Jeso Carneiro

Política não se explica por teorias morais. E isso vale para religiosos e militares. Por Válber Pires

Política não se explica por teorias morais. Isso vale para religiosos e militares. Por Válber Pires
Milícias: discurso moralista é cortina de fumaça

“Toda ação humana é explicada pelo desejo e, no caso da política, o que a explica é o desejo de poder, de dominação política e de exploração econômica”.

Vamos aos fatos: o envolvimento do reverendo Amilton Gomes, líder da igreja Batista, é apenas um de dezenas de casos de líderes religiosos ligados a práticas políticas corruptas e criminosas. Pastor Everaldo, Crivella, Flordelis são outros de tantos casos emblemáticos.

 

Do mesmo modo, o caso do Coronel Antônio Élcio Franco é um de centenas de casos de corrupção e criminalidade envolvendo militares políticos. Manoel Silva Rodrigues, sargento da aeronáutica preso com 39 kg de cocaína no avião presidencial, é outro que ilustra de modo emblemático o envolvimento de militares com a criminalidade, o que envolve ainda milícias, tráfico de armas, formação de quadrilha e assaltos a bancos.

Esses não são casos isolados e demonstram aquilo que um florentino do século XVI conhecido como Nicolau Maquiavel ensinou como o mais precioso princípio do entendimento e da explicação científica da política: se queres entender e explicar corretamente a política esqueça os critérios, as teorias, os valores morais, porque eles não explicam nada, apenas ocultam, obscurecem a compreensão do jogo político.

Toda ação humana é explicada pelo desejo e, no caso da política, o que a explica é o desejo de poder, de dominação política e de exploração econômica. A lição de Maquiavel foi complementada pela de Karl Marx no século XIX: não é a melhoria moral e intelectual de um povo que o conduz à prosperidade material, mas a prosperidade material que o conduz à prosperidade moral e intelectual.

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E mais, a concentração de poder político é diretamente proporcional à concentração de riquezas materiais. Assim, para que uma classe politicamente dominada e economicamente explorada possa prosperar ela precisa se unir na política para forçar a distribuição de poder e, através dele, forçar a distribuição da riqueza econômica.

O sociólogo francês Émile Durkheim complementou os dois mestres anteriores mostrando que não somente as classes, mas as corporações sociais também podem exercer a dominação e a exploração umas sobre as outras em sociedades corporativas. E o Brasil é uma sociedade corporativa.

Cada uma das corporações que hoje estão bem representadas no poder estão lutando para manter sua dominação política e a exploração sobre as demais corporações que se encontram afastadas ou enfraquecidas politicamente. Militares, religiosos, crime organizado, tráfico, juízes, promotores, policiais, milícias defendem o governo com o qual se identificam e que melhor os beneficia.

Mas, é apenas isso. O discurso moralista e anticorrupção que propalam é apenas cortina de fumaça para desviar a atenção do público, de fiéis sem capacidade intelectual e crítica. O problema é que essas corporações da sociedade e do crime não possuem projeto de nação e sua concepção de sociedade é hierárquica e excludente.

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Por isso, não possuem projetos de integração social, apenas de exclusão. E mais, são corporações que conquistam espaço através da força e do obscurantismo, por isso, seu único projeto é de colonização social. Deste modo, tendem a saquear ao máximo a nação e a conter o descontentamento dos excluídos através da opressão física, intelectual e psicológica.

Em síntese, militares, religiosos, milícias, crime organizado, policiais, juristas não estão na política por desejos morais, mas por desejos políticos e econômicos comuns a todos os mortais. O problema é que não possuem um projeto de nação e, assim, a continuidade deste modelo político no Brasil resultará numa sociedade inviável.

Válber Pires

Válber Pires é professor universitário, doutor em Sociologia, com pós-doutorado em Socioeconomia e Sustentabilidade. Escreve regularmente no BJ.

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