Jeso Carneiro

Wilde Alemão Abenatar: o artista e o comandante do Exército. Por José Edibal C. Cabral

Wilde Alemão Abenatar: o artista e o comandante do Exército. Por José Edibal C. Cabral
Alemão, artista plástico falecido nesta quinta-feira (19) em Santarém. Foto: reprodução

Wilde Abenatar Fernandes. Artista plástico, voluntarioso, destemido, vigoroso, como a maioria dos artistas de vanguarda, extremamente revolucionário, popular. Seu aprendizado em artes plástica foi através grupo de amigos, do seu bairro onde nasceu, Pulga. Paulo César Nascimento, Raimar, Luiz, Delei, entre outros que a minha memória teima em desafiar. Todos inspirados, alunos dos artistas santareno Laurimar Leal e Renato Sussuarana, ainda vivos, lúcidos e pulsantes.

Alemão (devido sua cor) vivia sorrindo, alegre, festivo, irreverente, viveu de sua arte. Trabalhou em busca do reconhecimento de ser artista, porém, sua personalidade forte, entrava em conflito com quem não o reconhecia por este prisma. Bradava, rodava em volta do seu próprio corpo e exclamava:

⁃ Sai fora!!! você não entende de arte e tampouco o que é um artista.

Lembro que Alemão estava fazendo um exposição de quadros no hall do Banco do Brasil na cidade Itaituba/Pará, e também ministrando oficina para Secretaria de Cultura daquele município. Eu, à época dos fatos, morava na cidade, fui fazer uma visita a exposição, todos os quadros foram vendidos.

Na ocasião, o comandante do Exército (53º BIS) pediu para o Alemão levar uns quadros em sua residência. De pronto, ele me pediu:
⁃ Cabral (assim que me chamava) vamos lá levar esse quadros ao comandante?

⁃ Ok vamos lá – agasalhou-os todos no banco de trás do carro e seguimos.

Chegando na portaria do comando, ele se identificou ao guarda de sentinela.

⁃ Ei cara eu vou lá com o comandante!
⁃ Identifique-se por favor?
⁃ Fala pra ele que é o Wilde Abenatar, artista plástico – balançou a cabeça pro lado e sorriu. Foi autorizado a entrada.

Bateu no meu braço: Tá vendo a moral kkkkk..!!!?

Chegando na residência do comandante, ele falou:

⁃ Vamos lá, camarada, o cara é gente fina, meu brother -. Recusei, falei que ia ficar no carro aguardando.

Depois de alguns minutos surge o irreverente Wilde e o comandante, andando no gingado característico quase voando, sacudindo as mãos de lado pra outro, rindo alto, abraçado ao comandante.

⁃ Cabral, deixa de apresentar aqui “meu comandante”. Comandante esse aqui é meu advogado e amigo.

Sai do carro, apertei a mão do comandante, encabulado, não tava entendo muito, desconfiado. De repente, Alemão rodopiou em volta de si. Bateu forte no braço do comandante e exclamou:

⁃ Meu brother, vou lavar, apareça amanhã por lá, vamos trocar uma ideia, valeu!

Fiquei atônito com aquela intimidade, apertei a mão do comandante e partimos. Durante o trajeto de volta, eu falei para o Alemão.

⁃ Cara, você não devia tratar o comandante daquela forma, muito íntimo.

⁃ Por que não?

⁃ Ele é uma autoridade, comandante do Exército.

⁃ Eu sou um ARTISTA!!!!

Sorriso largo, profundo, de quem sabe se valorizar como artista com distinção. Seguiu o caminho que quis… pagou como poucos sua liberdade de ser.


● José Edibal C. Cabral é advogado santareno.

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