse vírus conhece tudo a nosso respeito e “talvez por isso seja (tão) triste”.
— * Alessandra Helena Corrêa, santarena, é graduada em licenciatura plena em Letras (Ufopa). Faz mestrado atualmente em Estudos Literários, Culturais e Interartes na Universidade do Porto, Portugal, onde reside. No Instagram: @alehhelena.
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