
O jornalista Jeso Carneiro, editor do portal JC, foi interrogado na manhã desta sexta-feira (16) na 16ª Seccional Urbana de Polícia Civil de Santarém (PA), na condição de suspeito.
A oitiva ocorre apenas dois dias após do repórter publicar duas matérias sobre a iniciativa da Corregedoria da Polícia Civil do Pará instaurar um procedimento para investigar uma suposta venda ilegal de veículo e a conduta do delegado no município de Monte Alegre, no Baixo Amazonas.
Embora a reportagem tenha se baseado na Portaria Nº 809/2025 da Corregedoria Geral — um documento oficial que determinava a apuração dos fatos —, o delegado Welington Kennedy Santos Ribeiro incluiu o jornalista no inquérito.
No depoimento, dirigido pela delegada Raissa Beleboni, Jeso Carneiro, acompanhado pelo advogado Isaac Lisboa Filho, optou pelo silêncio.
Baseado em fontes oficiais
A primeira matéria que motivou o questionamento policial foi publicada na quarta-feira (14). No texto, o jornalista relata que o Ministério Público do Pará (MPPA) havia encaminhado o caso à Corregedoria da PCPA devido à falta de respostas da delegacia de Monte Alegre sobre uma denúncia feita por um cidadão – Walter Luis Baia de Lima, 67 anos.
O texto jornalístico citava dados da Notícia de Fato do Ministério Público e a decisão da Corregedoria em apurar “a suposta venda ilegal do veículo apreendido” e “a conduta do delegado titular (…) referente ao não acatamento das solicitações ministeriais”. A investigação jornalística, portanto, narrava a existência de um procedimento administrativo real instaurado pelos órgãos de controle contra a delegacia.
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Origem da denúncia e o desencontro de datas
A apuração policial contra o jornalista ocorre em um cenário complexo de datas. A denúncia original, reproduzida na portaria da corregedoria citada pelo jornalista, partiu de Walter Luis Baia de Lima. Walter acusava policiais de terem vendido a moto de seu filho.
No entanto, depois do jornalista ter noticiado a abertura da investigação da Corregedoria da PCPA (14 de janeiro), a 1ª Promotoria de Justiça de Monte Alegre arquivou o caso.
O MP concluiu, após receber novos documentos da polícia, que a acusação de Walter era mentirosa: a moto tinha chassi adulterado e havia sido devolvida legalmente ao verdadeiro proprietário meses antes. O denunciante, Walter Luis, foi autuado por denunciação caluniosa.
Apesar de o jornalista ter apenas noticiado o trâmite da corregedoria provocado pela denúncia inicial, ele passou a ser investigado pela “propalação” do caso.
Procedimento legal
O interrogatório de Jeso Carneiro foi realizado em Santarém, cidade onde reside, e não em Monte Alegre, onde corre o inquérito. A medida foi possível através de uma Carta Precatória Policial, instrumento de cooperação entre delegacias que dispensa autorização judicial prévia, conforme análise jurídica do caso.
No documento de oitiva, a Polícia Civil formalizou a condição de Jeso como “suspeito” e o questionou especificamente “em relação às reportagens realizadas”, indicando que o foco da investigação policial é a atividade de imprensa exercida no caso.
O jornalista rechaçou a proposta de publicar uma retratação sugerida no interrogatório por entender que as matérias jamais tiveram objetivo de macular ou caluniar os policiais nelas citados. Mas se prontificou, como já comunicara ao delegado por aplicativo de mensagem logo depois da primeira matéria ter sido publicada, que publicaria o contraponto do policial.
Trecho do Termo de Interrogatório
“Respondeu que, por orientação de seu advogado, vai permanecer em silêncio, se resguardando ao direito de falar apenas em Juízo, caso seja demandado; QUE, acrescenta, contudo, que está aberto o direito de resposta em relação às reportagens realizadas.”
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