Jeso Carneiro

O caso Damares, Malafaia e as fraudes no INSS: crise de narrativa evangélica para as eleições 2026. Por Joniel Abreu

O caso Damares, Malafaia e as fraudes no INSS: crise de narrativa evangélica para as eleições 2026. Por Joniel
Silas Malafaia e a senadora Damares Alves | Montagem: Luan Araújo/Cenarium

Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido, Lucas 12.2

São Lucas, em seu Evangelho, diz no capitulo 12 e versículo 1 e 2: “Ajuntando-se entretanto muitos milhares de pessoas, de sorte que se atropelavam uns aos outros, começou a dizer aos seus discípulos: Acautelai-vos primeiramente do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido”.

Esse texto é oportuno diante da divulgação em redes sociais, recente, de igrejas e pastores evangélicos que passaram a ser alvo da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que investiga fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), após a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) dar conhecimento público após ser confrontada pelo pastor Silas Malafaia (líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo).

Em entrevista a senadora destacou que, com profundo desconforto e tristeza, terá que investigar pastores e organizações religiosas com nomes citados na CPMI do INSS. Logo em seguida a divulgação da entrevista da senadora, o pastor Silas Malafaia (já conhecido pelo seu perfil polêmico) lançou um vídeo chamando a senadora de “linguaruda” e pediu nomes[1]: “Ou a senhora dá os nomes, ou é uma leviana linguaruda. A acusação é grave e séria e dá os nomes também dos líderes que lhe pediram para calar a boca” (citado no vídeo)[2].

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A controversa ganhou destaque devido os dois personagens envolvidos se manifestarem pertencentes do mesmo grupo político (extrema-direita e bolsonaristas) e do mesmo seguimento religioso (evangélicos).

No entanto, esse fato, deve ser analisado sob uma perspectiva mais ampliada. Se tem no centro das investigações de fraudes ao INSS citações da participação de instituições religiosas grandes e lideranças que levantaram a bandeira bolsonarista nas eleições de 2018/2022 que estão numa evidente crise de narrativas para eleições de 2026, focando o pleito presidencial.

A participação efetiva de evangélicos na política partidária, com mandatos eletivos, passou a ser mais evidente com a redemocratização do país. Anterior, a redemocratização, a concepção majoritária era contrária a política partidária por vinculá-la ao mundanismo! (FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment. Tese de doutorado. Unicamp, 1993).

Foi com a eleição de Bolsonaro (2018) e em sua campanha para reeleição (2022) as instituições evangélicas e suas lideranças se expuseram, abertamente, por um lado político, o da extrema-direita.

Os púlpitos das igrejas evangélicas foram usados como palanques para os políticos bolsonaristas, assim como, fiéis cooptados pelas lideranças a militarem como cabos eleitorais, numa espécie de “guerra” entre o ‘bem’ versus o ‘mal’.

Fiéis que pensavam diferentes a extrema-direita eram coagidos a seguir com o bolsonarismo ou a abandonar a comunidade que frequentavam, pois, a narrativa que se impunha era da incompatibilidade entre a doutrina cristã evangélica e as ideologias políticas de esquerda, representada pelo lulo-petismo.

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Uma das pautas citadas para essa “moralização da política”, pelas lideranças evangélicas em 2018, foi o COMBATE A CORRUPÇÃO! Afirmavam que desvios de recursos públicos e uso da estrutura de Estado para se locupletar (a exposição feita pela operação Lava-Jato) era postura somente de políticos de esquerda e quem manifestava voto neles eram defensores de “ladrões”, “corruptos”, “bandidos”, e algo do gênero. Inclusive o próprio Bolsonaro, usou o argumento de ter acabado com a corrupção no governo, em 2020, para por fim a operação “Lava-Jato”.

A narrativa da “nova política” não se sustentou. Com a ascensão de Bolsonaro veio também escândalos de desvios de dinheiro público, por políticos de direita, e da própria família de Bolsonaro: as rachadinhas; funcionários fantasmas nos gabinetes; caso Queiroz; os cheques de Queiroz a Michelle Bolsonaro; associação com milicianos entre Bolsonaro e Adriano Nóbrega; ministro do Meio Ambiente investigado por envolvimento em contrabando de madeira ilegal; os pedidos de propinas para compra de vacinas na covid; assim como, também foi exposto o caso de pastores evangélicos e as propinas em barra de ouro no Ministério da Educação.

