Jeso Carneiro

O que sobra do que somos depois de tantos desvios na vida. Por Josué G. Vieira

O que sobra do que somos depois de tantos desvios na vida. Por Josué G. Vieira

A vida traz consigo o costume mal interpretado de apagar algumas pessoas para que aprendamos a resistir às perguntas que a ausência delas deixou espalhadas pela casa. Daí, quando deixamos de construir explicações capazes de consolar o vazio, essas pessoas reaparecem como se quisessem dizer que o tempo nunca se esmerou para o esquecimento, só mudou os móveis de lugar dentro da memória.

Por muito tempo entendi que lembrar fosse uma tarefa de fidelidade aos fatos, como amadurecemos as razões no sabor das estações, hoje suspeito do contrário. A memória não arquiva; ela interpreta, possui o vício de cortar excessos, inventar silêncios elegantes, deslocar palavras de um tempo para outro e, sem que percebamos, transforma rotinas em destinos inevitáveis.

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O passado que carregamos é menos verdadeiro do que coerente; foi assim que compreendi uma ironia da existência, o futuro nunca esteve escondido no passado. A lembrança é excepcional para explicar quem deixamos de ser, porém fabulosamente inútil para dizer quem ainda teremos coragem de encontrar.

E, isso é exatamente a beleza e o custo de continuar a aventura Vida.

Quem sabe seja por isso que lhe escrevo, leitor; jamais porque a distância tenha se tornado menor, sim porque esse velho conspirador chamado Tempo acabou desmontando clarezas que eu carregava com excessiva convicção. Há perguntas que amadurecem conosco, não exigem respostas imediatas e passam a acompanhar o nosso caminho, como quem acompanha em silêncio aquilo que estamos nos tornando.

Escrevo para descobri que certos encontros não terminam porque as pessoas se afastam, eles continuam acontecendo em algum lugar lembrado por nós, modificando discretamente como olhamos o mundo, escolhemos as palavras e reconhecemos os próprios silêncios. Por isso, algumas presenças sobrevivem pela forma como reorganizam a arquitetura invisível da nossa memória.

E, se essas linhas ladeadas pela escrita chegaram até você, quem sabe seja mais uma daquelas ironias que a existência coleciona como admirável hobby. Ou, seja porque histórias vão e vem sem recomeços e nem explicações, exercem a coragem de admitir que o tempo nos transformou sem apagar aquele dia que fez sentido para nós.

Não vale desafiar o tempo escrevendo, o tempo jamais voltou um único segundo para buscar quem ficou na estação errada, por isso ele é honesto em seguir adiante sem pedir desculpas. Há derrotas que não exigem revanche, e que algumas distâncias não nasceram para ser vencidas, mas para ensinar o tamanho das estradas que atravessamos por dentro até nos encontrarmos.

Não vale, também, escrever para preencher o silêncio, é uma injustiça com ele, porque silêncios trabalham com mais delicadeza do que qualquer discurso, lapidando em sigilo o que a pressa das palavras costuma deformar. O mundo ensina a responder depressa demais quando a única resposta é permitir que o tempo amadureça perguntas que ainda não sabem o próprio nome.

Essa escrita é ponte; porque algumas pessoas se recusam a terminar quando a convivência termina, ficam ali circulando pela memória como melodias que julgávamos esquecidas e que, sem aviso, reaparecem no meio da madrugada, revelando que nunca desapareceram de fato.

É isso que chamamos de encontro, a estranha permanência de alguém dentro de nós, depois que a vida já mudou de paisagem muitas vezes.

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Agora, permita-se uma pequena desconfiança, antes de decidir se vale a pena responder, pergunte a si mesmo o que o tempo fez de você desde a última vez que nossas histórias dividiram o mesmo horizonte. É possível que você descubra que não somos apenas dois antigos conhecidos diante de uma nova conversa; somos duas versões de pessoas que já não existem tentando se reconhecer uma na outra e procurando o que sobreviveu às mudanças.

Se, em algum momento desta leitura, você percebeu uma lembrança respirar mais fundo ou uma pergunta antiga voltar a caminhar pelos corredores da memória, não a interrompa tão depressa.

Nem toda inquietação é para esquecer, algumas chegam tarde porque precisam atravessar a vida inteira para encontrar as palavras certas, é nesta hora que elas deixam de ser saudade e passam a ser compreensão.

Se, ainda houver em você alguma curiosidade sobre o destino das coisas que o tempo não conseguiu apagar, escreva, porque o tempo costuma desmoralizar todas as certezas. Escreva, apenas para descobrir se ainda somos capazes de reconhecer um ao outro depois de tudo o que a vida silenciosamente escreveu em nosso lugar.

E, é isso, penso que a vida não devolve pessoas; devolve espelhos, sem que percebamos coloca diante de nós alguém que julgávamos conhecer apenas para revelar o quanto transformamo-nos para nós mesmos. Ninguém atravessa os anos impunemente, o tempo muda a voz, troca as convicções, ensina outros silêncios e faz da antiga certeza uma fotografia de quem um dia quiséramos ser.

Se, apesar de tudo isso, você ainda encontrar aqui alguma centelha daquele desconhecido que caminhou ao seu lado, escreva para irmos além de repetirmos o passado, ele já cumpriu o seu ofício.

Mas, para descobrirmos se existe uma coragem maior do que recordar: a de conhecer pela segunda vez alguém que o tempo teve a sutileza de não deixar igual.


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.

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