Jeso Carneiro

Voto impresso, lamparina, disquete: o cabresto da distopia. Por Silvan Cardoso

Voto impresso, lamparina, disquete: o cabresto da distopia. Por Silvan Cardoso

Estamos vivendo novos tempos, ou são os tempos velhos que estão querendo voltar? Porque um dos assuntos mais discutidos nas redes sociais por muitas pessoas é o voto impresso. Quem já se imaginou na hora da votação ter que marcar num papel o candidato desejado e depositá-lo numa urna?

Eis o tal do voto impresso… Esquecê-lo? Trazê-lo de voltar? Afinal, o que pode mudar mesmo com isso? Seria o fim das supostas fraudes ou o retorno delas? Seria a conquista de alguma liberdade no processo eleitoral ou um novo cárcere e, ao mesmo tempo, um mundo paralelo da democracia?

— LEIA também de Silvan Cardoso: O negacionista é um idólatra de milagreiros da política.

Olha que esse mundo é louco, mas, como vemos, o Brasil vai muito além das loucuras desse mundo. Um lugar onde um leigo questiona, sem o menor entendimento, pesquisas e conhecimentos científicos, usando citações bíblicas e o nome “Deus” para se justificar, comparando o Brasil a países muito distantes de sua realidade, usando teorias próprias e sem qualquer fundamento para manipular milhões de pessoas, que acabam por aderir a essas manipulações, tornando-se fantoches incapazes de usar pensamento próprio e de serem imparciais diante das declarações desse dito leigo.

Se é para voltarmos no tempo e votar com cédulas como décadas atrás, por que não poderíamos também usar de outras coisas e acontecimentos do passado e acordar sem uso do despertador e depender do canto do galo? Aliás, poderíamos deixar de lado o relógio digital e voltarmos a usar o relógio solar? Não seria mais confiável? E pra quê continuarmos com o uso do celular se seria mais prático voltarmos à fila do orelhão?

Bem, se o leigo brasileiro disse que é mais confiável o que se usava antigamente, como o voto impresso, por achar ser mais seguro, vamos obedecê-lo. Vamos deixar de utilizar lâmpadas de led também. Voltemos às lamparinas! Assim poderíamos diminuir o valor da conta de luz, não é? Ou poderíamos assistir em televisor de tubo ao invés de smart TV.

Bem, deixemos pra lá o Dropbox ou One Drive e voltemos ao uso do disquete. Pra quê salvar nas nuvens? De repente os arquivos se perdem no vento… Muito melhor do que isso, seria mais viável usarmos novamente a máquina datilográfica ao notebook.

Talvez o líder do país recomende aos brasileiros deixar de utilizar provedores de filmes e recolocarmos na nossa estante os videocassetes. Alguém se importaria deixar de ler um blog para ir à banca de revista comprar o velho jornal impresso? Melhor do que todos: WhatsApp?

Por que utilizar esse aplicativo se podemos, sem problema algum, escrever cartas para que o carteiro faça a entrega nas casas? Tem certas coisas do passado que ainda são extremamente importantes e insubstituíveis, como ler um impresso e ter o hábito de escrever.

Mas a rejeição de outras coisas, como a urna eletrônica, de onde nunca se comprovou fraude, seria uma tentativa de fazer voltar, por exemplo, o voto de cabresto, não é? Grande parte da sociedade brasileira desconhece a sua história, não tem o hábito da leitura e praticamente não sabe de fato o que seja política, o que deveria ser obrigatório no ensino das escolas.

Já dizia o pensador grego Platão: “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”.

Silvan Cardoso

É poeta, cronista e pedagogo. Escreve regularmente no BJ.

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