O discurso da “moralização política” também foi por terra quando Bolsonaro, que se dizia contra o “centrão” (que é grupo político, sem ideologia fixa, fisiológicos e clientelistas), chamou para compor base de seu governo. Em entrevista a uma rádio na época chegou a dizer que ele próprio, sempre foi central: “Eu sou do Centrão[3]”. Foi também no governo Bolsonaro que se institucionalizou a corrupção com a criação do “Orçamento Secreto”, o mais escandaloso caso de desvio de verbas públicas da história do país.

Mesmo diante dessa avalanche de escândalos, e incontestes casos de corrupção no governo bolsonarista, as comunidades evangélicas e suas lideranças insistiram na narrativa (durante a eleição de 2022) que o bolsonarismo ainda seria sua alternativa, pois se alinhava a doutrina cristã evangélica valorizando um pauta moral, não mais no combate a corrupção, e sim de costumes e valores da família tradicional com temas do aborto, gênero, sexualidade…, em que o pânico moral passou a ser estratégia adotada para articular e mobilizar os fiéis como verdadeiros “soldados” da extrema-direita.

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A vitória de LULA em 2022, não foi reconhecida por lideranças evangélicas que estavam na linha de frente do bolsonarismo, como o caso do pastor Silas Malafaia[4], que se assumiu como oposição evangélica ao petismo e a LULA da Silva, assim como, se colocou como um porta-voz da direita extrema-direita[5].

Os ataques de Malafaia passaram a ser constantes, tanto ao governo como também a políticos de direita que não se manifestavam a favor das pautas que a extrema-direita elegeu como prioritárias, a exemplificar: a anistia aos invasores do 08 de janeiro[6] e aos pedidos de impeachment de Alexandre Moraes[7] (Ministro do STF).

Ao ser dado publicidade aos casos de fraudes no INSS em 2025, a extrema-direita viu como estratégico sua valorização para desgastar a imagem do governo e voltar a narrativa de corrupção como prática, única, do petismo, da esquerda e da gestão de Lula da Silva[8]. Uma investigação no congresso com esse objeto passou a ser tratado pela extrema-direita como melhor estratégia política levando inclusive Bolsonaro a manifestar apoio a instalação[9].

A senadora Damares Alves foi uma das quem formalizou pedido de criação da CPMI, apresentado em 12 de maio de 2025, seguido com apoio de 223 deputados e 36 senadores, sendo criada a CPMI em junho/2025[10].

Investigação em curso e o que estava encoberto foi descoberto, e o que estava oculto foi relevado! As questões que se faz são: o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia, foi evidenciado? A cobrança moral excessiva e agressiva feito pelo combate a corrupção e desvio de verbas públicas tinha mais haver com suas condutas que a do Outro? Se estar diante de projeção de comportamento e do funcionamento do superego freudiano?

Certo, que a divulgação da lista causou um “silêncio ensurdecedor” nas redes sociais daqueles que sempre a usaram para mobilizar a extrema-direita em pautas políticas. Até o deputado Nikolas Ferreiras, evangélico e influenciador digital, e que ingressou com demanda no STF pela criação da CPI[11], não fez uma manifestação ao caso.

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Há também silêncio das lideranças evangélicas que iam, frequentemente, as suas contas nas redes sociais manifestar repúdio a corrupção. Assim como, de fiéis, que se manifestavam como soldados da defesa da ética e da moral! O silêncio é proposital e seletivo ou há decepção diante da possível contradição entre o que se falou e combateu com o que se praticou?

Nesse contexto deve ser considerado que as eleições 2026 se avizinha, e todo o discurso de “pânico moral” e “perseguição a cristãos”, criado por lideranças evangélicas alinhadas a extrema-direita para controlar fiéis em 2018 e 2022, tem caído por terra.

Para o discurso que o governo petista fecharia igrejas foi reforçado constantemente o discurso de que a liberdade de culto é garantida assegurada na Constituição Federal, não podendo serem fechadas a bel-prazer de nenhum governo.

A resposta as falas de que somente a extrema-direita considerava as pautas evangélicas se criou leis de valorização a cultura evangélica, como a Lei 14.998/2024 que instituiu o dia 09 de junho sendo o “Dia Nacional da Música Gospel”, e a Lei 12.795/2025 que reconhece a valorização e a promoção da cultura gospel como manifestação cultural nacional.

É oportuno também o destaque a sanção da Lei 14.647/2023 pelo governo petista, pois essa lei alterou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ao estabelecer a inexistência de vínculo empregatício entre entidades religiosas ou instituições de ensino vocacional e seus ministros, membros ou quaisquer outros que a eles se equiparem, ato que também prestigia demandas envolvendo entidades religiosas.

Considerando tudo isso, deve ser entendido que o “chilique” de Malafaia a entrevista da senadora Damares, não se reduz a mero ato de defesa a grupos evangélicos que sofrem acusações indevidas, mas se estar diante de uma crise de narrativa, pela ausência de argumentos, para justificar a cobrança moral excessiva e agressiva que sempre foi usada pelo bolsonarismo para endemonizar oponentes, visto que paladinos da ética e da moral passaram a ser apontados num grande esquema, envolvendo Igrejas evangélicas, para a praticar de atos criminosos, assim como, de envolvimento com desvios de verbas e fraudes para se locupletarem.

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As ações positivas do governo para as pautas evangélicas e os escândalos envolvendo pastores de renome nacional tem deslegitimado a narrativa que se construiu nas comunidades evangélicas pautadas no “medo da esquerda” e na “moral fundamentalista” representando uma verdadeira perda de autoridade e liderança no controle de fiéis para as eleições que se aproxima.

Liderança evangélica como André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha (citado por Damares), já havia se manifestado favorável a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro a presidência da República (2026), mesmo diante das criticas feitas por Malafaia ao nome do filho do ex-presidente[12], e agora terá que se explicar aos fiéis e a CPMI.

A divulgação da lista por Damares, também não deu a extrema-direita possibilidades para criar argumentos de se tratar de perseguição da esquerda a grupos e lideranças evangélicas, pois foi a extrema-direita quem se mobilizou pela criação da CPMI, assim como, quem insistiu na divulgação e quem divulgou a relação de igrejas evangélicas e pastores.

A conclusão que se faz é que a “régua ética” que a extrema-direita sempre usou para atacar seus oponentes tem falhado após a divulgação da lista! Uma conduta com honestidade e probidade é exigência a todos, independentemente de coloração partidária! O fato tem que ser investigado sob o imperativo, inclusive muito citado nos púlpitos evangélicos em 2018, alusivos à operação Lava-Jato: “a lei é para todos”!

Parafraseando Malafaia, mas num sentido crítico a questão, “se já não bastasse Satanás e os ímpios que nos odeiam para nos caluniar”, felizmente o joio está sendo identificado.


[1] https://www.metropoles.com/brasil/malafaia-cobra-damares-apos-fala-sobre-igrejas-e-farra-do-inss

[2] https://www.youtube.com/watch?v=5wxAUFKkUpA

[3] https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/07/22/eu-sou-do-centrao-diz-bolsonaro-ao-ser-questionado-sobre-ciro-nogueira-na-casa-civil.ghtml

[4] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/11/10/apos-defesa-nao-achar-fraude-malafaia-ataca-urnas-e-sugere-censura.htm

[5] https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/apoiou-lula-defende-bolsonaro-enfrenta-stf-como-malafaia-virou-porta-voz-direita/

[6] https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/malafaia-chama-deputados-que-votaram-contra-a-pl-da-anistia-de-prostitutas-da-direita,a56a8fb09d89715e973d9ee7e735d70dfn1iswl9.html

[7] https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/malafaia-ataca-ex-ministro-de-bolsonaro-que-se-negou-a-assinar-o-pedido-de-impeachment-de-moraes/

[8] https://veja.abril.com.br/politica/escandalo-do-inss-com-risco-de-cpi-desafia-a-leve-recuperacao-de-lula-nas-pesquisas/

[9] https://www.poder360.com.br/poder-congresso/bolsonaro-defende-cpi-do-inss-em-propaganda-do-pl-na-tv/

[10] https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/08/18/cpmi-do-inss-sera-instalada-na-quarta-feira

[11] https://www.youtube.com/watch?v=pJQ09OzNEwA

[12] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/em-culto-flavio-recebe-oracao-de-valadao-para-se-reconciliar-com-deus/


Joniel Abreu é advogado e teólogo. É doutor em Direito pelo PPGD/Unesa-RJ. Mestre pela UFPA. Especialista em Direito pela UFPA. Especialista em Ciências Sociais pela UFPA. Pesquisador e professor universitário. Leia também dele: Aymeê e a crítica aos movimentos evangélicos com a música Evangelho de Fariseus.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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